sábado, setembro 28, 2013

o veneno cético e a perspicácia incompetente


Já Montaigne, na obra-prima "Apologia de Raymond Sebond", se valia de um procedimento clássico do ceticismo: não o combate frontal a essa ou aquela ideologia, mas o arrolamento de várias e várias opiniões de diferentes autores sobre as questões essenciais da filosofia, como a natureza de  Deus, da alma, da verdade, da realidade. Criava assim no seu leitor um efeito de vertigem do qual se sai com a "certeza" de que todas aquelas opiniões díspares nada mais eram que isto, opiniões. A razão sucumbe à própria razão, e confessa sua inanidade, quando volta para si seus instrumentos críticos e descobre o abismo intransponível entre o Ser e o discursos humanos. Nesse vácuo nada mais podemos intentar do que - e isso faz de Montaigne o pai do gênero ensaístico- "essais", ensaios, tentativas, esboços, mais sobre nós mesmos do que sobre alguma objetividade e totalidade, mais sobre nossa imensidão de paradoxos e insuficiências, de desejos e "impressões" (categoria que substitui as certezas dogmáticas). Nascia assim a subjetividade moderna, que testemunha e provisória sobrevivente ao veneno cético que nos corroi não por capricho, mas pela insistente demonstração de que o mundo é um caos, uma ordem estilhaçada e fora dos gonzos, no dizer trágico do herói shakespeariano. Somos, sobretudo os intelectuais modernos (os que aceitam a provação e o veneno céticos) todos "Hamlets" na indecisão, indefinição, na agonia entre ser e não-ser sem mais quaisquer respostas para o Mistério, senão.. opiniões. 
Esse modo cético de raciocínio se repete na seguinte reflexão do grande escritor francês Guy de Maupassant. No prefácio de Pierre et Jean, em 1887, ele assim demonstra a falsidade da pretensão de dogmatizar a "verdadeira natureza" do romance. Sendo historicamente o gênero da liberdade, da possibilidade permanente da inovação formal e temática, o romance é também poderosa expressão desta subjetividade "livre", desbussolada (termo do psicanalista Jorge Forbes),  fragmentária, perpassada de afetos, pulsões e impressões, não de certeza, de dogma, de mapa, de porto seguro de respostas inquestionáveis sobre o mundo e sobre nossos poderes (inclusive os romanescos) de representá-lo eficazmente: 
"Ora, o crítico que , depois de Manon Lescault, Paul et Virginie, Dom Quixote, Ligações Perigosas, Werther, As Afinidades Eletivas, Clarisse Harlowe, Emílio, Cândido, Cinq-Mars, René, Os Três Mosqueteiros, Mauprat, O Pai Goriot, La Cousine Bette, Colomba, O Vermelho e o Negro, Mademoiselle de Maupin, Notre-Dame de Paris, Salambô, Madame Bovary, Adolphe, M. de Camors, L' Assomoir, Sapho, etc. que ainda ousa escrever: Isto é romance, isto não o é', parece-me uma pessoa dotada de uma perspicácia que lembra muito a incompetência".
-Unzuhause-