domingo, setembro 08, 2013

Evangelho do dia: um itabirano na metrópole



O Evangelho deste domingo, bem como o comentário que o acompanha, me enchem de alegria num momento em que minha existência parece toda ela ecoar em uníssono a necessidade de renúncia e partida. Nunca senti tão agudamente quanto agora o quanto sou pobre, tenho ganho menos do que o funcionário do bar que me serve o café para minhas viagens interplanetárias de leitor e aspirante a Escritor.. Adquiri uma nova clareza de discernir o que recebo pela contingência da família e o que de fato eu amealho em remuneração a meu próprio trabalho. 
Antevejo o mundo de contas a pagar, só esperando atrás das nuvens para me atacar com sua sanha devoradora, quando o Sol e a Lua, pai e mãe imaginários de meu conto de fadas infantil, derem, como o Congresso americano, o "sim" à invasão militar. 
Constato o quão pouco eu, que tanto admiro o sacrifício (sacro-ofício) dos santos, isto é, do ego que renuncia a si mesmo pelo Self, do Adepto que, livre do mundo, se faz servo de Deus tenho me "sacrificado" no sentido contrário, o do Self que aceita se achatar para caber no mundo egoico cotidiano, aceitando a "cruz" de empregos insuportáveis em troca da alegria de feriados prolongados, como vejo a gente comum que esfrega as mãos quando o próximo dia de santo (que ela ignora quem seja) está para chegar e enfiar a madeira que interrompe a roda do trabalho infinito no que não queremos para comprar merdas de que não precisamos.
Entre a admiração espiritual que não vira ação e ação (mundana) que meu espírito rejeita, fico por muitas vezes estancado na inércia, não a inércia que, como o chão, permite o caminhar. Inércia como dizem os magos, das "areias movediças" cósmicas, da disformidade, esperando algum disco voador, como na música SOS de Raul, vindo aureolado de uma luz neon violeta ou azul marinha para me levar embora deste mundo de trabalho e de fornicação que pra mim é tão curioso e distante quanto se eu assistisse um programa de TV sobre gansos estranhos que durmam no inverno de ponta-cabeça numa ilha virgem qualquer. 
Por isso o prazer das palavras de Cristo me percorre não sem um tremor e temor de que quem as aplauda em mim são meus vícios, minha inadaptação, meus "desvios" de processo de aprendizagem, meu retardamento social. Sinto que as pessoas chamadas (ou condenadas) à santidade (isto é, ao estado de separados) têm algo de idiotas no sentido do herói de Dostoiévski. Pureza que tem nojo a misturas como a estupros. A questão é como administrar essa idiotice, isto é, pela etimologia do termo, esta solidão solipsista, esse sentimento de abismo, em que a pessoa mais próxima de nós parece nos falar como se estivesse numa ligação telefônica com uma terceira pessoa, enquanto eu contemplo seus movimentos de cabeça e boca estando do lado de fora da cabine à prova de som. Me sinto tão vivo quanto a estátua do poeta itabirano: meu corpo remete a uma ideia que já não me habita, que me faz sombra de mim. 
Creio que a história das religiões me atraia como ofício, e Cristo como Mestre e Sentido de existência, por razões que vão das mais toscas às mais elevadas. Sub e supraconsciente em tensão e concerto de vozes como num show da espetacular banda de metal sinfônico Therion, nome grego para a Besta; Aleister Crowley provocava seus conterrâneos vitorianos chamando-se a si mesmo de Mega Therion, a Grande Besta. Assinava muitas cartas apenas com o número 666. Sem pretensões a pactos fáusticos com o demônio (apesar de o livro de Goethe me visitar em sonhos), vivo a "Besta" no sentido mais prosaico do "eita vida besta, meu Deus", itabirano na grande metrópole, vida de quimeras, frustrações, encontros abortados, pessoas que decepcionam, anos que se escoam, ruína a caminho. E, mais recentemente, de dinheiro que me falta, e que na sua ausência trai a verdade de uma sociedade em que tudo tem preço, até nossas sacrossantas liberdades individuais. Nunca fui mais "black bloc" do que nestes dias em que a carestia me premia com argumentos bem convincentes sobre a necessidade de destruir tudo. Necessidade adolescente, pelo menos. É o que me sinto, eterno adolescente! Que pede perdão a Cristo pela demora em largar tudo e ir enfim ao encontro do Destino, do Desígnio, do Design original que minha face tinha ainda antes de eu nascer.
-Unzuhause-

Evangelho segundo S. Lucas 14,25-33. 
Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo.
Quem não tomar a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo.
Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele,
dizendo: 'Este homem começou a construir e não pôde acabar.' 
Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil?
Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz.
Assim, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.» 


Comentário do dia 
Filoxeno de Mabbug (?-c. 523), bispo da Síria 
Homilia nº 9; SC 44

Ser seu discípulo
Escuta a voz de Deus que te impele a sair de ti para seguir a Cristo [...] e serás um discípulo perfeito: «Qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.» Depois disto, o que poderás dizer, o que poderás responder? Todas as tuas hesitações e interrogações caem por terra perante esta única frase [...] de Cristo, que também diz noutro sítio: «Quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna; [...] se alguém Me servir, o Pai há-de honrá-lo» (Jo 12,25-26).


Disse também aos seus discípulos: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!» (Jo 14,31) Com esta frase demonstrou que nem o seu lugar, nem o dos seus discípulos, é deste mundo. A quem iremos nós então, Senhor? «Onde Eu estiver, aí estará também o meu servo» (Jo 6,68;12,26) Se Jesus nos diz: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!», quem será insensato bastante para consentir permanecer com os cadáveres nos seus túmulos ou habitar entre os mortos? Assim, de cada vez que o mundo te atrair, lembra-te destas palavras de Cristo: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!» [...] De cada vez que queiras sentar-te, instalar-te, comprazer-te em ficar onde estás, lembra-te dessa voz que te impele e diz a ti próprio: «Levanta-te e vamo-nos daqui!»


Porque, seja como for, acabarás por ter de partir. Mas deves fazê-lo como Jesus, deves ir-te porque Ele to disse, não porque as leis da natureza te obriguem contra a tua vontade. Quer queiras, quer não, vais pelo mesmo caminho daqueles que partem. Por isso, parte por causa da palavra do teu Mestre e não pela necessidade desse constrangimento. «Levanta-te e vamo-nos daqui!» Esta é a voz que desperta os sonolentos, a trombeta cujo toque afugenta o torpor da preguiça, a força (e já não só palavra) que amiúde reveste aquele que a ouve dum vigor novo e o impele duma coisa à outra num abrir e fechar de olhos. [...] «Levantai-vos, vamo-nos daqui!», e eis que também Ele parte contigo. Porque tardas? [...] Deus chama-te a partir em sua companhia.