Monday, September 16, 2013

Evangelho do dia: a cura gay


Amigos, o Evangelho de hoje está entre os trechos mais "desconfortáveis" para fundamentalistas à la Feliciano. Um centurião romano, portanto agente da Ocupação, identificado com a opressão do povo judeu do qual Jesus é o Messias tão esperado, pede ao Senhor que lhe cure um servo. Num nível mais evidente de interpretação, estamos diante da universalidade (catolicismo) da mensagem de Cristo, que não faz acepção de pessoas, pois o que busca é o coração puro e originário, comum a todos os homens. 
Pobreza, em especial a pobreza de espírito (humildade e entrega a Deus), caracterizam os "favoritos" de Deus, é verdade. A começar da ideia mesma de ter um "Povo Eleito", e desde Caim e Abel, Deus mostra a temerária tendência a ter favoritos, o que é rastilho de pólvora de toda sorte de invejas e rancores. Cristo renova essa tendência da maneira mais paradoxal possível: se diz médico que veio para os doentes, não para os sãos. Se compara ao pai que celebra o retorno do filho rebelde, o pastor que resgata a ovelha perdida, enfim, a Força da Vida que se alegra menos pelos fortes que pelos "fracos", ou pelos que fraquejaram de alguma forma, cumprindo o ciclo completo da queda e do reerguimento. Da reforma íntima, diria com os amigos kardecistas. Eu confio mais numa Madalena arrependida, sexy e esposa de passado duvidoso, do que em beatas virgens feias que, se não pecam, é apenas por covardia e recalque. 
Inquietante também é a relação entre esse centurião romano e seu servo. Pra mim, sempre soou ao amor que não ousa dizer o seu nome. Mas que nem por isso deixou de pecar o pecado sem perdão, que seria renunciar ao direito, ou melhor, ao dever, de ser feliz tanto quanto se respirar, e respirar por suspiros de amor. De todos os tipos, desde que são, seguro e consensual.
Feliciano personifica uma "cura gay" muito diferente. O ciclo da reforma íntima, de queda e redenção, não significa final feliz pelo reenquadramento dos desviados. Significa descoberta do que se é, do melhor de si que é bom porque aceita também o pior. E nessa hierarquia, o tipo de amor, se hetero, bi, homo, assexual, não interessa. Não é critério para diferenciar o certo do errado. Cristo veio para todos, sobretudo para os desviados, ensinando o reto caminho da fidelidade ao Desejo, que no seu alfa e no seu ômega é sempre divino. Mirem-se no exemplo do olhar profundo com que Cristo olhou para o opressor soldado romano e o viu despido das máscaras de opressor, de soldado, de romano. Viu um homem. Que, ao que tudo indica, gostava de homens. De um em especial, seu subordinado, cruzamento sociocultural que o Brasil mestiço viria a conhecer de montão. Brasil mestiço e pagão, como a  Roma pré-cristã, que não impunha as neuras que futuramente pesariam contra o amor gay. Cristo tá nem aí para neuras. Veio nos libertar de todas, pela simples "receita" médica do Amor. Ele cura.
-Unzuhause-


Evangelho segundo S. Lucas 7,1-10. 
Naquele tempo, quando Jesus acabou de falar ao povo, entrou em Cafarnaúm.
Ora um centurião tinha um servo a quem dedicava muita afeição e que estava doente, quase a morrer.
Ouvindo falar de Jesus, enviou-lhe alguns judeus de relevo para lhe pedir que viesse salvar-lhe o servo.
Chegados junto de Jesus, suplicaram-lhe insistentemente: «Ele merece que lhe faças isso,
pois ama o nosso povo e foi ele quem nos construiu a sinagoga.»
Jesus acompanhou-os. Não estavam já longe da casa, quando o centurião lhe mandou dizer por uns amigos: «Não te incomodes, Senhor, pois não sou digno de que entres debaixo do meu tecto, pelo que
nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma só palavra e o meu servo será curado.
Porque também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e soldados sob as minhas ordens, e digo a um: 'Vai', e ele vai; e a outro: 'Vem', e ele vem; e ao meu servo: 'Faz isto', e ele faz.»
Ouvindo estas palavras, Jesus sentiu admiração por ele e disse à multidão que o seguia: «Digo-vos: nem em Israel encontrei tão grande fé.»
E, de regresso a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.