terça-feira, setembro 24, 2013

Servo do Grande

O poeta indiano Kabir, do século XV d. C.

O grande índice de leitura que verifiquei acerca do post anterior deve ter sido estimulado pela força do título, que se inspira no poeta hindu-muçulmano Kabir Das, nome que concilia ecumenicamente as duas religiões num espírito de submissão reverente ao Mistério divino; onde há mística há esse relacionamento amoroso com o Mistério, isto é, com o que ultrapassa os limites de nosso entender, de nosso querer e de nosso ser. Kabir é termo árabe para "Grande"; Dasa significa "Servo", em sânscrito. Servo do Grande, como o poema a seguir mostra em sua consumação arrebatadora, isso após meditação que parece antever e responder à nossa revolta moderna, sintetizada em Nietzsche, contra as posturas pseudorreligiosas que mentem e oprimem ao postergar a felicidade para o "outro mundo", ao sublimar as frustrações desta vida numa pretensa recompensa depois da morte.  
Não, diz Kabir. O místico -o devoto do Mistério- não tem condições sequer de imaginar o que venha ser "outra" vida que não a de agora e do aqui, e é no instante que se nos oferece o anfiteatro da arte e da guerra esotéricas em busca de nossa libertação. Além disso, o poema aponta para uma Teologia do Nome ("Imerge no nome veraz") e do Mestre ("Entrega-te ao guru verdadeiro") que, como contava também no post precedente, são de alguma forma recolocados, no anfiteatro da minha existência, pelo fascínio que a figura do Papa desperta em mim, relembrando as sensações do abraço de Cristo, fisicalidade do Nome sagrado em nome e nas asas de Quem sou aquilo que sou,  que pude desfrutar no abraço que meu pároco trouxe para minha história, minhas angústias juvenis e minha vontade de ser Servo do Grande. 
"Ó amigo!
Busca enquanto vives! Encontra enquanto vives!
Pois é na vida que a liberdade habita.
Se tuas amarras não forem rompidas em vida,
Que esperança de libertação terás na morte?
Não é mais que um sonho enganoso
Crer que a alma suba a Deus só por deixar o corpo.
Se o alcançares agora, o alcançarás depois.
Se não o alcançares, ficarás retido na cidade dos mortos.
Para encontrá-lo, aqui e além,
Imerge no nome veraz! Entrega-te ao guru verdadeiro!
Kabir diz: É o espírito da busca que liberta
De tal espírito sou escravo"
-Unzuhause-