Thursday, September 05, 2013

Bukowski e o míssil do escritor

O seguinte poema de Bukowski é belo e útil como os mestres da auto-ajuda da filosofia clássica- cuja meta era de uma sabedoria para aprimorar a vida. No universo da competição, se diz que o competidor "não tomou conhecimento" do adversário quando a vitória foi por goleada, com grande facilidade, por mais qualidade que houvesse do lado de lá. Bukowski aqui nos mostra um princípio análogo, valendo para a competição interna que o escritor tem pela frente a cada vez que ousa irromper, impondo seu dizer, por sobre o silêncio indiferente de uma página de papel ou tela de word. Não tomar conhecimento, no caso, vai além de "ignorar", mais que o adversário, as adversidades. Presume também depurar quaisquer venenos mentais que a vida cotidiana e nossos automatismos subconscientes misturam ao combustível puro do ato criador. Somos ferraris zero quilômetro funcionando como calhambeques, por culpa -ou melhor, responsabilidade- da gasolina viciada que são as mediocridades da cobiça ou do receio, do interesse mesquinho ou da punhetagem estéril sobre generalidades sem vida; não tomar conhecimento é se deixar levar pelo "irresponsável" impulso que, não conhecido, nos conhece e que por nós, na travessia dos nós se quer desatar como pa Lavra que cultiva no terreno árido do sem sentido. Construímos sentidos quando eles nos constroem e fluem por nós, sem "esforço", como o conceito taoísta da não-ação, por mais trabalho intencionado que se exija nas preliminares do grande gozo. A modéstia, dir-se-ia santidade essencial do escritor é saber-se humilde servo de forças que escapam a seu controle, que lhe dão um dom pelo qual cobram muito, em falta de dinheiro e de reconhecimento, falta de enturmamento na mediocridade do mundo, porque a nossa própria miséria nos atrai infinitamente mais como campo de criação que precisa ser fecundado e transmutado. Não há redenção do que não foi cuidado: o escrever é o "juízo final" que Lutero via antecipado no fogo dos alquimistas, que queima, derrete e elimina o que não serve, o que não presta e nos amarrava no conforto falsário. Liberdade plena ainda que provisória, porque desfrutada no tempo, não como o Eterno; o homem criador como deus do tempo, deus paradoxal que infinitamente pobre, despossuído e solitário infante do destino se faz grande e autor de si. Em tempos de canalhas carregando serelepes as valises e os botões da terceira guerra mundial, os "mísseis" que nos importam são estes de que fala Bukowski: mísseis miraculosos que no seu matar é que engendram, queimando as tripas em que arde imortal a salamandra do coração.

 -Unzuhause-


então queres ser um escritor?

Charles Bukowski

(Tradução: Manuel A. Domingos)
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.