Thursday, October 31, 2013

dia do saco cheio


Ironia seria dizer que o Brasil aguarda o retorno dos alunos para as salas de aula da FFLCH para prosseguir com seus nobres seminários, provas e trabalhos semestrais, sem os quais acho que até o Natal será adiado, afinal quem conseguiu baixar a tarifa... isso tudo segundo estimativas revolucionárias que apurei nos corredores da faculdade hoje. Mas não, não é ironia o comentário sobre esse lindo bebezinho que transcrevo a seguir; peguei emprestado de uma comunidade de psicologia do facebook. Não se tratava de mais um achismo de rodapé, mas da voz oficial da comunidade. O ridículo da empostação conceitual, da tentativa de definição com ares nobeis, os mesmos de nossos cientistas que estavam à beira da cura do câncer essa semana, num campo de concentração de cachorrinhos, reles bichinhos, dirão os nossos "humanistas" para quem sua realeza o ómi é a medida de todas as coisas.

Voltando aos nossos doutores do comportamento do bebê, eu juro que gostaria de ter escrito isso -a ironia é cada vez mais minha forma particular de suportar o desespero.Tá tudo lá, o advérbio pomposo, o esquadrinhamento analítico pedante, o acho de achistas e ou "já li em algum lugar".  Cem anos de psicoterapia e o mundo vai cada vez pior, diria Hillman. De minha lavra, aqui, apenas a recomendação eloquente de que o comentário seja dado a conhecer hoje mesmo na Academia Sueca:
"Analiticamente, eu diria que esse bebê já teria, de alguma forma, a função sentimento extrovertido em grau elevado para sua idade. Embora não possamos falar de ego nessa idade, e muito menos em função da consciência, pois ele não possui consciência como conhecemos, acho que é isso mesmo. Já li em algum lugar que o sentimento é uma das primeiras funções a se desenvolver no feto quando no útero, pois ele reage aos sentimentos da mãe."


o troglodita democrata


"Quem baixou a tarifa..." Hoje é batata, como diria mestre Nelson Rodrigues, o mantra de que "quem baixou a tarifa" pode qualquer coisa. Enquanto não assaltam o céu, conseguem pichar de vermelho sangue um dos monumentos mais bonitos da USP, o relógio central do campus. Conseguem tratar como lixo as carteiras arrancadas da sala de aula e amontoadas pelos corredores da USP. Conseguem trucidar um policial que está impedido de levantar a mão contra eles não por ser Cristo -se  bem que cordeiro imolado pela multidão ignara-, mas pela legislação da turma do direito dos manos. Sonhos de violência (mal) disfarçam, desde o tempo das histéricas de Freud,  um pesado tesão sexual pelo marginal temido e no fundo adorado. Hoje, em tempos de uma franqueza sexual nunca antes vista nesse país,  o fetichismo da marginalidade volta com tudo à pauta do tesão coletivo. Tesão pelos bandidos e em ser um deles. É legal ser brutamontes, é legal tratar mal o outro, agredir física e verbalmente violentar e passar a mão nos "pobres adolescentes", vítimas do sistema injusto. É legal exigir "cotas" e não ter vergonha na cara, arrotar anelos de "democracia" (da massa burra?) desde que seja entre os companheiros, calando ou matando quem discorde.
-Unzuhause-

Após grupo interromper mesa, Flica cancela dois debates neste sábado


Após manifestação que interrompeu o primeiro debate da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira) neste sábado (26), quarto dia do evento, a organização resolveu cancelar duas das mesas. O protesto aconteceu após 15 minutos do início de “Donos da Terra? – Os Neoíndios, Velhos Bons Selvagens” e, segundo os manifestantes, contra a presença de um dos convidados, o sociólogo, colunista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Demétrio Magnoli.

A mesa "As Imposições do Amor ao Indivíduo”, em que estariam Jean-Claude Kaufmann e Luiz Felipe Pondé, e estava marcada para as 20h, também não vai mais acontecer. “Foram canceladas porque a organização não conseguiria garantir a integridade física dos dois autores [Luiz Felipe Pondé e Demétrio Magnoli]”, diz um dos organizadores, Emanuel Mirdad.
Protesto
Um grupo formado por cerca de 30 pessoasinvadiu o saguão do Convendo do Carmo logo no início da primeira mesa. A escritora Maria Hilda Baqueiro Paraíso pediu diálogo, o que foi negado pelos manifestantes. Pessoas se pintaram de rosa e alguns ficaram seminus.
Os manifestantes afirmaram repudiar a posição crítica do participante da mesa ao sistema de cotas para ingresso nas universidades, chamando-o de racista. A mesa seria retomada às 13h, segundo o curador do evento, Aurélio Schommer, e depois foi cancelada.
'Vandalismo'
Demétrio Magnoli conversou com o G1. O escritor, cuja obra mais recente é "O Mundo em Desordem - Liberdade versus Igualdade (1914 - 1945)", criticou o fato da manifestação interromper o debate. "O grupinho que fez a baderna, que impediu o debate, eles imaginam que estão impedindo a minha liberdade de expressão, mas estão enganados, porque a minha liberdade de expressão está garantida. O que eles cerceiam é o direito das pessoas de ouvirem um debate, então eles estão contra as pessoas comuns, que vão ouvir um debate. Não estão contra o palestrante, embora eles imaginem que estejam", afirmou.
Na opinião do sociólogo, como não houve diálogo, não há crítica, mas sim vandalismo. "A crítica envolve a articulação de sentenças com começo, meio e fim, com o uso de sentenças subordinadas e principais, isso é o campo da crítica. O vandalismo não deve ser confundido com a crítica, assim como a manifestação não deve ser confundida com a depredação. Eles são vândalos e depredadores do direito das pessoas debaterem, eles não são críticos". Ainda em conversa, Magnoli fala sobre a sua opinião em relação às cotas.
"A minha posição sobre as cotas é porque, justamente como sou um anti-racista convicto, eu sou contra que estados classifiquem as pessoas na lei segundo critérios de raça. Os estados que classificaram as pessoas na lei segundo critérios de raça produziram desastres horríveis, como a África do Sul com o Apartheid, como os Estados Unidos, que no início do século XX criaram leis de segregação racial. Essas leis se baseiam no mesmo critério, que as pessoas são aquilo que a aparência delas diz que elas são. Os anti-racistas acreditam que as pessoas são aquilo que querem ser, que as pessoas são aquilo que pensam, que criam, aquilo que inventam, não são alguma coisa definida pela sua aparência, pela sua cor da pele, qualquer coisa assim. É justamente porque eu sou anti-racista que eu sou contra as cotas raciais", diz.

Tuesday, October 29, 2013

Evangelho do dia - perfume de Cristo



Evangelho segundo S. Lucas 13,18-21.

Naquele tempo, disse Jesus: «A que é semelhante o Reino de
Deus e a que posso compará-lo?
É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal. Cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos.»
Disse ainda: «A que posso comparar o Reino de Deus?
É semelhante ao fermento que certa mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar levedada toda a massa.»
Comentário ao Evangelho do dia
São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre os Actos dos Apóstolos, n° 20


Ser o fermento na massa
Haverá coisa mais ridícula que um cristão que não se preocupa com os outros? Não tomes como pretexto a tua pobreza: a viúva que colocou duas moedas na caixa das esmolas do Templo (Mc 12,42) insurgir-se-ia contra ti; assim como Pedro, que dizia ao coxo: «Não tenho ouro nem prata» (Act 3,6); e Paulo, que era tão pobre que muitas vezes passava fome. Não recorras à tua condição social, pois os apóstolos também eram humildes e de baixa condição. Não invoques a tua ignorância, porque eles eram homens iletrados. Mesmo que fosses escravo ou fugitivo, poderias sempre fazer o que depende de ti. Foi o que sucedeu com Onésimo, que é elogiado por Paulo (Flm; Col 4,9). A tua saúde é frágil? Também a de Timóteo o era. Sim, independentemente do que somos, todos podemos ser úteis ao nosso próximo, se quisermos verdadeiramente fazer o que está dentro das nossas possibilidades.

Vês como as árvores da floresta estão vigorosas, belas, elegantes? E no entanto, nos nossos jardins, preferimos árvores de fruto ou oliveiras cobertas de frutos. Belas árvores estéreis […], tal como os homens que apenas têm em conta os seus próprios interesses. […]

Se a levedura não faz levedar a massa, não é verdadeiro fermento. Se um perfume não inebria os que se aproximam, poderemos dizer que é um perfume? Não digas que é impossível exercer boa influência nos outros porque, se és verdadeiramente cristão, é impossível que não aconteça nada; isso faz parte da própria essência do cristão. […] Seria tão contraditório dizer que um cristão não pode ser útil ao seu próximo como negar ao sol a possibilidade de iluminar e aquecer.


Questões para reflexão:
1) Como distinguir o arquétipo (o arcaico que é típico)  altruísta, Jesus Cristo Super-herói, do estereótipo do bonzinho que só se ferra?
2) Como distinguir o arquétipo de cristão do estereótipo de pastores corruptos, padres pedófilos e discursos ineptos contra a vergonha alheia?
3) Dentre as várias metáforas (arquetípicas) escolhidas no texto para ilustrar a lei (material e espiritual) de que o ser de uma coisa é o mesmo que sua efetividade no mundo, vemos o perfume e seu efeito de inebriar. Assim é o cristão e seu efeito de transformar (-se) para melhor. Compare, nesse contexto, com a passagem célebre de São Paulo sobre o "aroma de Cristo":
“… porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão salvos e os que estão perecendo. Para estes somos cheiro de morte, para aqueles, fragrância de vida…”
4) Na floresta de símbolos em que verdeja todo texto místico -que tentamos falar do que transcende toda fala, dificuldade que impõe ao falante, afora a vergonha e certa má-fé do próprio ato de falar, que se demore na multiplicação e desfetichização das palavras-, me ocorre ,para concluir, um simbolismo que experimentei em duas de minhas vivências mais caras, a do teatro e a do cristianismo. Assim como o iniciante em teatro teme o que logo verá ser o menos difícil no seu ofício - "decorar" um texto, esforço superficial ante a verdadeira missão, encarnar o papel-, o admirador de Cristo percebe, com o tempo, a experiência e a graça pessoal, que pertencer a uma agremiação religiosa é o que há de menos decisivo para a sua qualidade de vida cristã. Faz sentido para você? E nesse sentido desimpedido, que desculpas ainda te impedem de ser como a chuva que chove, a mata que cresce, o riacho que corre, o tigre que come, o homem clareira do Ser?
-Unzuhause-
 

monkey mind, observar e ver


Belíssima a passagem seguinte de um dos clássicos do ciclo Sherlock Holmes. Ela nos fala de duas atitudes dos olhos, ou melhor, da mente, muito exploradas por filósofos em busca do graal da Verdade, e por lógicos, psiquiatras, psicólogos e neurologistas interessados nos modos de operação deste mundo dentro do Mundo, ou mistério reflexo do Mistério, que é o cérebro humano. Por um lado, o pensamento dirigido, que reproduz em seu nexo de imagens, em regras de causa e efeito, de tempo e espaço, as coisas sem ele meramente espalhadas num campo visual aleatório. Por outro lado, o que William James chama de pensamento "meramente empírico", e esse "meramente" me parece exaltar justamente a nobreza, soberania e transcendência do cérebro, como órgão legislador do caos do real. O pensamento meramente empírico, no avesso da atenção, é distração, é passividade, é, na cadência desordenada das coisas, também o sacolejo nauseante de imagens daqui pra cá e de lá pra cá, generalismo superficial,  é a "monkey mind" dos budistas. O mero ver é a leitura de um livro num ônibus lotado de São Paulo tolerando o fedor e a grossura da multidão e rezando pra um black bloc não te escolher para churrasco da consciência revolucionária; o observar seria o atenção nupcial de um Sebastião Salgado às misérias e grandezas da vida nas profundezas do pantanal, nos submundos do capital. É a força de vida que vem da dúvida, do questionamento, do maravilhamento em nada saber e ter a oportunidade de dessaber menos do que tolamente supúnhamos saber.
-Unzuhause-

"-Quando você expõe seu raciocínio -comentou [Watson]-, a coisa toda me parece tão ridiculamente simples que eu poderia com facilidade chegar às mesmas conclusões, ainda que, a cada passo, sinta-me atônito enquanto você não termina de elucidar o processo inteiro. Mas creio que os meus olhos são tão bons quanto os seus.
-De fato- retorquiu [Holmes], acendendo um cigarro e jogando-se na poltrona.- Você vê, mas não observa. É uma distinção evidente. Por exemplo, você já viu os degraus que nos trazem da sala até este cômodo.
-Muitas vezes.
-Quantas?
-Ah, algumas centenas.
-E quantos degraus são?
-Quantos? Não sei.
-Justamente! Você não os observou. E não se pode dizer que não tenha visto. Essa é a questão. Eu, por outro lado, sei que são 17 degraus, porque não só vi como observei".
Arthur Conan Doyle,
Escândalo na Boêmia

Monday, October 28, 2013

você já comungou com sua coalhada hoje?


Um homem certa vez procurou um já consagrado dr. Jung, mas dizia não querer se tratar, e sim trocar opiniões ou, menos pretensiosamente, aprender, como  um curioso que era nas coisas da psicologia. Mas, sabedor do amor de Jung pelas fantasias noturnas, leva consigo o seguinte sonho:
 "Estou num quarto de parede nuas, uma enfermeira me recebe. Quer me forçar a beber um frasco de coalhada. Eu queria ir ver o dr. Jung, mas ela me responde que estou num hospital e que o doutor não tem tempo para me receber".
As associações deste sonho revelam que ele já estivera em tratamento por esgotamento nervoso mas ainda muito distante de qualquer restabelecimento. Pretendia abordar Jung como filósofo e psicólogo e assim escamotear sua neurose. O sonho porém obriga-o à franqueza: tem de submeter-se a um tratamento, tem de beber algo repugnante (detestava coalhada), antes de poder conversar com Jung em pé de igualdade.
Acho bonita essa história contada por Jung, por mais que soe a propaganda (meio fora de moda, atualmente) da mentalidade terapêutica, uma espécie de releitura do velho clichê de que fora da Igreja (no caso, do divã) não há salvação. 
A anedota soa tão verídica (portanto tão lendária) como as histórias dos velhos mestres zen, por exemplo aquela em que o discípulo pergunta ao mentor como podia enfim alcançar a iluminação; resposta: você já lavou seus pratos hoje? Este sonho ilustra a própria teoria junguiana do sonho em geral como uma compensação inconsciente para nossas crenças e atitudes de fachada: à pretensão de filósofos, o sonho nos responde com a nossa realidade de neuróticos; à ambição de "devorar" a grandeza de belos pensamentos, o sonho nos recomenda engolir a bebida desagradável de nossas próprias misérias incuradas.
Assim como o cachorrinho que vai ficando parecido com o dono, algum mistério de contágio faz com que os pacientes se pareçam muito -no caso das transferências positivas e de tratamentos de maior durabilidade e fecundidade- com seu terapeuta; as fantasias coincidem, em seu significado e direção,  com os pressupostos mais amplos da terapêutica que se debruça para comentá-las e tratá-las. Os pacientes de Jung são frequentemente "junguianos", o mesmo valendo para um Freud, um Winnicott, um Reich; no sonho em questão, o indivíduo que se recusava a ser paciente traz um sonho que revela algo precioso não só dele, como do próprio Jung: o equívoco de academicizar, escolasticizar, petrificar homens como Jung ou Nietzsche, que reduzidos a nomes de disciplina e programas departamentais parecem tão autênticos quanto um Artaud dissertando professoralmente sobre o teatro após ser submetido uma sessão de lobotomia. Que Jung seja um grande pensador , não há dúvida. Mas é sobretudo um curador, com a humildade dos enviados não para os sãos, mas para os doentes; sei do quanto o cansava a atitude, mais frequente em homens que em mulheres, segundo sua experiência, de ser abordado de maneiras pedantes, que mal escondiam a inveja e o desejo de apropriação. Jung, homem arcaico como o criado por suas teorias do inconsciente coletivo, se sentia bem entre seus irmãos pedra, vento, água e Sol, e entre pessoas que fossem menos "gente" (no sentido da vaidade chata e barulhenta e vazia dos hominhos que ignoram o seu próprio nada, inebriados de um poder que deliram ter) do que símbolos, isto é, hologramas de osso, poço, pele e alma dessas potências cósmicas sem nome nem posses. Para esse esvaziamento de si, verdadeira quênose cristã em que renascemos de nosso monturo como filhos de Deus, nada como comungar com a coalhada nossa de cada dia.
-Unzuhause-

Saturday, October 26, 2013

Resenhas para a Folha de São Paulo, 26/10/13

José Guilherme Merquior (1941-1991)

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
-Caio Liudvik- 

Gênio crítico
Além de admiração profunda, a trajetória do ensaísta e diplomata José Guilherme Merquior (1941-1991) inspira tristeza e revolta, pela precocidade de sua morte, por câncer. Precocidade que é também de seu gênio, vemos nos livros ora relançados pela editora É Realizações.
"Razão do Poema" (1965) , sua estreia, foi, segundo Luiz Costa Lima, "uma das melhores contribuições para a consolidação do legado modernista, para a afirmação de um poeta pouco estudado, Murilo Mendes, e de um João Cabral, que ainda dividia opiniões". Merquior exalta a "famosa Semana libertadora" de 22 com o mesmo entusiasmo com que desanca a regressão dos poetas da geração de 1945 –esses "bons meninos" que, horrorizados com as  radicalidades de um Mário ou de um Oswald de Andrade, são incapazes "de fazer pipi na cama da literatura", renunciando à maturidade que o modernismo trouxe para a literatura brasileira. Embora surgido nessa época, incluir João Cabral de Melo Neto entre os "iludidos de 45" é inadmissível, afirma o jovem crítico, com autoridade que impressiona também no ensaio sobre a poesia "visionária" de Murilo Mendes, e que deve ter marcado Claude Lévi-Strauss, em sala de aula, escutando seu jovem aluno brasileiro sintetizar as dimensões estéticas do pensamento do pai da antropologia estrutural. Foi num seminário em 1969, do qual derivou "A Estética de Lévi-Strauss". Entre os destaques, o elogio (leitmotiv em todo o percurso de Mequior) do racionalismo ocidental, tão marcante também na intelectualização do pensamento primitivo por Lévi-Strauss, e a relação da arte com a ciência e com o mito.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO; ÓTIMO

Altos papos
Estes são os primeiros títulos da série "Conversas", da Cosac & Naify, que traz entrevistas de artistas latino-americanos com críticos de arte internacionais. Em "Ferreira Gullar Conversa com Ariel Jiménez", um dos maiores poetas brasileiros fala de sua trajetória, principais obras, da renúncia ao marxismo e da polêmica contra os concretistas de São Paulo e seu racionalismo que reprime a intuição criadora. Não é casual a simpatia de Gullar pela psiquiatria revolucionária de Nise da Silveira, que resgatava o valor estético e o potencial curador da pintura e escultura de pacientes esquizofrênicos. 
Já em "Jac Leirner conversa com Adele Nelson", uma das principais artistas contemporâneas comenta seu olhar peculiar para "sobras" da vida cotidiana, como sacolas plásticas, embalagens de cigarro, cartões de visita, ressignificados quando tirados da esfera utilitária.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO; ÓTIMO

DA ÁRVORE AO LABIRINTO
Para Umberto Eco, o evolucionismo biológico, o historicismo e o psicologismo são tendências do século 19 e 20 que deram cada vez mais lugar à semiótica como perspectiva totalizante dos saberes humanos. A ciência dos signos, porém, se insinua, de modos mais ou menos esparsos e "clandestinos", em correntes diversas como o cético Sexto Empírico, os estoicos ou Santo Agostinho, antes da nova sistematicidade introduzida por Saussure, Peirce ou Hjemslev. Em "Da Árvore ao Labirinto", o pensador italiano se devota a estudos históricos sobre as várias teorias do signo e da semiose ao longo dos séculos. Aborda temas díspares como a relação entre dicionários e enciclopédias, o impacto de traduções ruins de Aristóteles na Idade Média, a obsessão escolástica com o valor semiológico do latido do cão, além de polemizar contra o relativismo do conterrâneo Gianni Vattimo.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ESTRELAS ERRANTES
Tão sagrada para um "povo do livro" como o judeu, a memória é celebrada de modo deslumbrante nessa pesquisa de Nachman Falbel sobre a trajetória do teatro ídiche no Brasil, desde a segunda metade do século 20.
"Venham, venham compartilhar conosco, as nossas e vossas fantasias!", é o sussurro poético que Falbel escutou dos ancestrais que se aventuravam naqueles "mundos iluminados" dos palcos, para ali encenarem os mistérios da alma humana e os sonhos e angústias de uma etnia que é central no palco da história desde os tempos bíblicos. 
A paixão de lembrar se traduz aqui em um arsenal de informações sobre atores, peças e trupes, uma massa de dados que, longe de aborrecer, nos entusiasma pela dupla aventura, a do pesquisador –que nos brinda ainda com um lindo acervo iconográfico- e a daquelas "estrelas errantes" a que o título alude: referência ao sistema do "estrelato" (termo hoje com outra conotação) que, à falta de um teatro mais institucionalizado do Brasil na época, se valia sobretudo de atores famosos da Europa e Estados Unidos que eram trazidos por empresários regidos mais pelo lucro que por ideais de refinamento estético das peças.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

Thursday, October 24, 2013

compreendendo a alma

Encontro histórico de Nise da Silveira (à esquerda) com Carl Gustav Jung, em 1957

Na metodologia das ciências sociais da virada do XIX para o XX, um debate maior era sobre a compreensão versus a explicação. A "explicação" remete ao positivismo de um Auguste Comte, que queria levar para a sociologia os mesmos padrões de rigor e distanciamento sujeito / objeto que se supunha necessários à física ou  biologia. 
Émile Durkheim, na mesma linha, advogava um naturalismo sintetizado no imperativo de que o sociólogo deve tratar os fatos sociais como "coisas", tão independentes e externas ao nosso capricho subjetivo quanto chover no verão ou florir na primavera.  A introspecção ou empatia de nada valem, na medida em que a verdade do social não está no psicológico nem de mim que pesquiso nem de quem eu pesquiso, há uma "consciência coletiva", há instituições, há uma lógica própria nos fatos sociais.
Já no campo da sociologia "compreensiva", Max Weber à frente, a ideia de "erklaren" (explicação com base em generalizações conceituais e regularidades estatísticas) dava lugar ao princípio de "verstehen", proposta na filosofia por Dilthey: compreender enquanto negociação aproximativa entre significados  sempre subjetivos em jogo na realidade social da qual o próprio observador científico é membro. O cientista social assim está em busca de interpretar outras interpretações, como diria Clifford Geertz. A matéria-prima de suas construções conceituais, sempre parciais porque limitadas a uma perspectiva mutante e relativa, a do sujeito da pesquisa é humana, demasiado humana, para que se sujeite a um saber absoluto como o das fórmulas matemáticas: valores, crenças, motivações, sentimentos dos "objetos", também eles sujeitos de sua própria história.
Se Weber pensa o conceito de compreensão na fronteira entre filosofia e sociologia, Karl Jaspers o faz articulando filosofia e psiquiatria; ele nos legou um princípio "compreensivo" que me parece ir além de escolas doutrinárias, e se colocar como preceito essencial ao olhar de todo médico ou do terapeuta da alma: só pode curar quem pode cuidar. Só pode apaziguar o sofrimento de um ser humano, em campo, ou elucidá-lo, em teoria, o cientista capaz de se comunicar empaticamente, se pôr no lugar do outro, reviver em si os afetos e significados dilacerantes nas condutas as mais bizarras, mas nem por isso absurdas. Foi o que Freud mostrou no trato com suas histéricas, e Bleuler e Jung no tratamento de esquizofrênicos: a loucura faz sentido. E deve ser escutada com atenção compassiva e esforço de deixar emergir o sentido que luta, em espírito de autocura, no delírio. Isso vai muito além, claro, de uma psiquiatria de eletrochoques, camisa-de-força química de sedação, de rótulos arrogantes como "o catatônico do quarto 44", os maníaco-depressivos do terceiro andar, as histórias de caso que descrevem como se tratassem de formigas o fulano que fantasia que vê o pinto do Sol balançando no céu e gerando o vento (exemplo clássico na literatura junguiana, pois o psiquiatra suíço ouviu de um paciente com fantasia desse tipo imagem que depois deparou num antiquíssimo texto mitraico, o que o levou pela primeira vez ao conceito de inconsciente coletivo).
Pela minha experiência junto a uma psiquiatria de tipo lacaniano nos últimos anos, e pelo que sei da antipatia do próprio Lacan contra a ideia de compreensão, saio com a sensação de que é no meu primeiro amor em psicologia, Jung com Nise da Silveira, que devo buscar as matrizes mais ricas de um pensamento da alma avesso à psicopatologização opressiva, castradora da criatividade humana, camisa de força de mera capturação intelectual, retenção e conservação, às vezes para pior,  da tragédia que a natureza e a sociedade acarretam quando produzem num homem o calvário da loucura (não faço da loucura um elogio ingênuo e romântico).
Como em outras esferas sociais, uma revanche conservadora  acomete a psiquiatria, depois dos anos revolucionários em que se dava maior prestígio a um Freud ou a um Laing. Um conservadorismo dessa ordem parece incapaz de escutar com empatia nem as palavras (e imagens) dos sofredores psíquicos, nem as deste manual dos anos 60, imortais anos rebeldes do espírito humano também no campo de batalha da psiquiatria:  
"Seria muito mais fácil se pudéssemos evitar o paciente enquanto exploramos o reino da psicopatologia; seria muito mais simples se pudéssemos nos limitar ao exame da química e da fisiologia de seu cérebro e a tratar os eventos mentais como objetos alheios a nossa experiência imediata, ou como meras variáveis de uma fórmula estatística impessoal. Essas abordagens são muito importantes para a compreensão do comportamento humano, mas não podem abranger ou explicar todos os fatos relevantes. A fim de penetrar na mente de outra pessoa, precisamos repetidamente mergulhar no fluxo de suas associações e sentimentos; precisamos, nós mesmos, ser seu instrumento de ressonância".
John Nemiah,
Foundations of Psychopathology (1961)
-Unzuhause-

Tuesday, October 22, 2013

um frontispício do inconsciente coletivo


"nada tão comum 
que não possa chamá-lo 
meu

nada tão meu
que não possa dizê-lo
nosso

nada tão mole
que não possa dizê-lo
osso

nada tão duro
que não posso dizer
posso"
-Paulo Leminski-

Dante, em sua viagem poética e iniciática pelos três mundos da Terra, viu na porta do inferno a inscrição "Lasciate ogni speranza / voi que entrate", deixai toda esperança ó vós que entrais. A esperança é o avesso da subvida que se arrasta nos infernos. A esperança é a tensão com o futuro, como a memória é a tensão com o passado, e ambas dão a (des)medida do quanto o presente não basta para de-finir a criatura transbordante de criatividade que somos nós.  O presente (tempo) é presente (dádiva) mas não se basta a si mesmo, bastaria se não houvesse desejo, e portanto sonho, eco de traumas, profecia de rimas. Poesia, como a que vejo na entrada do inconsciente coletivo. Aliás, já porque "conceito" o inconsciente, mesmo quando aplicado a um indivíduo, se estende a vários, a todos, não podia senão ser coletivo. Édipo e Narciso, a mãe boa e a mãe má, o orgônio, a linguagem, o Outro habitam todos nós... as múltiplas psicanálises concordam com Jung, sem dizê-lo, quando traçam esboços gerais de conteúdos e estruturas universais que habitam o espírito humano para além do perímetro estabelecido pelas sentinelas de Descartes, Locke, Kant. 
Daí o: nada tão comum que não possa chamá-lo meu, nada tão meu que não possa dizê-lo nosso
Inconsciente como espaço das agruras, rochedos, securas, sangrias. Mas também reservatório de potencialidades que gritam como a criança mais chata: ela quer algo, nem que aprontar pirraça. O inconsciente arteiro em que o pai pressente o inconsciente artista, a criança meiga, amorosa, misteriosa, maior que si mesma. Avenidas para o avenir. Inconsciente osso, inconsciente posso!
-Unzuhause-

Sunday, October 20, 2013

Evangelho do dia - a oração do desejo


Evangelho segundo S. Lucas 18,1-8.
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a obrigação de orar sempre, sem desfalecer:
«Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens.
Naquela cidade vivia também uma viúva que ia ter com ele e lhe dizia: 'Faz-me justiça contra o meu adversário.'
Durante muito tempo, o juiz recusou-se a atendê-la; mas, um dia, disse consigo: 'Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens,
contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me.'»
E o Senhor continuou: «Reparai no que diz este juiz iníquo.
E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há-de fazê-los esperar?
Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» 
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja 
Discursos sobre os salmos, Sl 37, 14 
«Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a obrigação de orar sempre»

«Senhor, diante de Vós está todo o meu desejo» (Sl 37,10). […] O teu desejo é a tua oração; se o teu desejo for contínuo, a tua oração também será contínua. Não foi por acaso que o apóstolo Paulo disse: «Orai sem cessar» (1Ts 5,17). Di-lo-á porque sem cessar nos ajoelhamos, nos prostramos ou levantamos as mãos para Deus? Se dissermos que só nestas condições é que oramos, não creio que o possamos fazer sem cessar.


Mas há uma outra oração, interior, que não cessa: é o desejo. Qualquer que seja a ocupação a que te entregues, se desejares aquele repouso do sabbath de que falamos, rezarás sem cessar. Se não quiseres deixar de orar, não deixes de desejar.


O teu desejo é contínuo? Então o teu grito será contínuo. Só te calarás se deixares de amar. Quem são os que se calaram? São aqueles de quem se diz: «E por se multiplicar a iniquidade, resfriará a caridade da maioria» (Mt 24,12). A caridade que arrefece é o coração que se cala; a caridade que arde é o coração que grita. Se a caridade subsistir sem cessar, gritarás sem cessar; se gritares sem cessar, é porque continuas a desejar; se estiveres cheio deste desejo, é porque pensas no repouso eterno.


Uma característica da oração infalível é a perseverança. O cristão deve rezar como o amigo inoportuno que acorda o vizinho no meio da noite para pedir pães. Ou como o exemplo do Evangelho deste domingo: da viúva que insiste com o juiz iníquo para fazer-lhe justiça.
É importante rezar sempre – e com insistência – não porque, quanto mais forte a oração feita, mais facilmente se pode “dobrar” o coração de Deus. Ao contrário, é o nosso coração que não se dobra com facilidade.

Saturday, October 19, 2013

Leminski , Cartier-Bresson,o clique e o clinch


"Depois de hoje
a vida não vai mais ser a mesma
a menos que eu insista em me enganar
aliás
depois de ontem 
também foi assim
anteontem
antes
amanhã"
-Paulo Leminski-

No entorpecimento nosso de cada dia, os dias se escoam e nossa eterna procura de "onde está Wally" dá com os burros n' água, e voltamos pra casa sem nada nas mãos, nada nos bolsos, nada no que os antigos tinham o costume de chamar de alma, essa coisa ressequida e fora de moda. Mas não sei, por vezes pressinto que Wally passa por nós, passa muito perto até, e a nossa distração ou covardia é que nos impede de fitá-lo, preferimos então fazer que não vimos e seguimos procurando, procurando, ansiosos por não encontrar. A cada dia, nem que numa fração mínima dele, tivemos tudo para fazer da inquietude visão e tirar as consequências da visão na ruptura da repetição. Não mais aceitar o tudo igual, o mais do mesmo, não mais sucumbir, aquele maldito instante de capitulação em que os ombros amolecem e nós nos entregamos, e sabemos disso, e não fazemos nada para fazer alguma coisa diferente daquilo que dá sempre na mesma merda de resultados, e reclamamos dos resultados mas não do que fazemos e do que deixamos de fazer para produzir os resultados que abraçam a vida com aqueles agarrões de boxeador cansado e  como a sombra que não larga do pé do corpo na luz. 
O Wally que caçamos para não encontrar, isso me relembra o "instante decisivo" que definia para Cartier-Bresson o sentido de fotografar. O clique como ideia luminosa, que captura, ou melhor, liberta da efemeridade distraída em que algo, uma sincronicidade de elementos na composição total do sentido de uma cena,  ocorreu e se dissipou na vida -e toda arte existe porque a vida não basta, disse mestre Ferreira Gullar- mas sobreviverá em imagem.  O clique como irrupção do "acontecimento" arrancado das entranhas que, deixadas a seu automatismo, não produziriam senão ciclos que dão nas fezes da vida sem fé que se esgota para recomeçar amanhã no feitiço do tempo do sempre. O conhecimento que sem ação não passa de boato, mas que amparado como a Sagrada Família em torno do bebê se torna libertação : clique!  Ou o jogo medíocre do jogador nocauteado por sua própria impotência: o clinch... eis o dilema do infinitésimo de cada dia, eis a arena moral em que somos gladiadores contra os leões gordos e cansados de nossa própria realeza inconsciente de si.
-Unzuhause-
PS: 
Sobre o "instante decisivo" em Cartier-Bresson, cf. http://www.fotografelivre.com.br/2013/01/o-instante-decisivo-de-bresson.html
Tudo no universo está em constante agitação. Os quarks, átomos, moléculas, células, ondas de radiação, os seres constituídos de complexos sistemas vivos, os satélites, os planetas e as estrelas. Até mesmo a mais gigantesca das rochas está em continuo movimento. Diante deste aparente caos, em dado momento tudo se alinha e cria uma harmônica e simétrica imagem.

A este momento único, o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson chamou de “O instante decisivo”. Bresson passou a vida correndo atrás deste instante que, para ele, seria a foto perfeita.

A arte de registrar as coisas data de nosso passado mais remoto. Nas cavernas, nós dizíamos como foi o dia, o que caçamos e como caçamos. Já nas idades dos mitos, registrávamos cenas de batalhas heróicas. Na época medieval, a pintura sacra se misturava com os deuses pagãos, relatando nossa fé. Tudo, no entanto, era demasiadamente estático.

Com o advento da fotografia (para saber mais da história clique aqui), os registros passaram a ser muito mais rápidos, mesmo assim, estáticos. Bresson, que antes de celebre fotógrafo estudava artes plásticas, vislumbrou um algo onde ele conseguia paralisar o universo em movimento.

Com a herança da geométrica de seu professor de pintura, o cubista André Lothe, Henri se dedicou a encontrar o momento certo para clicar e este certo seria uma harmonia de retas e curvas incluindo, claro, a figura humana, estatizando, geralmente, momentos de puro movimento.

Está complicado? Não entendeu? Irei explicar. Visualize uma praça onde existam pombos ciscando atrás de comida. Um velho está sentado em um banco prestes a jogar milho as aves. Mas, no local da cena, há um problema que a prefeitura está tentando resolver e que está incomodando os habitantes vizinhos, os cocôs destes animais que infestam e enfeiam os parapeitos das casas. O velho enfia a mão no saco de milho e retira um punhado. Nisso, um homem está passando atrás da cena olha com cara de raiva enquanto o velho estica o braço com força alçando os milhos ao ar. No passo do homem atrás, você clica.

A imagem que captou resume todo o problema além de trazer uma linda composição. O velho com braços esticados jogando o milho, o homem com as pernas em ‘V’ invertido olhando com raiva para o velho e os pombos sendo alimentados. Ou seja, você mostrou o problema e a ira dos moradores em um enquadramento no instante decisivo, paralisando o mundo em pleno curso de suas ações.

“Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, da significância de um acontecimento, bem como de uma organização precisa de formas que dão a esse acontecimento sua expressão adequada”, disse.

Perder este instante é comum, por isso é bom ficar atento, mas como Bresson mesmo falou, “para os fotógrafos, o que passou, passou para sempre”.



Friday, October 18, 2013

Jung comigo no hospício do mundo


O post anterior era na verdade o início de uma reflexão que vou desenvolver agora. Era uma digressão que, demasiado longa, exigiu para si os holofotes de texto próprio. 
Eu dizia do término de uma análise lacaniana. E tinha em mente um de seus efeitos mais imediatos, a desinibição de minhas intuições psicológicas, que são muito mais íntimas de Jung do que de Lacan. Por aflições mais de ordem psiquiátrica (episódio de pânico e consequente transtorno obsessivo-compulsivo, há sete anos), optei por um médico que também era psicanalista, e da escola que eu frequentava. E desde então o que ganhei em apaziguamento (indispensável, na época), sofri em termos de aprisionamento da energia hidráulica de meus sonhos, e provavelmente também de minhas fantasias mais destrutivas. Não explicitamente, "escutava" de meu analista uma certa satisfação quando eu dizia que meu amor por Jung estava travado, que uma leitura aqui, uma tradução acolá, não conseguiam fluir por conta de minhas aflições em relação à consistência do próprio pensamento do "mestre" (será que ainda era um, para mim?). Acho que isso se encaixava, de alguma forma, na ideia de lacanianos como Jacques-Alain Miller de que a análise nos reduz ao "osso", nos desseca dos fantasmas, para reabrir o caminho da invenção e da responsabilidade, de decisões mutáveis, no que antes era um campo de certezas. Isso é belo, e deve mesmo ter a ver com meu processo.
Nesse ínterim, não por acaso, minha maior produção no universo junguiano foi um ensaio em que interrogo as aflições também psiquiátricas subjacentes ao pensamento psicológico de Jung, cf.  http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=12&ori=autor&letra=L
Uma verdadeira "Noite Escura da Alma", como diria São João da Cruz (apesar de eu suspeitar do uso excessivo dessa ideia, desse verso, pra tudo o que seja situação de tristeza e esterilidade de uma pessoa religiosa). Os velhos símbolos já não conversavam comigo, e com eles haviam partido, e se partido, as condições de pacto da alma com o mundo, do não sentido com o sentido, da beleza de viver com os absurdos da vida.
Mas na própria insatisfação profunda eu sentia que Jung continuava vivo em mim. Na própria esterilidade desértica eu hauria a sede que me impedia de parar. Não me desencantei com ele, mas sim com as limitações da minha própria maneira de ser, que não honra o mito junguiano  quando se utiliza dele para fugir dos deveres da realidade. O mito junguiano é verdade da alma, não crença dogmática sobre o Ser. É o que, quase sem perceber, me levou outro dia ao seguinte comentário no facebook: 
depois que topei com a teoria de que Leonardo da Vinci é o autor e o modelo do Sudário de Turim, lá vem mais essa cacetada :)) mas pra que se afligir (se maravilhar sim!) com o Jesus da arqueologia dos milênios se a nossa própria psicologia conversa com o Cristo do espírito hoje?
Eu me referia a uma notícia sobre teoria nova que circula na praça, de que Cristo foi uma lenda forjada pelos romanos, para sufocar, com um "deus" judeu pacifista, a revolta do povo dos profetas contra a dominação dos césares. 
Na distinção entre a arqueologia dos milênios e a psicologia do agora, entre o Jesus histórico e o Cristo da fé, eu claramente me inspiro em lições junguianas sobre a ilusoriedade e a verdade de todas as nossas images de deus, que não falam hebraico, indiano ou tupi senão porque falam primeiro o esperanto (esse, não forjado, mas prévio a Babel) da natureza humana.
E não só nas minhas opiniões e humores religiosos, mas na atitude mesma para com a vida, é Jung o fio vital, o pai espiritual, a presença xamânica que me dá motivação para a vida. Subjugado pelos sete anos de deserto analítico, não fui roubado da seiva sintética em que meu eu se recompõe e ao mesmo tempo se abre ao que lhe ultrapassa, refratário a qualquer colonização. Ontem, por exemplo, dia horroroso, exteriormente, ao passar pela cidade e ver gente amontoada de pé no metrô, sentada nos carros, nego andando com calça cagada por inteiro, em frente ao cemitério do metrô Clínicas, acidente na dr. Arnaldo com a turma do resgate resgatando a vítima, na USP os grevistas profissionais com sua obra de arte inovadora, as carteiras tiradas da sala de aula amontoadas pelos corredores da FFLCH, muitas delas picoteadas (um aviso dizia que eram "intervenções" sobre carteiras que em boa parte já estavam danificadas antes). A burocracia medonha de meu pedido de bolsa. A minha conversa, no ônibus, com uma senhorinha simpaticíssima, com quem fui comentando esse mundo fora dos gonzos; ela me lembra minha vovó, sobretudo quando diz que os baderneiros pedem isso, exigem aquilo, e "no meu tempo", ou melhor, no dos avós dela, os imigrantes chegavam com uma mão na frente e outra atrás, sem falar patavina da língua local, e literalmente se construíam e a suas casas do monturo e da poeira. E eu lhe explicando minha técnica de me desapegar, me condicionando mentalmente com o pensamento de que estou de visita nessa merda toda, como se em turismo na Índia. 
E a noite se fechando com meu mestre, sim, meu Amado de Kusnacht, vindo me explicar tudo aquilo, ao dizer que, de uma psicologia cientificista nada podemos esperar se queremos entender de alma. Ao contrário, o que precisamos é de outra coisa: "dependuremos no cabide a ciência exata, despeçamo-nos de nosso escritório de estudo e percorramos com um coração humano o horror das prisões, os hospícios, os hospitais; vejamos os arrabaldes, os bordéis, os salões elegantes, a Bolsa, os comícios socialistas, as igrejas, as seitas fanáticas; sintamos em nosso próprio corpo amor, ódio, paixões. Então voltaremos carregados duma sabedoria mais rica do que aquela que nos dariam grossos manuais e poderemos, como conhecedores da alma humana, ajudar os doentes".
Foi isso que eu fiz para que você mesmo não fosse apenas grossos manuais, mas  herança paterna que dissipei como filho pródigo mas que não tinha como desaparecer, amor que é e que me impulsiona de volta para casa, amado mestre (ah, e parabéns atrasados, como em tudo sou atrasado!, pelo dia dos professores).
-Unzuhause- 

eu era feliz porque não sabia


Estou me "libertando" aos poucos de uma análise lacaniana que me siderou por longos 7 anos e pouco. Espero pelo seu término para que ela, em certo sentido, possa começar: o sentido de uma análise, como o de toda grande experiência, é sujeito a toda sorte (e azares) de oscilação, se negociando também num "só depois" dela: a perda que dá completude ao que existiu. Lamenta-se muito que a gente só dê valor a alguma coisa quando a perdemos; pra mim isso é da condição humana. Não é que antes não déssemos valor, mas o valor se afigura substancialmente outro quando a experiência a ser valorada acaba, quando o gosto da finitude, antes inconsciente, se explicita no paladar do sobrevivente do tempo que somos como seres de memória, quando o "Ser" aparentemente eterno se revela como  que sempre "foi" e não sabíamos, de tão felizes: estar passageiro, que respira e logo fenece como tudo. O rio heraclitiano do "panta rei", tudo passa. A felicidade se quer e se espera eterna, como disse outro dia o querido professor Clóvis de Barros Filho numa entrevista sensacional no Jô Soares, ponto de partida, provavelmente, de seu estrelato intelectual para além das fronteiras acadêmicas em que seu mérito já era reconhecido. Eu era feliz e não sabia? Não, eu era feliz porque não sabia.
-Unzuhause-

Thursday, October 17, 2013

as Valquírias de Jung


Toni Wolff, uma das mais brilhantes colaboradoras do círculo íntimo de Jung

Leio uma nota de diário de um homem próximo de Carl Gustav Jung, o famoso psiquiatra e analista suíço; a nota diz que Jung escutava em tom de "objeção" o comentário frequente de que entre seus seguidores a grande maioria era de mulheres.Que isso fosse uma crítica, dá bem a medida dos preconceitos que a mulher sofria (oi? não sofre mais?) na época, para tirar a barriga do tanque, do fogão e do berçário e alçar voos de autonomia, por exemplo, como intelectual. Já o fascínio de Jung junto ao que então eram chamadas suas "Valquírias" tinha uma mescla de razões pessoais e teóricas. O homem era um azougue. Grande, forte, campônio, viril, traços que lhe tornavam o gênio uma potência que atraía, e não intimidava, como no caso de gênios da amargura e da solidão como Nietzsche e Schopenhauer. E , no aspecto doutrinário, sua psicologia é muito generosa com as mulheres, para ele quase que divinas, em sentido pagão, embora Jung pessoalmente se permitisse disparates machistas, típicos de seu tempo e cultura (não no sentido aqui de inteligência aprendida, mas de segunda natureza). Mas a resposta que ele dava aos críticos de suas Valquírias era sensacional. Primeiro, ele se se considerava um pai espiritual delas, meio que em bases de horda primitiva, o Macho-Alfa com monopólio de todas as mulheres, inclusive sexualmente, no caso de uma Sabina Spielrein (que nãoi participou propriamente do elenco das valquírias, é anterior a elas, e talvez mais decisiva ainda, femme inspiratrice do conceito de anima, que discutimos adiante) ou de Toni Wolff, até mesmo quebrando a regra da abstinência terapeuta-paciente. Ele era um fio vital, uma bateria viva que tinha a missão de energizar suas mulheres, assim lhes equipando das condições de irradiar o brilho natural. Uma teoria da transferência radical, transmutada em teoria da presença xamânica de Jung transmissor de "mana" (energia primitiva) para as suas meninas-senhoras guerreiras; a mulher se relaciona com a vida pela mediação de um grande homem, e vice-versa, ponto que o conceito de anima/animus deixa muito explícito. E anima, a feminilidade do homem, era também a feminilidade da própria psicologia, como ele gostava de dizer aos críticos misóginos: "O que se pode fazer? Afinal a psicologia é a ciência da alma e não é culpa minha que a alma seja uma mulher". Jung dependia, respirava por mulheres tanto quanto elas em relação a ele.
-Unzuhause-

considerações junguianas


Entre os verbos do alemão junguiano, um particularmente interessante é o Betrachten, em seus múltiplos sentidos.
Frente ao que aparece e nos convoca, por mais difícil e doloroso, Jung nos recomenda não contornar, mas ir através. Não tergiversar, mas versejar. Fazer poema do ruído. Não o esquema, mas a atenção plena. Betrachten tem disso: é um "considerar" que se assemelha à palavra "realizar" enquanto dar-se conta do outro, despertar para as incidências do alheio. Em termos clínicos, isso se liga às práticas poemáticas de inscrever, ou desenhar, ou modelar o complexo (unidade básica da psique, como as nações em soma dão um mapa-múndi da política). Complexo é ideia-afeto, que assim transformada pela consideração, já é não mera emoção bruta, não subjuga um ego catatonizado pelas enchentes, mas mobiliza a cidade a ser melhor para incluir a Shiva, aceitar a chuva. 
A consideração implica um ponto de equilíbro (não uma zona de conforto) em que a relação senhor/ escravo (Hegel) é transcendida. Nem o ego é dono do inconsciente, com medicações ou interpretações arbitrárias, autoritárias, meramente imaginárias, nem o inconsciente é tirano nos soterrando. O considerar (Betrachten) se liga assim ao "deixar acontecer" e ao "confrontar" (outros dois verbos essenciais da sintaxe junguiana da alma), embora este segundo e terceiro verbos estejam em aparente contradição, um é pacífico, outro é bélico. Assim como na gravura dos Upanishads, dois pássaros na árvore, um come do galho, o outro não.
Betrachten, porém, também significa engravidar. Trächtig quer dizer "prenhe", no sentido exclusivamente animal. Assim, pode-se dizer que o considerar é concepcional, por assim dizer: ele engravida tanto o "objeto" como o "sujeito" da contemplação, transforma a ambos, algo de vivo e movente surge em um e outro e afeta um ao outro. Numa análise, isso se dá já no nível da relação terapeuta/ paciente. Anna O., primeira paciente da história da psicanálise, fantasiou estar grávida de Breuer. Por outro lado, sinal de monotonia e de ciclo encerrado  é quando já não se nota isso, o "paciente" é passivo, é o mesmo de sempre, e tampouco o terapeuta se aventura junto a engravidar e a engravidar-se da centelha de uma nova experiência e acesso ao mundo. 
Betrachten, por fim, é também um pôr-se à distância. É criação de um espaço, de uma liberdade, no que antes era fusão e confusão maciça de elementos. É como no grego Theôria: contemplação e a ideia que brota da contemplação. Algo impossível sem a distância, sem o frescor de novidade, que vem do se nos desprender do conteúdo inconsciente que antes estava pisoteado ou nos pisoteava. Distância também entre "paciente" e terapeuta, para que as relações se reconfigurem, a consideração vire de fato gravidez e a gravidez, vida nova.
-Unzuhause-

Wednesday, October 16, 2013

mais amor, por favor


Uma de minhas comunidades favoritas no facebook, a dos Admiradores da Rota -Tropa de Elite paulistana que fez ontem 43 anos de idade-, distribui hoje nota que, para almas como a  minha, politicamente incorretas quando o assunto é a nossa infame insegurança pública, é como que uma garrafa de uísque oferecida por Mefisto para atrapalhar qualquer esforço de "rehab" e recondução ao  rebanho cordato das opiniões de bom coração.
A Secretária Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário diz que ficou "comovida" ao ver a cena do vagabundinho que levou uns pipocos ao subtrair a Hornet de um cidadão de bem.
O que dizer a uma palerma dessas? Essa defensora de bandidos é a LÍDER da corja dos Direitos Humanos. A cada palavra emanada por esta podre,o crime se fortalece.
Ela fica comovida ao ver um bandido caído por consequências dos seus próprios atos,nada ali foi primário mas sim a reação a sua agressão ao direito a propriedade alheia,e diz que o Policial foi "violento",violência seria ser um PM e ver tudo aqui e nada fazer.
Vá procurar o que fazer sua DEFENSORA DE BANDIDO!
O POVO DE BEM REPUDIA AS AÇÕES DA SRA E DE TODOS QUE COMPÕEM O "DIREITO DOS MANOS".

O nó de muitos relacionamentos humanos está em que exigimos ser tratados conforme nossa intenção mas não somos recíprocos nisso, ao contrário, julgamos os outros com base na ação deles.
Isso me relembra a sabedoria de Santo Inácio de Loyola: "Devemos estar mais interessados em interpretar bem a declaração de qualquer pessoa do que em condená-la". Ou seja, cada um deve pressupor que o outro está dando o melhor de si.
Isso é exatamente o oposto do que queremos neste tempo em que a agressividade é moeda de troca de todos os relacionamentos, e de nossas expectativas de nos destacarmos dos demais. Para se vender bem, é preciso xingar o outro de idiota, como faz Olavo de Carvalho no best-seller que está no topo das paradas de sucesso da filosofia vendável; não basta imergir na e defender a filosofia própria. Isso, o polemismo por ressentimento, grandes filósofos já faziam, é verdade, desde Diógenes até um Schopenhauer, muito sábio, aqui como em tantos contextos, quando afirmou sobre a pena de morte (tema atualíssimo): 
"Aos que gostariam de aboli-la [a pena de morte], deve-se responder: 'Aboli primeiro o homicídio no mundo; depois podereis abolir a pena de morte também". 
As relações humanas, concretas ou abstratas (isto é, relação com ideias e com as imagens que fazemos dos outros sobrepostas às pessoas em si), se transformam cada vez mais em verdadeiras batalhas campais, em que o único punido depois é o pobre do PM que teve de intervir com força para apartar os animais irados com rosto de homens. Estado covarde que paira sobre todos com sua novilíngua politicamente correta (Orwell, 1984), tudo precisa ser discutido, conversado, "congressado", engessado, falta pulso e virilidade de ação. Falta Rota na rua. Mas falta também ir no sentido oposto da força ostensiva (a verdade é sempre paradoxal, provavelmente inclui a verdade da proposição oposta); falta o "mais amor por favor"das fotinhos fofas de facebook, falta, mais seriamente, o espírito sutil de tolerância, que deixa até a imbecilidade da turma dos direitos dos manos poder ser escutada na generosidade, no humanismo, no eco cristão de suas intenções, a despeito da burrice objetiva de suas intervenções.
-Unzuhause-

Wednesday, October 09, 2013

a presença carismática



Do You Have Presence?  Can You Learn Charisma? 

Hello power persuaders,

Happy Wednesday everyone! Welcome back to the newsletter and podcast. It sounds like everyone is fed up with politics, so I promise I won't talk about what is happening in Washington DC.   

So, the question of the week is....Do people notice when you walk into a room? Do you have presence?

Quick Links

You have seen it, you have felt it. When you are around a charismatic person, not only do you feel their presence and energy, but it is transferred to you. There are 3 parts to your presence: your health, your enthusiasm and your energy. Too many people have no presence and it can actually repel those you are trying to influence and lead. You have sat next to this type of person before. You don't even talk to them, but you can feel them draining the energy out of you. 
People judge you by how you look and how you make them feel. You need to consider your weight, your exercise, your nutrition and your sleep. We are all busy and I know it is difficult to make time for these things, but is critical for your presence and your ability to influence and radiate charisma. 
When you enter a room, everyone needs to notice. When you have a great presence - you transfer energy. When you are speaking in front of a group, you not only have to transmit energy, but maintain the energy of the audience. A bored and uninterested mind will always say no. When your presentation or demeanor is dull and lifeless, you lose their interest and transmit no charisma. 
When we look at life, we have to realize that it is not lived in segments, but rather, it is part of a greater whole. We can't compartmentalize each area of our life. Every aspect of your life will either help or hurt your presence and charisma. Your objective is to get all areas working together to create and have the ability to transfer high-energy. Realize, however, that you can invest too much time in one aspect of your life. When you do, you can get unbalanced just like a tire on a car. Even too much of a good thing can lead to disaster. 
Charismatic people enhance their energy by finding balance and alignment in their lives. No balance and no energy - equals no charisma. When you don't feel right, you don't seem right to other people. Make sure there is balance in every aspect of your life. Imbalance can undermine motivation and cause inaction and decrease your energy. 
Most people lack energy because they don't know an imbalance exists. It may be only one area of our life that is out of alignment, but it can still have a direct effect on other areas of our life. Just like your car. If your brakes aren't working - it will affect your ability to drive your car. Find balance and you will find more energy and improve your presence. 
If you want balance, if you want a better presence and more energy, you need to align your life. There are six areas that you must spend time on each week (some require more time than others). There are the six areas of life lignment.

Financial
If you can't take care of your monetary needs, then you can't take care of your basic needs. If you neglect your finances, imbalance will ensue. We all know when you can't pay the bills, it affects every aspect of your life.
Physical
If you don't feel well, you can't even begin to think about improving the other aspects of your life. You need to have a health plan. Do you understand nutrition, sleep and exercise?   If you don't, your lack of health or energy will drop your ability to find balance and generate charisma. 
Emotional
As human beings, we are emotional creatures. You cannot allow emotions like anger, resentment, frustration, hate, and depression rule your life. You are in control. If you are not able to control your emotions, you will be unable to control your actions or your life. Emotional mastery is essential to a balanced personal happy life. 
Intellectual
Personal development is what keeps you excited, motivated, and moving towards your goals. We are at our best when we are continually learning and improving. Personal development is something we need to do every day. The lack of personal development causes us to become negative, cynical, and pessimistic. 
Spiritual
You have to be in tune with yourself, with who you are, and your purpose. We are spiritual beings; we all have a spiritual side. We all define spirituality in a different way. It could be serving others, religion, meditation, or even getting back to nature. You need to take the time to listen to your inner voice and to tap into your personal spirituality. 
Social
We are also social creatures. Our greatest strength and well-being comes from our relationships. Most of our happiness (and sadness) comes from our associations with each other. As such, relationships are an integral part of your happiness and balance. No man (or woman) is an island and life and success is not a solo project. 
Application
We often spend too much of our time focusing on the wrong things. We get so busy pursuing what others recommend that we forget to examine what is helping or hurting us. If we neglect any one of the life-alignment areas, our overall happiness, energy and presence will diminish.

The key is to discover what is sucking the energy out of you. We know that the lack of balance in your life could be a major factor in losing valuable energy. Find the biggest area of weakness (physical, intellectual, spiritual, social, financial or emotional) and create a game plan to fix it.

Persuade with Power


Monday, October 07, 2013

arte da sedução: pra dentro das minas


Folks, gostaria de prosseguir compartilhando com vocês uma das leituras mais divertidas que fiz este ano, O Jogo, de Neil Strauss, sobre os fundamentos da arte da sedução. 
Uma espécie de "romance de formação", para lembrar o célebre gênero literário alemão, em que normalmente um adolescente se vê às voltas com duras provas iniciáticas para abandonar as ilusões e facilidades do mundo infantil e ter acesso aos poderes e responsabilidades do "super-herói", isto é, do agora adulto mas que não será um qualquer, é alguém geralmente invulgar, dotado de traços excepcionais, ainda que inicialmente ignorados por todos e pelo protagonista da sua própria história.
A condição "infantil" do protagonista de O Jogo é evidente nas confidências de Strauss sobre sua vidinha sexalmente pacata, a despeito de todo o glamour do trabalho de jornalista e escritor, antes de virar o personagem de cognome "Style", destinado ao estrelato junto a seus pares (os "artistas da sedução") e seu público-alvo, as mulheres mais desejáveis da noite de Los Angeles e de muitas outras cidades mundo afora. 
Ao contrário de Style, o pobre Strauss era um nerd típico,  solitário, carente, cujo único poema na vida, da época do colégio, se chamou sintomaticamente "Frustração Sexual". 
Durante o primeiro workshop com Mystery, seu principal mentor (arquétipo crucial na jornada do herói, segundo Joseph Campbell) e logo parceiro ao longo do livro, Strauss se dividia entre a avidez com que anotava os ensinamentos e uma certa amargura, se posso dizer assim, de se ver numa situação como aquela, junto a outros diplomados  "retardados sociais", na sua dura autocrítica, correndo em busca do tempo e das fodas perdidas, sintomáticas, em seu buraco, do quanto "nossos pais e amigos falharam conosco. Eles nunca nos deram as ferramentas de que precisávamos para nos tornarmos seres sociais plenamente efetivos. Agora, décadas mais tarde, era hora de adquiri-las". Mais que lamento pessoal, vejo aqui depoimento de grande valor coletivo, revelando por um viés peculiar a tão propalada crise da função paterna, e com ela dos velhos scripts do "macho", na cultura contemporânea.
Sei bem a diferença de fazer parte de um grupo que nos transmita confiança e know-how masculinos, tão inaturalmente "naturais", que nos abençoe com a camaradagem do encorajamento, das piadas, dos termos chulos, das "notas" para as minas,  termo que tanto escutei e falei no meu tempo de baladas juvenis. Contração da palavra "meninas" que, para além dessa acepção, não deixa de exprimir o simbolismo ambíguo, de caverna (feminina por excelência) que esconde o ouro precioso para os aventureiros corajosos, e de artefato de explosões mutiladoras para pés incautos. Vivi essa dimensão de confraria de aprendizagem do papel masculino sobretudo na idade crítica dos 15 anos, para minha sorte, pois me livrou dos complexos de criança gordinha e solitária e me impulsionou ao emblemático primeiro beijo, num baile de carnaval, e aos amassos e ficadas de váaarias domingueiras do inesquecível Clube dos Oficiais da Polícia Militar, na minha Zona Norte. O marasmo das conversas academicistas sempre me estapeia com a virulência de um mestre zen, um vulto que me esmurra as paredes do estômago me exigindo que fujamos de gente nóia e de rodas nauseabundas de uma razão que não dê vazão ao tesão que (só ele) lhe traz salvação: sem tesão não há solução, diria com o mestre Roberto Freire. 
"Meu trabalho", voltando a nosso livro e dando a palavra ao mentor de Strauss e demais pupilos de workshp,  "é colocar vocês no jogo. Preciso transferir o que tenho na minha cabeça para a de vocês. Pensem nesta noite como um videogame. Não é real. Toda vez que fizerem uma abordagem, vocês estarão praticando o jogo".
"Todas as suas emoções vão tentar foder com vocês. Elas estão aí para tentar confundi-los, portanto fiquem sabendo agora mesmo que não devem confiar nelas de modo algum. Algumas vezes, vocês se sentirão tímidos e constrangidos, e será preciso tratar isso como se trata uma pedra dentro do sapato. É desconfortável, mas será necessário ignorá-la. Não faz parte da equação".
"Vocês terão que praticar esse jogo várias vezes para aprender a usá-lo. Portanto, preparem-se para fracassar".
(to be continued)
-Unzuhause-

Tuesday, October 01, 2013

Pacaembu chorando por nós


Tite , com seu desgaste natural pelo tempo de comando do time, é o menos culpado. Bem menos do que a incompetência da diretoria pra se livrar dos pesos mortos de antes e evitar  trazer outros. Diretoria banana  que não soube nos imunizar do clima de acomodação que é mortal para qualquer ambiente criativo e competitivo. Péssimos investimentos. Ibson é brincadeira, Renato Augusto é do tipo que é tecnicamente bom, mas não se conte com ele. Não tem punch de atleta de alto nível e atrai contusão.  Pato, mais caro que o time inteiro do já campeão Cruzeiro, ah Pato! Fio, tu não nasceu pra vestir esta farda, pede pra sair. Mas o que me soa mais sinistro, e mais sintomático de segunda divisão à vista, é a conduta da torcida, simplesmente destruindo, com as punições do tribunal para suas irresponsabilidades, o que era pra ser o ano histórico da despedida de nosso eterno Pacaembu. Ouço as arquibancadas chorarem ao saber que, por culpa de marginais que jogam contra nós, contra a cidadania, no dia a dia, nos roubando e nos matando pelas ruas, bandidos quaisquer, o time do povo é forçado à despedida precoce de sua casa. A Fiel é maravilhosa na essência, mas não deixa de ter uma cambada de girinos mentais que estão se lixando para o bem do time, querem é botar pra fora, via violência, seus impulsos primatas, entre os quais um que, pra não dizer o nome próprio, toma a forma de palavrão dirigido ao outro, por exemplo contra o mascarado  que é esse Emerson, que na hora mais inconveniente possível assumiu seu lado "alegre" que nada tem a ver com os rigores de guerra sublimada que se vive e se morre a cada hoje e amanhã, sempre de novo, não importa a glória de ontem, no campo de jogo. Nos deu os dois gols do título da Libertadores, é verdade, mas parou lá, agora só sabe se estatelar como uma dama ao primeiro esbarrão de zagueiro dentro da área, e dar carrinhos e pontapés de "protesto" masculino, como diria Adler, contra sua imagem definitiva e desnecessariamente desgastada. 

-Unzuhause-


Tite agradece apoio da direção e nega estar "esgotado" pela crise

Do UOL, em São Paulo
O abatimento de Tite após a goleada sofrida pelo Corinthians diante da Portuguesa chamou atenção de quem acompanha o dia-a-dia do treinador, que sequer falou com a imprensa depois do 4 a 0 do último domingo. Nesta terça, ele conversou com os jornalistas pela primeira vez desde o episódio e negou que esteja "esgotado" pela crise.
"Eu discordo desse termo. Se tivesse esgotado, não teria nem iniciado minha carreira. Tem de ter luz, discernimento e persistência. Talvez não exista instabilidade maior que a do técnico. Iniciei com 16 anos no futebol e com 28 já era técnico. Todas as pessoas têm de entender que não existe super-homem para nada, inclusive para técnico", disse Tite à rádioGlobo.
O treinador ficou tão fragilizado após a derrota em Campo Grande (MS) que foi poupado pelos jogadores no vestiário. Após o 4 a 0, Alessandro e Emerson foram encarar a imprensa e defenderam Tite, àquela altura muito pressionado pela série de oito jogos sem vencer do Corinthians.
"Eu aceitei de bom grado a iniciativa deles conversarem com vocês. Por mais humano que tu seja, o sentimento fica aflorado. Nenhuma vez aconteceu de eu não ir [em coletivas pós-jogo]. Quando aconteceu, foi com vitórias. Eu também sou humano, não sou super-homem. Disseram: 'Tantas vezes você foi lá, deixa a gente agora", disse Tite.
A pressão, ao menos oficialmente, não surtiu efeito. Toda a diretoria de futebol já repetiu o discurso de que ele será mantido até o fim do ano, e mesmo a torcida não dá sinais de que vê o técnico como o principal culpado. Tite agradece.
"Sou um cara privilegiado. Estar técnico do Corinthians com tanto tempo assim, e estar apoiado assim não é para qualquer um. Quero ter toda a força possível e a capacidade, o discernimento, para fazer um grande trabalho para toda a equipe", completou.