Thursday, August 29, 2013

café com Hermes


"Oh! não deixeis apagar a chama! Mantida
De século em século
Nesta escura caverna.
Neste templo sagrado!
Sustentada por puros ministros do amor!
Não deixeis apagar esta divina chama!"
Umas moedas perdidas no meu casaco preto tilintavam sem parar, aliás mais do que o habitual, porque hoje eu precisava muito delas! Parei tudo e passei os dedos por todos os bolsos, até achar a pequeníssima fenda por onde elas tinham passado pra se refugiar tão perto mas tão inacessíveis ao meu toque, mesmo dentro da minha roupa.
Ao final consegui e pude pagar com elas -circuito de trocas com o mundo- o café, divino dom ou mundano vício de todos os meus dias. Dom e vício que me faz querer de fato despertar, pois sem café o dia é apenas um torpor de sono prorrogado, dia que finge que transcorre ante olhos que fingem estar abertos.
Ao tocar as moedas, mas ainda separado delas pelo tecido, recordei as tantas vezes que o tocar da realidade parecia tão próximo, mas ainda sutilmente impedido por alguma barreira de isolamento. Tive a nítida sensação de que, bem ao estilo hermético do "assim em cima como embaixo", e do homem como pequeno cosmo que é imagem do grande cosmo,  Deus me mandava um sinal que só vim a compreender ao recordar dos versos acima. 
O convite do poeta - de todo poeta- é para que despertemos para o tesouro mais precioso que nos aguarda trancafiado dentro do coração: a Sabedoria ancestral, que remonta a Hermes Trimegisto, o "Abraão" dos hermetistas (não por acaso o nome que levam) ao longo dos milênios. Como Abraão, Hermes Trismegistus ("três vezes grande") é pai fundador de uma fé, se entendemos a palavra no sentido da confiança, da entrega, do "deixar tua terra e tua parentela", como fez Abraão, e nos tornarmos povo de êxodo e de travessia pelas tormentas do mundo, rumo à Terra prometida pelo Senhor. A "fé" hermética não entra em conflito e em disputa com fé nenhuma, dos antigos xamãs aos aiatolás de Maomé, seu lugar é de "hermenêutica" -ou seja, interpretação e compreensão de textos do real, os escritos, falados e os vividos no cotidiano ou no extraordinário, "texto" como o das moedinhas perdidas em meu bolso, tilintando sem poder exercer seu valor na prática, hoje de manhã. 
E de novo vemos Hermes presente no espírito da palavra, somos "hermeneutas" em homenagem a Hermes, seja o Hermes egípcio ou o deus grego de mesmo nome, e chamado Mercurius entre os latinos, deus das comunicações entre o superior e o inferior, vínculo de conjugar o assim na terra como no céu. 
A filosofia hermética propriamente dita teve enorme importância para os alquimistas e bruxos do Renascimento -pois eram saberes que, além de ressuscitar paradigmas da Antiguidade, se punham, como todo o humanismo renascentista, em rota de colisão com a mentalidade clerical e teocêntrica da época. Isso porque o saber hermético (adjetivo que tem a fama de coisa difícil, cifrada, pra poucos, por exemplo na crítica que fala em poetas herméticos)  não nega, mas reinterpreta os preceitos dogmáticos num outro contexto semântico, em que o homem é responsável por sua própria iluminação, operário da vasta oficina de forças e materiais, de ideias e rituais, chamada Natureza, nossa Mãe e Medeia, de acordo com nossa aceitação dela. Tudo depende de nós, proletários (a opção preferencial da Igreja pelos pobres faz todo sentido), embora sem a concordância de Deus o trabalhador trabalhe sempre em vão, como diz a Palavra bíblica. 
Graças a Deus, aliás, estamos em tempos de novas convergências, a ponto de uma editora católica como a maravilhosa Vozes dar abrigo às Obras Completas de um mago como Carl Gustav Jung, inclusive a seus textos mais iconoclastas sobre religião e alquimia. Nos quais ele reivindica claramente a polaridade deus/diabo, bem/mal, como inerente, senão ao Deus "em si" -quem somos nós para saber o que é ou o que não é?-, à nossa imago dei, o Deus interno, que é santo e pecador como a Igreja que é sua imagem terrena. 
O hermetismo passa a ser passível, como a psicologia junguiana, de ser usado como ferramenta de trabalho com mil e uma utilidades, o que sempre foi. Todo saber é ferramenta de construção, não se basta a si mesmo, o que importa é a Vida para a qual o saber rende homenagem e serviço. É como as minhas paupérrimas e preciosas moedinhas, existem para circular, para trocar, comunicar e nos permitir acesso ao bem-estar íntimo que todavia provém do fora, ou melhor, do "entre" (no duplo sentido, d intermediário e do convite a que entremos no alheio), em que tomamos e pagamos nosso café.
-Unzuhause-