quarta-feira, setembro 04, 2013

alma na fornalha


"Tu, portanto, não te deixes seduzir, ó mulher, assim como te expliquei no livro que trata da Ação. Não comeces a divagar procurando Deus; mas permanece sentada perto do teu forno, e Deus virá até ti, que está em toda parte; ele não está confinado no lugar mais baixo, como os demônios".
Colho numa coletânea de textos alquímicos esta preciosa passagem de Zózimo de Panópolis, alquimista grego dos primeiros séculos da era cristã. Ele se refere a uma misteriosa mulher "com a veste púrpura", mulher cuja presença junto ao forno parece ser um símbolo da inspiração, do estado de espírito que torna possível a realização da Grande Obra alquímica. 
Trata-se de um indicativo de que, como Heráclito, que considerava o fogo a "arqué", o princípio fundamental de todas as coisas, os alquimistas também privilegiam o elemento ígneo senão como princípio cosmológico (de explicação objetiva das bases do mundo), ao menos como o arquétipo de uma sabedoria que, em sua religiosidade passional, dai tambem ignea, re-liga, queimando e fundindo, espírito e matéria, consagrando a Natureza como a grande retorta, a garrafa que aprisiona (mas também abriga e ampara) o gênio que quer sair e transmutar também a garrafa como todas as coisas fora dela. 
A fornalha como símbolo da purificação dos metais e da provação que liberta a alma das compulsões demoníacas, que querem de nós o fogo, mas do inferno, o baixo que também somos, é verdade, mas querem só isso, o diabo é monótono, ao contrário de quem acha que o céu é que lugar dos chatos e parados. Confiram o episódio da fornalha em que os homens de Deus foram lançados pelo imperador Nabucodonor:

Os três homens lançados na fornalha (episódio bíblico)

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Todas as passagens da Bíblia sobre o episódio "Os três homens lançados na fornalha".

Daniel 3

19 Nabucodonosor ficou tão furioso com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que o seu semblante mudou. Deu ordens para que a forna­lha fosse aquecida sete vezes mais que de costume
20 e ordenou que alguns dos soldados mais fortes do seu exército amarrassem Sadra­que, Mesaque e Abede-Nego e os atirassem na fornalha em chamas.
21 E os três homens, vesti­dos com seus mantos, calções, turbantes e outras roupas, foram amarrados e atirados na fornalha extraordinariamente quente.
22 A ordem do rei era urgente e a fornalha estava tão quente que as chamas mataram os soldados que levaram Sadraque, Mesaque e Abede-Nego,
23 e estes caíram amarrados dentro da fornalha em chamas.
24 Mas logo depois o rei Nabucodonosor, alar­mado, levantou-se e perguntou aos seus conse­lheiros: "Não foram três os homens amarrados que nós atiramos no fogo?"
Eles responderam: "Sim, ó rei".
25 E o rei exclamou: "Olhem! Estou vendo quatro homens, desamarrados e ilesos, andando pelo fogo, e o quarto se parece com um filho dos deuses".
26 Então Nabucodonosor aproximou-se da entrada da fornalha em chamas e gritou: "Sadra­que, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saiam! Venham aqui!"
E Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saíram do fogo.
27 Os sátrapas, os prefeitos, os governadores e os conselheiros do rei se ajunta­ram em torno deles e comprovaram que o fogo não tinha ferido o corpo deles. Nem um só fio de cabelo tinha sido chamuscado, os seus man­tos não estavam queimados, e não havia cheiro de fogo neles.
28 Disse então Nabucodonosor: "Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus.
29 Por isso eu decreto que todo homem de qualquer povo, nação e língua que disser alguma coisa contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja despe­daçado e sua casa seja transformada em montes de entulho, pois nenhum outro deus é capaz de livrar alguém dessa maneira".
30 Então o rei promoveu Sadraque, Mesa­que e Abede-Nego na província da Babilônia.

Acho também interessante, em termos psicológicos, essa alusão a uma atitude firme e consistente de, na permanência junto ao "forno", não se sair zanzando à toa ou em desespero na procura de Deus, que não é Deus de comércio e mendicância espiritual (meu deuzozinho, não sou ninguém, me acuda, me protege que sou fraco etc etc), mas Deus dos fortes, ainda que pobres, ou porque pobres, porque assim são mais capazes (Deus é uma capacidade de cada um de nós) do Deus da graça, da gratuidade das coisas que, como o amor, nos procuram quando menos nos "pre-oucupamos" com elas. A vida como aquilo que nos acontece enquanto fazemos outra coisa, já dizia John Lennon sobre essa atitude desprendida.
-Unzuhause-