Thursday, October 17, 2013

considerações junguianas


Entre os verbos do alemão junguiano, um particularmente interessante é o Betrachten, em seus múltiplos sentidos.
Frente ao que aparece e nos convoca, por mais difícil e doloroso, Jung nos recomenda não contornar, mas ir através. Não tergiversar, mas versejar. Fazer poema do ruído. Não o esquema, mas a atenção plena. Betrachten tem disso: é um "considerar" que se assemelha à palavra "realizar" enquanto dar-se conta do outro, despertar para as incidências do alheio. Em termos clínicos, isso se liga às práticas poemáticas de inscrever, ou desenhar, ou modelar o complexo (unidade básica da psique, como as nações em soma dão um mapa-múndi da política). Complexo é ideia-afeto, que assim transformada pela consideração, já é não mera emoção bruta, não subjuga um ego catatonizado pelas enchentes, mas mobiliza a cidade a ser melhor para incluir a Shiva, aceitar a chuva. 
A consideração implica um ponto de equilíbro (não uma zona de conforto) em que a relação senhor/ escravo (Hegel) é transcendida. Nem o ego é dono do inconsciente, com medicações ou interpretações arbitrárias, autoritárias, meramente imaginárias, nem o inconsciente é tirano nos soterrando. O considerar (Betrachten) se liga assim ao "deixar acontecer" e ao "confrontar" (outros dois verbos essenciais da sintaxe junguiana da alma), embora este segundo e terceiro verbos estejam em aparente contradição, um é pacífico, outro é bélico. Assim como na gravura dos Upanishads, dois pássaros na árvore, um come do galho, o outro não.
Betrachten, porém, também significa engravidar. Trächtig quer dizer "prenhe", no sentido exclusivamente animal. Assim, pode-se dizer que o considerar é concepcional, por assim dizer: ele engravida tanto o "objeto" como o "sujeito" da contemplação, transforma a ambos, algo de vivo e movente surge em um e outro e afeta um ao outro. Numa análise, isso se dá já no nível da relação terapeuta/ paciente. Anna O., primeira paciente da história da psicanálise, fantasiou estar grávida de Breuer. Por outro lado, sinal de monotonia e de ciclo encerrado  é quando já não se nota isso, o "paciente" é passivo, é o mesmo de sempre, e tampouco o terapeuta se aventura junto a engravidar e a engravidar-se da centelha de uma nova experiência e acesso ao mundo. 
Betrachten, por fim, é também um pôr-se à distância. É criação de um espaço, de uma liberdade, no que antes era fusão e confusão maciça de elementos. É como no grego Theôria: contemplação e a ideia que brota da contemplação. Algo impossível sem a distância, sem o frescor de novidade, que vem do se nos desprender do conteúdo inconsciente que antes estava pisoteado ou nos pisoteava. Distância também entre "paciente" e terapeuta, para que as relações se reconfigurem, a consideração vire de fato gravidez e a gravidez, vida nova.
-Unzuhause-