Monday, October 07, 2013

arte da sedução: pra dentro das minas


Folks, gostaria de prosseguir compartilhando com vocês uma das leituras mais divertidas que fiz este ano, O Jogo, de Neil Strauss, sobre os fundamentos da arte da sedução. 
Uma espécie de "romance de formação", para lembrar o célebre gênero literário alemão, em que normalmente um adolescente se vê às voltas com duras provas iniciáticas para abandonar as ilusões e facilidades do mundo infantil e ter acesso aos poderes e responsabilidades do "super-herói", isto é, do agora adulto mas que não será um qualquer, é alguém geralmente invulgar, dotado de traços excepcionais, ainda que inicialmente ignorados por todos e pelo protagonista da sua própria história.
A condição "infantil" do protagonista de O Jogo é evidente nas confidências de Strauss sobre sua vidinha sexalmente pacata, a despeito de todo o glamour do trabalho de jornalista e escritor, antes de virar o personagem de cognome "Style", destinado ao estrelato junto a seus pares (os "artistas da sedução") e seu público-alvo, as mulheres mais desejáveis da noite de Los Angeles e de muitas outras cidades mundo afora. 
Ao contrário de Style, o pobre Strauss era um nerd típico,  solitário, carente, cujo único poema na vida, da época do colégio, se chamou sintomaticamente "Frustração Sexual". 
Durante o primeiro workshop com Mystery, seu principal mentor (arquétipo crucial na jornada do herói, segundo Joseph Campbell) e logo parceiro ao longo do livro, Strauss se dividia entre a avidez com que anotava os ensinamentos e uma certa amargura, se posso dizer assim, de se ver numa situação como aquela, junto a outros diplomados  "retardados sociais", na sua dura autocrítica, correndo em busca do tempo e das fodas perdidas, sintomáticas, em seu buraco, do quanto "nossos pais e amigos falharam conosco. Eles nunca nos deram as ferramentas de que precisávamos para nos tornarmos seres sociais plenamente efetivos. Agora, décadas mais tarde, era hora de adquiri-las". Mais que lamento pessoal, vejo aqui depoimento de grande valor coletivo, revelando por um viés peculiar a tão propalada crise da função paterna, e com ela dos velhos scripts do "macho", na cultura contemporânea.
Sei bem a diferença de fazer parte de um grupo que nos transmita confiança e know-how masculinos, tão inaturalmente "naturais", que nos abençoe com a camaradagem do encorajamento, das piadas, dos termos chulos, das "notas" para as minas,  termo que tanto escutei e falei no meu tempo de baladas juvenis. Contração da palavra "meninas" que, para além dessa acepção, não deixa de exprimir o simbolismo ambíguo, de caverna (feminina por excelência) que esconde o ouro precioso para os aventureiros corajosos, e de artefato de explosões mutiladoras para pés incautos. Vivi essa dimensão de confraria de aprendizagem do papel masculino sobretudo na idade crítica dos 15 anos, para minha sorte, pois me livrou dos complexos de criança gordinha e solitária e me impulsionou ao emblemático primeiro beijo, num baile de carnaval, e aos amassos e ficadas de váaarias domingueiras do inesquecível Clube dos Oficiais da Polícia Militar, na minha Zona Norte. O marasmo das conversas academicistas sempre me estapeia com a virulência de um mestre zen, um vulto que me esmurra as paredes do estômago me exigindo que fujamos de gente nóia e de rodas nauseabundas de uma razão que não dê vazão ao tesão que (só ele) lhe traz salvação: sem tesão não há solução, diria com o mestre Roberto Freire. 
"Meu trabalho", voltando a nosso livro e dando a palavra ao mentor de Strauss e demais pupilos de workshp,  "é colocar vocês no jogo. Preciso transferir o que tenho na minha cabeça para a de vocês. Pensem nesta noite como um videogame. Não é real. Toda vez que fizerem uma abordagem, vocês estarão praticando o jogo".
"Todas as suas emoções vão tentar foder com vocês. Elas estão aí para tentar confundi-los, portanto fiquem sabendo agora mesmo que não devem confiar nelas de modo algum. Algumas vezes, vocês se sentirão tímidos e constrangidos, e será preciso tratar isso como se trata uma pedra dentro do sapato. É desconfortável, mas será necessário ignorá-la. Não faz parte da equação".
"Vocês terão que praticar esse jogo várias vezes para aprender a usá-lo. Portanto, preparem-se para fracassar".
(to be continued)
-Unzuhause-