Wednesday, September 18, 2013

o deserto encharcado de Peixes


"De entre las tres modalidades de la calidad acuática, podemos considerar el signo de Piscis como el más desvalido. Sabemos que los tres signos de Agua - Cáncer, Escorpión y Pisces- carecen de la protección que en el mundo material significa el cuerpo. Pero mientras Cáncer y Escorpión logran conquistar el auxilio al desvalimiento del cuerpo psíquico desnudo, recurriendo para ello al medio humano que los rodea, a la naturaleza de Piscis le faltan las energias adequadas para la conquista de tal auxilio, le faltan totalmente, porque se agotan y neutralizan en la lucha por la esblecer el equilibiro entre las polaridades psiquicas activa y pasiva. Es por eso que, de entre los signos de Agua, es el de Piscis el que envuelve más profundamente al ser humano en lo psíquico, y lo mantiene sujeto à la vida psíquica, como a un sonámbulo que no acertará a despertar de su estado onírico, o como a um soñador que no puede llegar al estado de vigilia".
As circunstâncias em que recolho as preciosas reflexões astrológicas de Oscar Adler (livro La Astrología como Ciencia Oculta. Buenos Aires: ed Kier, 2009) parecem dar alguma razão à crítica que o ocultista argentino esboça às dificuldades do signo de Peixes. Veja bem, dificuldades do signo, do arquétipo enquanto tal, pois não necessariamente a pessoa que nele orbita é a encarnação maciça de suas tendências. A pessoa que fosse tão somente o retrato que Adler faz de Peixes não estaria em condições de sequer estar digitando agora palavras minimamente coerentes, de viver fora de um sanatório; graças a Deus há ascendentes e tudo o que é da ordem da mistura, do empírico, do anterior ao simbólico. 
A duras penas, venho trilhando há sete anos o deserto psicanalítico (o verbo inicial de minha análise foi "enxugar" o campo mental encharcado de medos e fantasias). E, lado a lado com o forte doutor Ariel, venho aprendendo a discernir o simbólico como uma construção secundária, mais ou menos artificial, e que não chega nunca a recobrir a fenda originária de que somos feitos, o "real" que palavra ou imagem nenhuma pode recobrir ou substituir. Nosso trabalho é menos de um demiurgo que cria do nada o tudo, e mais o do engenheiro que projeta pontes que tornam possível o nada transitável. 
Por isso minhas "colagens" de símbolos e identidades não são hoje o espontaneísmo de outrora, quando eu não tinha dúvidas de que isso ou aquilo "sou eu". Não sou eu me colando aos símbolos, e sim eu os colando, os citando, combinando e parodiando.
Mesmo assim não resisto ao fascínio das grandes imagens da alma. Traço de pisciano, este pobre ser que trafega do nada em nada inventando mundos sem fundos, como os cheques quando nossa conta estourou. A minha estourou faz tempo. Por isso colhi esta e outras citações de Adler não pela compra do livro, mas sentando numa das confortáveis poltronas da Cultura e lendo e escrevendo e meditando com afinco quase hipnótico.  Estado de sonho perpétuo que me advém muito da experiência com livros, filmes, arte em geral. Me tornando uma espécie de espectador mediúnico da vida, enquanto ainda não boto pra fora as virtudes do médium propriamente dito, que se faz embaixador, sim (velho sonho de mamãe para mim), porém entre Céu e Terra, porta-voz dos deuses (inconsciente coletivo) entre os homens e dos homens entre os deuses. Tradutor! Metáfora aliás bem certeira na prática, definindo o ofício que, com muita melancolia, atributo dos filósofos, segundo Aristóteles, e que Walter Benjamin associa diretamente ao ofício de quem traduz, primeiro porque o tradutor se eclipsa para que brilhe a voz de um outro (o autor), e segundo porque não desaparece o suficiente para que o autor simplesmente se manifestasse como espírito redivivo. O médium está lá como déficit de transmissão, por melhor que seja sua habilidade técnica; drama de toda linguagem, transmitir e trair a vida, drama marcado pelo paradoxo de duas forças igualmente verdadeiras, não pelo certo e errado absolutos, virtude relativista de todo drama de alto nível. Aliás, a propósiito deste conceito de drama, vejam hoje o lindo artigo do meu professor Marcelo Coelho, de quem eu discordo apenas quando diz que seus alunos desviavam o olhar do seu; eu gostava demais dele para deixá--lo assim a sós! rs
Tradutor, médium, filósofo (ou algum nome menos pretensioso, embora tão humilde em suas origens), melancólico, pisciano. Encharcado de sonhos e árido como um severino de João Cabral. Estes "sou" eu. Ou melhor, este é um jeito relativamente verdadeiro de no dizer-me já não ser o que digo.
-Unzuhause-