Thursday, October 24, 2013

compreendendo a alma

Encontro histórico de Nise da Silveira (à esquerda) com Carl Gustav Jung, em 1957

Na metodologia das ciências sociais da virada do XIX para o XX, um debate maior era sobre a compreensão versus a explicação. A "explicação" remete ao positivismo de um Auguste Comte, que queria levar para a sociologia os mesmos padrões de rigor e distanciamento sujeito / objeto que se supunha necessários à física ou  biologia. 
Émile Durkheim, na mesma linha, advogava um naturalismo sintetizado no imperativo de que o sociólogo deve tratar os fatos sociais como "coisas", tão independentes e externas ao nosso capricho subjetivo quanto chover no verão ou florir na primavera.  A introspecção ou empatia de nada valem, na medida em que a verdade do social não está no psicológico nem de mim que pesquiso nem de quem eu pesquiso, há uma "consciência coletiva", há instituições, há uma lógica própria nos fatos sociais.
Já no campo da sociologia "compreensiva", Max Weber à frente, a ideia de "erklaren" (explicação com base em generalizações conceituais e regularidades estatísticas) dava lugar ao princípio de "verstehen", proposta na filosofia por Dilthey: compreender enquanto negociação aproximativa entre significados  sempre subjetivos em jogo na realidade social da qual o próprio observador científico é membro. O cientista social assim está em busca de interpretar outras interpretações, como diria Clifford Geertz. A matéria-prima de suas construções conceituais, sempre parciais porque limitadas a uma perspectiva mutante e relativa, a do sujeito da pesquisa é humana, demasiado humana, para que se sujeite a um saber absoluto como o das fórmulas matemáticas: valores, crenças, motivações, sentimentos dos "objetos", também eles sujeitos de sua própria história.
Se Weber pensa o conceito de compreensão na fronteira entre filosofia e sociologia, Karl Jaspers o faz articulando filosofia e psiquiatria; ele nos legou um princípio "compreensivo" que me parece ir além de escolas doutrinárias, e se colocar como preceito essencial ao olhar de todo médico ou do terapeuta da alma: só pode curar quem pode cuidar. Só pode apaziguar o sofrimento de um ser humano, em campo, ou elucidá-lo, em teoria, o cientista capaz de se comunicar empaticamente, se pôr no lugar do outro, reviver em si os afetos e significados dilacerantes nas condutas as mais bizarras, mas nem por isso absurdas. Foi o que Freud mostrou no trato com suas histéricas, e Bleuler e Jung no tratamento de esquizofrênicos: a loucura faz sentido. E deve ser escutada com atenção compassiva e esforço de deixar emergir o sentido que luta, em espírito de autocura, no delírio. Isso vai muito além, claro, de uma psiquiatria de eletrochoques, camisa-de-força química de sedação, de rótulos arrogantes como "o catatônico do quarto 44", os maníaco-depressivos do terceiro andar, as histórias de caso que descrevem como se tratassem de formigas o fulano que fantasia que vê o pinto do Sol balançando no céu e gerando o vento (exemplo clássico na literatura junguiana, pois o psiquiatra suíço ouviu de um paciente com fantasia desse tipo imagem que depois deparou num antiquíssimo texto mitraico, o que o levou pela primeira vez ao conceito de inconsciente coletivo).
Pela minha experiência junto a uma psiquiatria de tipo lacaniano nos últimos anos, e pelo que sei da antipatia do próprio Lacan contra a ideia de compreensão, saio com a sensação de que é no meu primeiro amor em psicologia, Jung com Nise da Silveira, que devo buscar as matrizes mais ricas de um pensamento da alma avesso à psicopatologização opressiva, castradora da criatividade humana, camisa de força de mera capturação intelectual, retenção e conservação, às vezes para pior,  da tragédia que a natureza e a sociedade acarretam quando produzem num homem o calvário da loucura (não faço da loucura um elogio ingênuo e romântico).
Como em outras esferas sociais, uma revanche conservadora  acomete a psiquiatria, depois dos anos revolucionários em que se dava maior prestígio a um Freud ou a um Laing. Um conservadorismo dessa ordem parece incapaz de escutar com empatia nem as palavras (e imagens) dos sofredores psíquicos, nem as deste manual dos anos 60, imortais anos rebeldes do espírito humano também no campo de batalha da psiquiatria:  
"Seria muito mais fácil se pudéssemos evitar o paciente enquanto exploramos o reino da psicopatologia; seria muito mais simples se pudéssemos nos limitar ao exame da química e da fisiologia de seu cérebro e a tratar os eventos mentais como objetos alheios a nossa experiência imediata, ou como meras variáveis de uma fórmula estatística impessoal. Essas abordagens são muito importantes para a compreensão do comportamento humano, mas não podem abranger ou explicar todos os fatos relevantes. A fim de penetrar na mente de outra pessoa, precisamos repetidamente mergulhar no fluxo de suas associações e sentimentos; precisamos, nós mesmos, ser seu instrumento de ressonância".
John Nemiah,
Foundations of Psychopathology (1961)
-Unzuhause-