sábado, agosto 31, 2013

Resenhas para a Folha - 31/08/13



FOLHA DE S. PAULO
GUIA DA FOLHA -LIVROS, DISCOS, FILMES
*CAIO LIUDVIK*

POÉTICAS DA FLORESTA
Jovem bonito como o Sol, nascido de uma mãe fecundada por uma fruta, herói-legislador à procura da "mulher perfeita". Esse é Jurupari, protagonista de uma das mais importantes lendas da mitologia ameríndia. E é também ponto de partida  do poeta e tradutor Sérgio Medeiros em "O Desencontro dos Canibais".
Medeiros foi organizador de importante edição, pela Perspectiva, da narrativa indígena original, lado a lado com a de "Makunaíma", inspirador do herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade. No livro que lança agora, transpõe a lenda de Jurupari em contos infanto-juvenis que falam de um canibalzinho que busca uma canibalzinha, ambos "muito sós" e se procurando desencontrados. A procura do próprio Medeiros é por um "canibalismo onírico" que, para além da ideia de sacrifício humano, não come e sim engendra o outro.
Já em "Quando a Terra Deixou de Falar", Pedro Cesarino, professor de antropologia da USP, traduz treze narrativas míticas dos Marubo, povo do extremo oeste do Amazonas. A edição bilíngüe adentra uma de nossas mais cerradas "poéticas da floresta" com a bagagem essencial a todo bom etnólogo, este argonauta da alteridade irredutível: erudição, sensibilidade e a experiência de longos anos de convívio de campo. 
Cesarino trabalhou em colaboração com pajés locais. A formação do Céu e da Terra, dos espíritos e dos animais, entre outros eventos do "tempo do surgimento", é articulada a sua metafísica implícita, por exemplo uma peculiar concepção de pessoa: para os Marubo, além da carcaça física exterior, a pessoa é habitada por uma tríade de irmãos interiores, igualmente corpóreos, de diferentes idades e graus de sabedoria. Um constructo "primitivo" que,  enquanto crença literal, não deixa de nos fazer pensar em variantes esteticamente sublimadas do tema da multiplicidade no sujeito moderno: os heterônimos pessoanos ou os "trezentos, trezentos e cinqüenta" eus do (re)criador de "Macunaíma".
AVALIAÇÃO
BOM (Medeiros)

ÓTIMO (Cesarino)

HOLOCAUSTO BRASILEIRO
Comboios com massa humana despejada em campos de concentração, ali fadada a degradações como ingerir ratos, água de esgoto e urina, espancamento, violações, assassinatos. Uma política criminosa de Estado contra os estigmatizados sociais. Não é casual a analogia que "Holocausto Brasileiro"  traça entre o genocídio nazista e o manicômio conhecido como Colônia, em Barbacena (MG). 
Este livro-reportagem reconta a sinistra história do maior hospício do Brasil, ao longo do século 20. A "razão" psiquiátrica como pretexto da exclusão e discriminação, embora cerca de 70 % dos internos não tivessem sequer diagnóstico de doença mental: eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas violadas por seus patrões, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento. 
Vale a pena complementar a leitura com o documentário "Em Nome da Razão", de Helvécio Ratton (disponível no You Tube), também sobre este nosso Auschwitz, que só começou a ser debelado no contexto da luta antimanicomial dos anos 80.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO
O diagnóstico se assemelha, até pelo título, ao já clássico libelo de Guy Debord contra a "sociedade do espetáculo". Mas "A Civilização do Espetáculo" de Mario Vargas Llosa difere do predecessor por recusar o reducionismo marxista (a cultura como mero epifenômeno das relações de produção socioeconômicas), bem como qualquer terapia pela violência revolucionária. Nobel de literatura e candidato derrotado à Presidência de seu país, o escritor peruano dedica esse ensaio a mazelas como o apequenamento narcísico do intelectual, a banalização das artes, jornalismo sensacionalista, a frivolidade da política e imbecilização do indivíduo; nota uma mutação, por assim dizer tumoral, no que tradicionalmente se entendia como cultura: de lugar de reflexão e despertar da consciência ante as perplexidades e desafios que a confrontam, a cultura se degrada na atualidade a uma mera válvula de escape da sanha de divertimento.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

O PRÍNCIPE E OUTRAS FÁBULAS MODERNAS
No poema "Gitanjali", que lhe valeu o Nobel de literatura em 1913, Rabindranath Tagore explicita uma mística da procura do Absoluto na simplicidade das coisas da vida. A paradoxal grandeza que se esconde na pequenez, o triunfo na derrota, a aura de Mistério divino particularmente achegada ao convívio com os "mais pobres, mais humilhados e perdidos". Também nas fábulas aqui reunidas, o escritor indiano  (1861-1941) celebra, por exemplo, o humilde funcionário do palácio real, que fica para trás no burburinho das carruagens mundanas e pouco se importa, visitado que é pelas carruagens de Deus na forma de girassóis na porta de casa. 
Fala do Príncipe que se recusa a casar senão com a fada do rio dos seus sonhos; contempla o humano em si, como uma corrente de histórias tanto quanto o rio é corrente de água; o humano à imagem e semelhança de um Criador ele também arteiro e artista, amante da ficção -a imagem clássica hindu do mundo tão maciçamente "real" como nada senão um sonho de Deus.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

POESIA REUNIDA
Poeta e dramaturgo de origem croata, Radovan Ivsic (1921-2009) se estabelece em Paris em 1954, em fuga do totalitarismo socialista da então Iugoslávia. Revalorizado como expoente modernista em seu país após a queda do Muro de Berlim, ele foi companheiro de André Breton e Benjamin Péret e teve poemas ilustrados por Miró. Como mostra Fernando Paixão no prefácio, sua obra é de uma influência marcadamente surrealista. Sua escrita automática irradia imagens numa sarabanda a contrapelo da lógica convencional e habitantes de um espaço "hipnagógico", entre o sono e a vigília, sonhos que, num dos versos, ele compara à imagem de peixes, talvez nos dizendo também da agonia e rápida dissipação quando arrancados do mar do inconsciente.
 Uma linguagem de símbolos que respiram na profundeza e em ruptura com os cabrestos utilitários e apressados da vida cotidiana, e que para tanto nos convida a "não olhar antes de ver".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO