Monday, September 30, 2013

Freud, Schreber e as flores de almodóvar


Neste sábado acompanhei o curso "As Psicoses - Chaves de Leitura para o Seminário 3 de Jacques Lacan", no Ipla, Instituto da Psicanálise Lacaniana, presidido por Jorge Forbes.  Das cinco aulas de nosso longo e interessante percurso, vou destacar aqui a primeira, da psicanalista Dorothee Rüdiger. 
Ela tratou do mais importante psicótico na história da psicanálise, apesar de, paradoxalmente, não se tratar de um paciente psicanalítico: Daniel Paul Schreber, destacado jurista da Alemanha de fins do século XIX e início do XX. O "caso Schreber"é uma construção eminentemente textual, isto é, deriva de uma "análise" por Freud não do próprio Schreber, mas de suas célebres Memórias de um Doente dos Nervos. O texto de Freud é de 1911, mesmo ano em que morria o "presidente Schreber" -assim chamado pelo importante cargo de juiz-presidente da Corte de Apelação da cidade de Dresden. Foi a nomeação para este cargo, aliás, que precipitou o segundo surto de Schreber, em 1893, o que o trancafiou até 1902 em sanatórios desde onde escreveu suas experiências e as "revelações" divinas que devia legar à Humanidade. O primeiro surto, em 1884 decorreu não do aparente sucesso, e sim do fracasso, isto é, o da derrota numa disputa para deputado no Reichstag. Foi então tratado pelo dr. Flechsig, de tanta importância, posteriormente, como vilão em seu sistema delirante. Nos dois casos, porém, uma dificuldade de suportar a notoriedade, seja a positiva seja a negativa (seu nome foi parar nos jornais sob o estigma do fracasso eleitoral).
Reconstruindo o argumento freudiano, Rüdiger nos aportou dados muito interessantes e nem sempre evidentes na leitura meramente teórica e abstrata. Para tanto, se valeu da "sorte" adicional de ser alemã, e assim habitante nativa do universo linguístico e intelectual de Schreber. Ela nos mostrou, por exemplo, a grande importância do pai de Schreber, um médico, pedagogo, político, idealizador de um projeto que concedia terras para os operários cultivarem, o chamado "Schrebergarten", jardim de Schreber.
Além de tudo isso, acrescentou piscando os olhos, um belo homem, de feições másculas, postura altiva, tudo isso concorrendo para o drama que Schreber filho não soube suportar: o amor de tinturas eróticas pelo pai, sublimado em admiração mas contraposto ao ódio a uma figura também tirânica, adepto de uma rígida leitura do lema "mens sana in corpore sano" (mente sã em corpo são). O pai antecipando assim a atual religião do academicismo (não mais o intelectual, mas o da academia enquanto templo do "fitness"). cultuava o corpo ereto, as formas ideais, a beleza rija. Desenvolveu aparelhos ortopédicos para crianças, sendo que os experimentava nos próprios filhos -o irmão de Schreber, que seria esquizofrênico, segundo Freud, se suicidou. 
O primeiro surto, que o fez ser internado por seis meses (duração longa, para a época), envolvia o pavor em relação aos alimentos - se recusa a comer para não engordar, uma espécie de "fagofobia" que hoje em dia encontramos muitos em nossas jovens bulímicas. Uma primeira indicação de preocupações patologicamente "femininas" de Schreber para com a integridade corporal que, mais tarde, degenerou nos pavores hipocondríacos e sensações de ter sido mutilado. Daí a categoria lacaniana crucial no caso Schreber: o empuxo-à-Mulher, que se consumará nas ruminações sobre como deveria ser maravilhoso ser copulado (termo tomado do juridiquês da época, mostrou Rüdiger) em posição feminina; o delírio principal do presidente Schreber será a certeza (dimensão decisiva, segundo mostrou a palestra seguinte, para demarcarmos o devaneio neurótico do delírio psicótico) de que foi designado para fecundar, numa cópula com o Deus tirano (imago da faceta negativa de seu pai), uma nova raça humana, pura, que redimirá o mundo degenerado (ressonâncias nazistas avant la lettre?).
Estamos já em pleno "Inferno" (nome de novela de Strindberg que trata também, em registro autobiográfico, da irrupção da psicose), onde Schreber inventará seu "céu": o delírio como escapatória do conflito inconsciente e tentativa de autocura.
Após as pinceladas biográficas, Rüdiger frisou os aspectos mais importantes do sistema paranoide de Schreber: entre eles, o desejo de ser a mulher de Deus, numa transformação ou transsexuação que comparou, ao final, com o filme "A Pele que Habito", de Almodóvar. Analogia interessantíssima, que mostra, a meu ver, a dimensão histórica ( óbvia a qualquer leitor de Foucault) da loucura de Schreber. Ela, ou ao menos o fardo de ser vivido enquanto sofrimento atroz e ruína, se liga evidentemente a um contexto cultural em que enredos "almodovarianos" seriam impensáveis, cravados de um estigma da abominação, na arte ou na vida. Uma pessoa do público chegou a indagar se o atendimento psicanalítico poderia ter "salvo" Schreber ao convidá-lo a simplesmente sair do armário. A pergunta causou risos gerais e uma resposta evasiva, algo desconfortável, da professora e psicanalista. 
Outros elementos destacados foram a figura do Deus zombador, tirano, cúmplice de uma megaconspiração da qual Flechsig era também destacado participante: o "assassinato de alma", nome hoje de uma banda de rock alemã, prova de uma força poética (apesar de Lacan considerar o discurso das Memórias privado de metáforas, portanto de poeticidade, um puro fluxo metonímico) e política: o movimento antipsiquiátrico reivindicaria Schreber como uma espécie de mártir da psiquiatria autoritária e surda à alma que pretende medicar, eletrocutar e silenciar. 
Na objetividade da nosografia psicótica, tema de palestra seguinte, do meu analista Ariel Bogochvol, porém, estamos diante de uma modalidade clássica da paranoia: delírio de perseguição, articulado, no sistema schreberiano, com o delírio de reparação (o sujeito que se considera imaginariamente "lesado" por alguém e no direito de ser ressarcido) e, claro, o delírio de grandeza, patente nestes devaneios messiânicos de en-viado de Deus.
Rudiger mostrou, com Freud e Lacan, o quanto o drama de Schreber, para além da questão da repressão sexual, brotava da tentativa de uma reparação interna para as feridas abertas de seu processo de sexuação, notadamente a tendência homossexual, cuja recusa é fator decisivo para a irrupção da paranoia como forma de defesa e acobertamento do que não pôde ser simbolizado e que por isso retorna diretamente do real. 
Dizer "sexual-ação" implica dizer, com a psicanálise (e contra etologistas darwinianos), que o sexual nos humanos não é dado de nascença, é uma ação no tempo e na história, construção que advém segundo as regras e "desvios" da socialização de cada sujeito.
Schreber em seu empuxo-à-Mulher mostra-se inconformado com o que o sexual tem de seccional. Sexuar é cindir, decair da androginia originária (vide o mito platônico que lastreia nossas buscas românticas da "cara-metade"), decair do reino do Gozo puro, típico da simbiose da criança com a Mãe e o desejo materno, para os rigores da Lei paterna. Pelo menos a sociedade quer assim. Talvez menos hoje, em tempos de flores de almodóvar. Mas o social e suas regras de simbolização e de maniqueização (certo ou errado, verdadeiro ou falso, e , por que não, delírio ou realidade) são cosmos erigidos por sobre o caos, são "cosméticos" (termo derivado de cosmos) para recobrir e selecionar da totalidade do corpo uma imagem dignificável, uma pele habitável. 
Os transgressores do social pela via psíquica, de Schreber a Joyce, têm por destino, respectivamente, os sanatórios e /ou as prateleiras de livrarias,  ou as galerias de arte e demais espaços em que o sofrimento humano devém obra de arte e o homem vence, por sublimação, impondo-se à cultura que, de partida, o forçava ao degredo dos enjeitados.
Daí, arrematamos com Rudiger, a qualidade de "inconsciente a céu aberto" da psicose, que nos fascina pela abundância selvagem de suas imagens e palavras, e  por aquilo em que se distingue de nossas misérias neuróticas do dia-a-dia, nossas "soluções de compromisso" (sintomas) via repressão e hipocrisia. Nos salvamos da foraclusão (rechaço) do Nome-do-Pai, como diria Lacan,  pactuamos, como o genial e paranoico Rousseau anteviu, o contrato social, somos domesticados pelo simbólico e vamos levando essas vidinhas de súditos algo sensatos e algo frustrados, algo espertos e algo covardes.
-Unzuhause-