Friday, September 27, 2013

o leitor mediúnico


Comecei a tratar da arte secreta da Sedução e um paradoxo de cara me grilou: mas não é secreta quando divulgada! Não é bem assim. O "secreto" de doutrinas não depende da ocultação histérica, medrosa de que mãos impuras a roubem de nós os "puros". É a natureza interna de revelações que continuam seladas por mais que o olhar vulgar as assedie. Isso porque a sabedoria, já dizia São Paulo, é espírito guardado na letra como o vinho na garrafa, e de nada adiante ficar olhando pra garrafa se ela continua "hermeticamente" (advérbio muito sugestivo neste contexto) fechada pela rolha das provas iniciáticas que ainda estão por vir. Os mais grosseiros perdem logo a paciência se levantam e quebram a garrafa, para ter a sensação rudimentar de que puseram as mãos no licor do desejo.
No ocultismo como um todo vale esta regra de segredo que não exprime outra coisa senão o "vestibular" a se atravessar a cada câmera obscura (vestíbulo) que queiramos adentrar na busca de crescente intimidade com o real.
Vide A Doutrina Secreta, clássico teosófico de Helena Blavatsky. Já insisti muito em assediá-la com os métodos de "fichamento" que usaria para um Hegel, na FFLCH. Conclusão é que eu me irritava e quebrava a garrafa, indo embora encharcado e sangrando de fracasso e de indignação por "perder meu tempo" com Blavatsky sendo a vida tão curta para ler Hegel!
O impasse persistiu enquanto não entendi o método (termo que quer dizer caminho) próprio para o texto de Blavatsky, que não difere muito do método de "sutra": uso de um texto aforístico com comentários para causar uma transformação da consciência. É isso o que Joy Mills explica na série de conferências que deu em 1988 na celebração do centenário da Doutrina Secreta. E Mills resume o desafio dos sutras, e portanto de H.P.B (as iniciais da misteriosa sacerdotisa russa do renascimento ocultista): "Viva a vida se você quiser atingir a sabedoria". Auto-ajuda no mais nobre sentido do termo! O que não rebaixa o oculto, antes eleva a auto-ajuda, que não é um mero gênero editorial entre outros, é uma instância pela qual todo grande pensamento passa, se quiser, como entre os gregos, se traduzir em termos úteis à felicidade do sábio. Saco cheio de nego posando de triste com citações eruditas. 
Por mais que se leia, a verdade não se faz presente se a consciência de quem lê não esteja apta a receber e compreender o que está lendo. E a compreensão surge de uma em-patia, de um sentir dentro, sentir junto, um pouco como irmãos de uma fraternidade entre nós e o livro, fundindo as barreiras, já não há escritor "e" leitor, nos tornamos um continuum psíquico. Regra elementar do que eu chamo de presença mediúnica como leitor e escritor no mundo.
-Unzuhause-