quarta-feira, agosto 07, 2013

sobre o anarquismo de direita (II)


Ontem eu comentava a atração subjetiva do jovem Sartre e muitos de sua geração entre as guerras mundias, para com essa curiosa espécime da fauna política ocidental, a figura do anarquista de direita. Tentei sinalizar como, em certas circunstâncias históricas, a vontade de radicalização e ruptura quer "manifestações", militância na rua ou via escrita, por armas ou panfletos, que, como diria Sartre, tem uma "existência que precede a essência". É uma tempestade e ímpeto que, por assim dizer, quer-se a si mesma, quer se e seu querer, que já não se sente representado pelos representantes. Os símbolos vigentes já não bastam, são vidraças de loja que impedem meu consumo e merecem ser arrebentadas. 
Se se vai para a direita ou para a esquerda, se se quer a abolição da propriedade privada ou se suspira pela ordem aristocrática e/ ou clerical (toda diferença entre um De Maistre e um Nietzsche, ambos certamente conservadores que querem "conservações" distintas), a gente pensa depois. Não que não se "pense" agora, como criticam os esnobes que falam mal dos garotos que nem sabem pelo que estão protestando. É o próprio pensar que segue então outra lógica, fluida, dinâmica e afetiva, "élan vital" diríamos com um parente espiritual de Sartre, Bergson. Mitopoeisis. Voltando ao meu livro Sartre e o Pensamento Mítico, publicado em 2007 pela Loyola (meu primeiro encontro de amor, vejo hoje, com a ideologia jesuítica), vejo Sartre tratando do anarquismo de direita já, claro, com distanciamento: como um "sintoma" da crise da democracia francesa e um ressentimento que se alastrava em larga corrente da opinião pública desde o "trauma" de 1789. Sartre assim, com sofisticada sensibilidade para uma história das mentalidades, desentranhava um dos fatores de longa duração responsáveis pelo colaboracionismo: o vasto apoio na população francesa para a Ocupação nazista do país, em 1940. 
-Unzuhause-


"Visão Colaboracionista da História"
*in: LIUDVIK, Caio, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação Arquetípica da Liberdade em As Moscas. S. Paulo: Loyola, 2007
"Colaboracionismo", enquanto adesão de alguém a um país estrangeiro interessado em dominar o país nativo desse alguém, é um fato sociológico tão "normal", ou seja, mais ou menos incidente em todas as sociedades, quanto a criminalidade e o suicídio –tema de estudo clássico de Émile Durkheim, autor, aliás, muito importante, ainda que não citado, neste raciocínio de Sartre (cf. Durkheim, É., 1960).
E o que tais fenômenos têm em comum? Eles são "fenômenos de desassimilação [désassimilation]" (Sartre, J.-P., 1949, p. 46), incidindo sobre indivíduos mal posicionados no status quo vigente. Ressentidos com esta marginalização, os colaboracionistas se mostram receptivos a cooperar com uma potência invasora. Daí que não se possa considerar colaboracionista, da Ocupação da França, a "burguesia enquanto classe", embora a maior parte dos colaboracionistas tivessem essa extração social. Porém muitos dos resistentes –alguns comerciantes e industriais, e boa parte dos intelectuais– vieram também dessa classe social, observação que, feita por Sartre no calor dos acontecimentos, é respaldada por comentários como o de Henri Rousso: "Com exceção dos maquisards, em 1944, os resistentes não são marginais aventureiros, mas cidadãos integrados, citadinos, ocupando freqüentemene posições confortáveis: a Resistência foi mais 'burguesa' do que se disse" (Rousso, H., 1992, p. 110).
No caso de Sartre, tal explicação de cunho "sociológico" tem, é claro, forte afinidade com seu axioma filosófico da liberdade, à época ainda muito marcado pelo decisionismo individual e pela aposta nas prerrogativas do sujeito ante as condições do meio externo. Colaborar foi uma escolha, ou seja, uma "decisão individual", mais que "posição de classe" (Sartre, J.-P., 1949, p. 46).

Uma escolha, porém, que, "fenômeno de desassimilação" que é, tem raiz nas contradições do desenvolvimento histórico da França pós–1789: a Revolução "deixou subsistir à margem da comunidade democrática um resíduo que se perpetuou até nossos dias" (ibid., p. 48). Um resíduo constituído por pessoas que "se recusaram a se adaptar à constituição republicana", e que, ao londo de um século e meio, mantiveram–se à parte, sem quaisquer liames com "nossa história e nossa cultura". Daí que se possam deinfir os colaboracionsitas pela curiosa alcunha de "anarquistas de direita" (ibid.), pois eles se sublevavam contra todas as leis da República, se diziam desobrigados em relação a impostos, desacatavam o monópio estatal da força – praticando toda sorte de violência contra seus inimigos –, mas isso por ansiar por uma "ordem" mais impositiva, mais autoritária, à qual poderiam enfim se entregar e se integrar. "Fruíam" da liberdade anarquista sem verdadeiramente assumi–la, em todas as suas conseqüências. Tais setores festejaram a derrota de 1940 como "o fim da República" (ibid.).