quinta-feira, agosto 08, 2013

patinando entre ego e Self


Por algum motivo edipiano sempre tive resistência a comentadores junguianos. Não me refiro a nomes como James Hillman, cujo vigor criador é forte o suficiente pra constituir uma obra própria, em tensão com sua matriz junguiana "clássica", como se diz entre os hillmanianos. Mas me refiro a comentadores mesmo, gente que, sem a densidade, poesia, mística e, por que não, truques de gênio do mestre, se limita a repetir proposições, como se tivessem efeito de lei pelo mero fato de serem enunciadas. Hipóteses de trabalho se fossilizam em verdades absolutas. Erudição abismal se reduz a dicionário de símbolos monoglotas. A aventura de Jung, enfim, se vê achatada (no duplo sentido) a esquemas mecânicos de resolução-de-problemas. Nada mais distante deste anfitrião das profundezas. Nada mais asfixiante da jugular deste Proteu capturado e "explicado". Nada mais falsificador para um mito do que racionalizá-lo, seja este mito antigo ou moderno, religioso ou psicoterapêutico - a psicoterapia é uma metáfora moderna, com um solo histórico e seiva de poesia a lhe dar sentido e legitimidade.
Tudo isso não elimina aquele bastidor edipiano que insinuei acima. Síndrome de filho único. Jung, meu pai, meu mestre, meu Hermes, eu não costumo curtir quando seu nome é pronunciado em vão pelos não-iniciados,  acadêmicos chatos e todo aquele que não tem alma de poeta, músico, dançarino e sábio.
Pois tudo isso não é nada disso, quando me permito surpresas e o prazer de ter minha opinião inteligentemente desmentida. Tem sido assim nesses dias de leitura de um junguiano ao qual sempre resisti, Edward Edinger. Intuía-o morador da vala comum de junguianos diplomados e, apesar disso (ou por causa disso..) não-iniciados. Mas seu Ego e Arquétipo tem me conquistado. Vejo ali um viço diferente do espírito lacaniano de re-volta "transcriadora" à la Hillman (todo criador tem contas edípicas a acertar com sua angústia da influência). Mas nem por isso uma obra sem criatividade. A ideia de "eixo ego-Self" é de uma elegância e clareza que, evocando a teoria clássica, de certo modo a redimensiona, a organiza, a renova, como sói acontecer entre os mestres das grandes linhagens espirituais da humanidade: professores e alunos vão pelas eras se sucedendo e transformando palavras, tornando-as mais ressonantes para cada novo contexto, sem contudo atraiçoar e banalizar a tradição herdada.
Eixo ego-Self, tentando aqui breve definição, é o esquema de articulação entre a identidade pessoal e o pano de fundo arquetípico de cada um de nós. É o enodamento possível destes "opostos" quando o ego, uma vez desenvolvido em anos e em qualidade psíquica, é adulto o suficiente para já não estar diluído, engolfado no inconsciente primordial (do qual o Self é centro e o todo). O eixo ego-Self, pois, é um modo gráfico de dizer o traço de união do indivíduo com nossas origens quando estamos libertos do devoramento no Útero coletivo, mas ainda assim não queremos  a individualização alienante, essa do homem moderno quando, esquecido do Ser, dos deuses, divorciado dos símbolos (natureza e cultura), é idólatra de signos (meramente artificiais), é adorador de ideologias e posses do que brota e logo fenece no tempo e no espaço, na cotidianidade decaída. 
Edinger ajuda a ver que o arquetípico não está na obsessão escolástica de ver identidade de mitos da China ou do Alasca, mas sim em partir dos "cenários psíquicos" concretos, nossas agonias, anseios, dificuldades, que são universais na intensidade com que ocorrem, não na extensividade abstrata do colecionamento de exemplos de gabinete. Intensidade que, ela sim, se abre a amplificações que podem vir da Bíblia, da Grécia, dos povos ameríndios, mas isso num diálogo sereno entre o específico dos mitos individuais da clínica e o remoto dos mitos coletivos da história.
 Em tempos como o nosso, de informação maciça sobre tudo, inclusive sobre mitos de todos os cantos do mundo, fica complicado decidir o que nos sonhos e fantasias é mitologia "mediúnica", inata transmissão direta do universal no particular, e o que é adquirido, lido, visto na TV etc. Por isso me parece que a proposta junguiana de uma terapêutica pelo arquetípico parece especialmente atraente nessa mediação de Edinger: a das situações humanas que, como num teatro de máscaras com tipos suprapessoais, nos convocam um a um a tomarmos provisoriamente dessa ou daquela fantasia / figurino não inventados por nós, mas que sem nosso corpo próprio, do "número" certo, não passaria de trapo guardado no armário.
 Exemplos deliciosos de manejo propriamente junguiano, portanto psicoterapêutico, do mito, Edinger nos dá já pelo talento com que relata as desventuras da "inflação", isto é, a situação humana (universal, arquetípica) em que queremos dar um passo maior que a perna, em que nosso ego cobiça o que não é dele, mas dos "deuses". Adão e Eva abocanhando a maçã do bem e do mal, embora aqui Edinger faça um elogio "gnóstico" a nossos pais, cujo "pecado" na verdade foi a coragem de tomar consciência, e toda consciência é uma "queda", assim como a etimologia de "sucesso" remete a ideias de cair, de diferenciar-se. Ixíon, o sonhador infeliz que queria comer a esposa de Zeus e, ludibriado por uma Hera fantasmática, foi pego no flagra por Zeus (que criara essa ilusão de ótica em forma de sua gostosa esposa) e  lançado ao inferno para girar sem parar preso numa roda de fogo. Faetonte, o rapaz impulsivo que, ao descobrir-se filho do deus Hélio, corre ao céu para cobrar do pai permissão para dirigir a carruagem mais especial. Muita areia pro caminhãozinho dele, ou melhor, muito fogo pra sua capacidade de domínio, daí a carruagem e o filho do Sol terminarem incendiados.
Beleza na maneira de recontar essas histórias imemoriais, e articulá-las com lucidez a "situações" e "cenários psíquicos" do homem cotidiano: dupla virtude de Edinger, ao lado da sua poderosa releitura teoria junguiana do Sujeito em termos da tensão e imbricação de ego e self, esse eixo em que tomamos tropeções grotescos mas forjamos danças magistrais, dependendo do talento na patinação. Este junguiano me representa!
-Unzuhause-