terça-feira, setembro 03, 2013

Iniciação à Magia- poeira das estrelas


Ok, vou lhes contar agora como se coloca para os magos a questão da imaginação. Trata-se de uma faculdade ou poder da mente absolutamente crucial para o ato mágico, cuja essência é a transformação da consciência pelo poder da vontade. Umas das estranhezas que separa ("santifica", na medida em que se santificar quer dizer isso mesmo, se separar) o mago do homem comum é que, para ele, não há dicotomias como teoria / prática, que tantas vezes escutei sendo murmurada em alguns de meus cursos "práticos", como a faculdade de jornalismo ou a escola de teatro. Sim, para os alunos dessas áreas parecia haver um abismo entre a especulação, tida como coisa "acadêmica", no mau sentido, e botar a mão na massa, o que quase sempre quer dizer sucumbir aos ditames irreflexivos do mercado e da técnica. 
O mago - e nesse sentido todo grande artista o é- vê que na prática a teoria é outra, mas também que nada é mais prático do que a "teoria" que antecipa no espírito a construção a ser feita no mundo real. E teoria, que para os gregos significa contemplação, é essencialmente ação pela imagem, ou seja, imaginação. 
O mago não é o cara que nada em dinheiro amealhado no comércio com a credulidade alheia. Não é quem acessa os poderes invisíveis em troca (bem remunerada) de um feitiço de amarração do teu bem-amado ou pra fazer vodu contra o teu inimigo. É quem cultiva os poderes do espírito para o aprimoramento pessoal e coletivo, para a evolução da consciência, que mais que um eu é um nós. 
Por mais importantes que sejam a mente sub e supraconsciente, temos um vínculo ético e vital com a consciência. É ela que nos conduz mundo afora, nos sustenta nesta experiência encarnatória, nos dá identidade de um "eu". É ela que deve dirigir nossos trabalhos mentais, e a magia é um trabalho mental.
Mas reconhecer a autoridade da consciência não é sucumbir à tirania racionalista. Nosso opus requer o co-operar (obrar junto) das forças mais ínferas e das mais elevadas, daí a necessidade-que tantos de nós deixam degerenerar no sofrimento dos vícios- de buscar estados alterados de consciência. Os rituais mágicos e seus instrumentos, como a espada, baqueta, taça, pentáculo, círculos, triângulos, taças, vestimentas, palavras de poder, tudo isso ajuda a fixar a mente numa região transcendente, distinta das preocupações ordinárias em que nos consumimos de problemas sem sentido. São recursos que predispõem a mente a libertar as emoções represadas, que gostam de imagens, mais que de palavras, para se manifestar.
Essa é uma grande diferença entre a magia e métodos puramente mentais de meditação, que exigem a "expulsão" de todos os pensamentos ou sensações desviantes, e o esvaziamento ou direcionamento específico da mente. 
Para o mago, como vimos, nada é inerentemente sujo ou vulgar, tudo potencialmente serve a um propósito e é expressão da vida do Eterno. "Não existe parte minha que não seja dos Deuses", declara o Adepto. Por isso, aplicando o que Ernest Butler chama de um "jiu-jitsu psíquico", a mente mágica faz os estímulos sensoriais serem não um mero "divertimento" e estorvo , mas liberadores emocionais que devem ser integrados, acolhidos, indagados sobre o que querem de nós, um pouco como na imaginação ativa de que nos fala Carl Gustav Jung.
Esses dias estive abatido por conta da "imagem" (visual) de uma funcionária do meu restaurante predileto, na Avenida Paulista, pegando no chão -praça da alimentação movimentadíssima de um shopping- um pegador de comida e jogando de volta na travessa de cenouras. Outra cliente viu isso e ficou igualmente horrorizada. Vi que há para mim limites do "não há nada sujo". Meus afetos internos pedem mais limpeza do mundo exterior do que isso que a mulher fez. Acho que a sujeira foi mais moral até do que higiência, pressenti raiva e desprezo humano da parte da funcionária, completa malquerência e alheamento (alienação, diria Marx) em relação ao ofício que consome sua força de trabalho.
Tal imagem, porém, dentro de mim se entrelaçou a outra, da minha antiga casa, a "casa da vó", que veio abaixo, foi destruída pelos novos proprietários, não sei o que eles construirão no enorme terreno de minhas lembranças e sentido de ser criança. Afetos angustiantes tornavam uma e outra "fotografia" integrantes de um mesmo psicologema (formação psicológica), que parecia vir me falar da perda da inocência no meu estar-no-mundo, do total desabrigo do espírito quando afundado na matéria e quando abdica dos seus deveres para consigo, sua própria limpeza e a construção de uma nova casa, de uma nova geração de família, em sangue (dos descendentes, que não sei se terei), em ideias (publicação de meus escritos represados) e em afinidade com outros "obreiros" da vida eterna, amigos, amores, companhia para que a travessia da existência seja, senão menos dura, ao menos mais fecunda.

Um terceiro exemplo de imersão em imagem se aproxima mais da realização do ato mágico, pois esses dois ainda me apanham em passividade psíquica, me tomam como alvo, não como autor. Eu à espera de um ônibus na saída da faculdade, longos minutos se passam, isso depois de um motorista ter passado a toda velocidade e me deixado para trás, comendo poeira, por eu não estar milimetricamente onde deveria estar (estava poucos metros antes do ponto) para ele me acolher. Minha raiva e desamparo foi-se dissolvendo no fluxo de meus pai-nosso e ave-maria silenciosos, sim, puxei um terço, tipo de auto-hipnose, segundo os amigos bruxos, que me foi útil para botar em perspectiva toda aquela situação, a espera cansativa, compreender o motorista que me deixou para trás, ele devia estar fatigado, era já fim de noite, e devia temer multas ou cobranças do chefe, afinal cometeria uma transgressão ao me acolher fora do ponto. 
Senti um incrível afluxo de paz, desabrochamento dos sentidos espirituais, conexão com os valores (energéticos, não só em sentido moral) que realmente me importam. "Eu sou a criança da Terra, mas minha Raça veio das Estrelas dos Céus", repito com o velho Iniciado. Pó somos e ao pó voltaremos, poeira das estrelas que todavia não esquece de todo sua origem celestial, mesmo quando se sente pó da terra, zé-ninguém na multidão, destroços da casa que não é a nossa, não é mais, não é ainda.
-Unzuhause-