Monday, September 16, 2013

a maçã insanamente mais gostosa

Uploaded on Sep 17, 2010
Esse Spot começava com uma deixa tirada de outro anúncio que fora descartado: "Por que 1984 não será como 1984". A agência responsável pela campanha contratou o diretor britânico Ridley Scott para filmar o anúncio. Scott retratou um futuro sombrio, onde uma estridente propaganda política do Grande Irmão, saindo de uma imensa TV, induz as massas a submissão. De repente entra correndo uma mulher atlética com uma camiseta do Macintosh, que arrebenta a tela arremessando uma marreta. O spot de 60 seg não mostra o Mac em momento algum, mas a mensagem era clara: o Mac iria libertar os oprimidos usuários de computador da hegemonia da IBM.

Esse anúncio, que marcou época, aparece no filme "Jobs", em cartaz em São Paulo. Marcou época pelo produto anunciado - o Macintosh- mas pela própria genialidade do anúncio, de sua visão, que era a do Thomas Edison de nosso tempo, Steve Jobs. Gênio não tanto das mãos na massa, da habilidade técnica de inventar, como o xará Steve Wozniak, com quem fundou a Apple. Gênio pela capacidade de compreender e explorar o alcance humano e social dos inventos que supervisionou. Gênio da Liderança.
O filme, estrelado por Ashton Kutcher, poderia ter ido mais fundo, porém retrata muito bem esse aspecto, pelo excelente desempenho do galã, inclusive. Kutcher soube se doar ao papel, ou quem sabe se espelhar nele -já que Jobs tinha tudo, inclusive a beleza, e sobretudo o carisma, de uma celebridade pop.O ex de Demi Moore soube vivenciar o que no teatro eu ouvia ser a "partitura" do trabalho do ator,analogia musical que vem bem a calhar como metáfora das ações físicas e fluxo emocional a serem manipuladas, com paixão e destreza matemática, para que o "mágico se" -e se eu fosse aquele  personagem?- consiga se encarnar convincentemente sob luzes da ribalta. O Jobs de Kutcher chora, ri, viaja (para a Índia e para as alturas do LSD), é impulsivo, é arrogante, é egoísta, não sabe perder mas sabe como poucos vencer. Seu segredo? De polichinelo, mas ainda assim para poucos: o american dream do homem hiperdeterminado, obcecado para fazer a diferença, para deixar sua marca no mundo, não ser mais um, não importam os obstáculos pelo caminho. Jobs, sem ter nada de bonzinho, ainda assim se conectava a um ideal progressista, de tornar o computador pessoal uma realidade de massas, levar as grandes invenções, como o IPhone, iPod, para o homem comum, o "resto de nós", como dizia o slogan do Mac; e fazê-lo cuidando pela beleza e pela simplicidade do design, além de um ideal de silêncio que aprendeu com os mestres zen, e que o  fez contrariar, como vemos em "Jobs", o sofisma de que todo computador tem que ser barulhento por causa do ventilador e do aquecimento.

Todo ideal luminoso projeta uma sombra de tamanho proporcional, e a falta de "caráter", pelo menos de afetividade desarmada no trato pessoal com amigos, subordinados, namorada grávida- rondava as atitudes de Jobs. O filme aborda mas não explica direito uma passagem do início da parceria com Woz, em que eles recebem mais do que fora combinado por uma encomenda, embora Jobs repasse para Woz a metade que estipulara previamente, sem nem avisar do adicional que o patrão havia concedido. 
Creio que a saída da Apple, em 1985, foi a queda para o alto de que Jobs precisava para se lapidar como ser humano mais completo, sem perder as virtudes (nem sempre politicamente corretas) da genialidade. Após o choro da derrota para os canalhas do conselho administrativo, a cena seguinte do filme o mostra com as mãos na terra, plantando, curtindo um dia de sol em casa, com a esposa, com a filhinha. Dia também em que receberia o convite para o retorno à empresa que fundara mas da qual fora expulso bem à maneira da 'corrosão do caráter' de que fala o sociólogo Richard Sennett ao analisar a era do turbocapitalismo e do declínio do homem público.
O filme vale muito a pena. Amo Jobs, amo Jó, amo o sofrimento que nos põe o pé na cova mas que abre depois espaço para replantar a Árvore do Conhecimento e seus deliciosos frutos, a macieira do Bem e do Mal, do ir além dos limites, maçã do pecado, insanamente ótima, como diria Jobs, e da qual ele colheu o bíblico e newtoniano símbolo de sua empresa e de seu mito.
-Unzuhause-