Thursday, August 01, 2013

"Pelo amor de Deus, na Cúria eu acabo morrendo"


Pobreza, castidade, obediência: votos sacerdotais tradicionais. Os jesuítas se cobram um quarto: especial obediência ao Papa, além de não buscar posições de autoridade tanto na Companhia de Jesus quanto na Igreja de um modo geral. Tendemos a reagir com cinismo, incredulidade ou coisa pior ante esses preceitos, isso porque eles não soam naturais a nossa modernidade "igualitária" no espírito de cobiça individual de poder e, avessa, no papel, a um princípio caríssimo não só à Igreja, mas ao mundo antigo e medieval no qual ela se forjou: hierarquia. Que, na teologia, remonta pelo menos ao Pseudo-Dionísio (século VI) e sua sofisticadíssima articulação da fé cristã a esquemas de pensamento do neoplatonismo: do mundo das Ideias às coisas e gente pedestre do mundo terreno, o caminho é de queda, de desigualdade de qualidade, graus cada vez maiores de distância do divino. A hierarquia eclesiástica refletiria esse princípio nada "igualitário", nada populista, com que os medievais ressaltavam que o reino deles não era o deste mundo, pois aqui estamos de passagem num vale de lágrimas horrendo, imperfeito, injusto, que cabe, claro, aprimorar, mas não fingir ser um paraíso dado ou passível de se construir. O homem medieval, como o indiano e o de outras sociedades fortemente hierarquizadas, não põem suas esperanças de glória e plenitude em nada que respira e logo apodrece, mas sim nas realidades transcendentes, para as quais estamos desigualmente preparados em nossas maratonas particulares de evolução pessoal. 
Isso para deixar claro que, ao cobrarmos casamento gay, liberação de aborto, fim de celibato e outras modernizações, estamos lidando não com a Igreja "coisa em si", para dizer com Kant; e sim com a Igreja "para nós", como fenômeno amoldável segundo nossos desejos, imperativos éticos, quando não modismos. O analista político ou sociológico fique à vontade para analisar como bem quiser. Mas o católico, o antropólogo ou o historiador das religiões não terão essa mesma liberdade confortável: para eles se impõe, por diferentes motivos, um esforço hermenêutico de compreensão do sistema "por dentro", sem impor enquadramentos conceituais estranhos a essa realidade sui generis, milenar e profunda que é a Igreja fundada por Pedro, já ele todo ambiguidade, contradição, fortaleza e covardia, amor e traição, em relação ao Filho de Deus. Pedro, como a Igreja, um santo pecador. 
Nos meus devaneios pessoais, claro que a Igreja não seria tal qual se apresenta nos noticiários. Ontem, no botequim virtual do facebook, eu dialogava com a grande procuradora Luiza Eluf. Ela externara em sua página  uma crítica à recusa de Francisco em discutir a ordenação de mulheres
-Outra do Papa: ordenação de mulheres? Sem chance nenhuma... E as mulheres são a grande maioria dos fiéis... Difícil de entendê-las!
-dra Luiza, a senhora me encanta pela agudeza das suas ideias, a Igreja, nos meus sonhos (e sem o peso q um Papa carrega nas costas, vide o nivel de sua curia) precisaria de sacerdotisas assim

Não desenvolvi na hora, mas fiquei matutando esse meu argumento, e me colocando no lugar de um Papa que é capaz de declarar, na entrevista à Globo, que evitou as dependências nababescas do Vaticano, optando em morar mais simples e com mais gente,  por "razões psiquiátricas": não suportaria a solidão ainda que luxuosa do poder. A mesma ideia de proximidade com as pessoas o levou, noutra passagem deliciosa da entrevista,  a dizer que Igreja não pode ser para seus filhos-fiéis uma "mamá por correspondência", mamãe de verdade está ou esteve no front da batalha da nossa criação, pega no colo, bota os filhotes debaixo das asas, protege e empurra para o voo do crescimento. Na biografia escrita por Saverio Gaeta, um comentário revelador do então cardeal Bergoglio, que cada vez mais impressionava a Igreja do país e do mundo em momentos como a tomada de posição no massacre de 11 de setembro de 2001; já cogitado para um cargo no alto escalão romano, ele teria assim reagido, secamente: "Pelo amor de Deus, na Cúria eu acabo morrendo".

O que torna esse Papa tão charmoso - seu carisma-, o põe em perigo real nos embates com o avesso do carisma, o poder burocrático. Ele sabe disso, e é prudente o bastante para evitar a espetacularização de virtudes progressistas que um Leonardo Boff está teimando em projetar nele. Nisso revejo e me afasto de meu passado de simpatias ideológicas pelo grande mestre da Teologia da Libertação, embora o aprecie como pensador, crítico e indivíduo, ou seja, em termos bem modernos, ideólogo. Mas viver a Igreja, ou pensá-la em termos de ciência compreensiva e empática, é se submeter a uma específica humildade intelectual, que nos torna ou nos faz ver o homem menos como indivíduo (ficção moderna) e mais como "pessoa", persona, ator de um drama transpessoal, importantíssimo, mas que não diz tudo sobre os inefáveis recessos de nossa busca individual e intransferível do sagrado. 
Concluo destacando algumas notas da biografia que ajudam a pensar esta lógica própria da Igreja, parapolítica -se bem que mergulhada em uma política própria, seus jogos internos de poder e conflitos de extrema intensidade senão crueldade, acirrados desde o Vaticano II:
"Um professor sério e muito preparado, com forte orientação espiritual" ; "todos aqueles que procuram enquadrar o novo Papa em categorias como conservador ou progressista perdem de vista o ponto focal, pois esses termos são políticos, não religiosos. Ao contrário, é melhor considerar aquilo que Bergoglio fez desde que se tornou bispo: a atenção que mostrou pelos pobres e sem moradia fixa. É esta a aproximação dos Jesuítas"
*Padre José María Sang, ex-aluno de Bergoglio no tempo de reitor do colégio Massimo em San Miguel
"O golpe de 1976 foi aprovado por quase todos, inclusive a imensa maioria dos partidos políticos. Se não estou enganado, creio que o único a não fazê-lo foi o partido comunista revolucionário, mesmo se, além disso, é verdade que ninguém, ou muito poucos, suspeitavam aquilo que sobreviria. Em tudo isso é preciso ser realistas, ninguém deve lavar as mãos. Eu estou esperando que os partidos políticos e as demais corporações peçam perdão como fez a Igreja: o episcopado difundiu em 2006 um exame de consciência e, em 2000, pronunciou um mea culpa por ocasião do Jubileu".
*Em entrevista recente, comentando num plano filosófico mais amplo, e com grande coragem,  os rumores, já devidamente rechaçados, de que apoiou ou foi omisso ante o regime militar argentino (1976-1983; Bergoglio foi provincial dos jesuítas na Argentina por seis anos, a partir de 1973
"Visto que em diversos momentos da nossa história fomos indulgentes em relação às posições totalitárias, violando as liberdades democráticas que brotam da dignidade humana. Visto que mediante ações ou omissões discriminamos muitos dos nossos irmãos, sem empenhar-nos suficientemente na defesa dos seus direitos. Suplicamos a Deus, Senhor da História, que aceite o nosso arrependimento e cure as feridas do nosso povo. Ó Pai, temos o dever de recordar diante de ti aquelas ações dramáticas e crués, Pedimos-te perdão pelo silêncio dos responsáveis e pela participação efetiva de muitos dos teus filhos em tal confronto político, na violência contra a liberdade, na tortura e na delação, na perseguição política e na intransigência ideológica, nos choques e nas guerras, na morte absurda que ensanguentou o nosso país. Pai bom e cheio de amor, perdoa-nos e concede-nos a graça de refundar os vínculos sociais e curar as feridas ainda abertas na tua comunidade".
*o mea-culpa dos bispos argentinos, no Jubileu de 2000; repare no final que a metáfora das feridas abertas da comunidade projeta, de novo, uma ideia de sociedade como organismo harmônico, coeso, no qual os conflitos não são senão doença, nada a ver com a metafísica marxista da luta de classes, ou com o elogio atual dos "anar-cóticos" à baderna e à destruição criadora.
"Deixou uma marca de simplicidade e de humildade, e todos os nossos paroquianos o conheceram como homem de profunda pobreza, de muitíssima oração, culturalmente preparado e com uma inteligência intuitiva"
*Padre Angel Rossi, atual superior na paróquia de Córdoba  em que Bergoglio trabalhou como diretor e confessor espiritual
-Unzuhause-