Saturday, September 28, 2013

resenhas para a Folha de S. Paulo


FOLHA DE SÃO PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
-CAIO LIUDVIK-
CINCO PEÇAS E UMA FARSA
Nessa coletânea, Otavio Frias Filho transita entre o registro sociopolítico, o conflito existencial e os afetos entre quatro paredes –não poupando os costumes intelectuais tupiniquins, tema de "Rancor",  esta sátira de nossas panelinhas,  paranoias e outras misérias, não sem lugar de honra (mefistofélico) para a imprensa.
Em "Tutankáton", Frias Filho toma o fracasso da "primeira das revoluções conhecidas" –a imposição do culto monoteísta ao Sol, no Egito antigo– como metáfora da derrota comunista e do ingresso num pós-modernismo que reatualiza o politeísmo de crenças e interesses. 
O drama hamletiano do faraó faz eco à crítica conservadora (Tocqueville, Burke) à “hybris” trágica das ideologias revolucionárias.  Mas tal crítica aqui passa longe do moralismo tradicional. "Utilidades Domésticas", única comédia do livro, aborda o amor entre duas mulheres e, na farsa "Breve História de uma Perversão Sexual" (co-autoria de Marcelo Coelho), a primeira palavra pronunciada na horda primitiva é, simbolicamente, o "não" da fêmea arisca a um assédio sexual masculino.
E se a ascensão feminina deixa os homens perplexos, seu contraponto é a atávica competição entre mãe e filhas de "Típico Romântico" –que o dramaturgo sugere que seja montada conjuntamente com a peça seguinte, "Sonho de Núpcias".
AOS 7 E AOS 40
Para usar uma das tantas belas imagens desse pequeno romance, se a grandeza dos méritos fosse uma prova de salto em altura, João Anzanello Carrascoza "passarinhou" alto e venceu. A prosa eivada de poesia segue, em certos capítulos, quebras de frases que lembram a formatação gráfica dos hinos bíblicos, em edições como a Bíblia de Jerusalém. 
Mas o sagrado no mundo ficcional do cotidiano não tem essa antiga monumentalidade nem dogmas, deita raiz no miúdo dos detalhes, pequenos gestos e situações em que a vida se revela uma decisão de campeonato a cada dia (um dos trechos mais empolgantes reporta uma noite em que a cidade estava parada, de novo, para assistir a mais um título do Corinthians). 
O jogo dos opostos está no título e na trama toda, vide o índice, composto de seis capítulos em tensão dois a dois: Depressa e Devagar, Dia e Noite, Silêncio e Som, entre outros. A filosofia hermética do "mistério das conjunções" (Jung) paira aqui, discreta como o vizinho de nome Hermes, lição personificada de generosidade para com homens e pássaros, criaturas dignas de amor e compaixão também por sua fragilidade. 
Uma (auto)biografia ficcional em dois tempos, o da infância, em primeira pessoa, e o da meia-idade, quando o narrador se descola (cisão subjetiva trazida pelo tempo) e sua voz relata as peripécias de "o homem".
AVALIAÇÃO – ÓTIMO
 AS MINIATURAS
A beleza do nome da autora de "As Miniaturas", Andréa Del Fuego, embute um dado precioso para acessar o labirinto de sonho e imaginação em que o livro trafega. O sobrenome é pseudônimo que a escritora –brindada com o prestigiado Prêmio Saramago- adotou na época em que escrevia contos eróticos e tinha uma coluna para tirar dúvidas de leitores sobre este ígneo universo das pulsões. Pois em "As Miniaturas" o inconsciente também aflora, no registro de um realismo mágico que todavia não parece tanto rasgar de transcendência o cotidiano brutal da grande cidade, e sim se articular às suas engrenagens de sociedade administrada (Adorno), pautada pela dessublimação repressiva e a colonização do imaginário. 
A situação proposta é a de um prédio "no Centro" (eixo do mundo) de São Paulo, Edifício Midoro Filho – alusão a Artemidoro de Daldis, maior autoridade na Grécia antiga sobre a interpretação dos sonhos, tendo inclusive influenciado Freud. Uma arquitetura asséptica e funcional para pacientes à espera de mais uma sessão com os "oneiros", esses burocratas de uma organização kafkiana e analistas às avessas, que ao invés de escutar induzem sonhos, recorrendo para isso a esculturas plásticas em miniatura.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO

MITOS DO ESTADO ARCAICO
Professor de antropologia em Michigan e especialista na arqueologia mesopotâmica, Norman Yoffe teria todas as condições para não derrapar, como derrapou, numa ideia empobrecida de mito como mentira, falácia, ilusão ou delírio. Ideia alheia à acepção que esse conceito passou a ter quando passamos a escutar melhor os povos originários e os aborígenes de nosso tempo –mito não é factoide que "pegou", é realidade plena e saturada de significado e valor. 
Afora esse deslize, seu livro se reveste de grande interesse por enfrentar uma questão monumental: a origem da civilização, o nascimento do poderio e obediência entre os homens e, em especial, as regras da "evolução", isto é, crescente complexificação, das sociedades primitivas para as nossas modernas. 
Evolução é um termo tabu desde que grandes antropólogos do século 20, como Lévi-Strauss, denunciaram o evolucionismo social como uma quimera biologista (melhor que "mito") a serviço do racismo, da colonização e do esnobismo eurocêntrico. Yoffe, com prosa densa mas agradável, quer resgatar o evolucionismo em novas bases, combatendo  nele especificamente a ideia de "Estado arcaico" marcado pelo domínio de déspotas sobre vastas extensões territoriais e súditos inermes.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO