Tuesday, October 29, 2013

Evangelho do dia - perfume de Cristo



Evangelho segundo S. Lucas 13,18-21.

Naquele tempo, disse Jesus: «A que é semelhante o Reino de
Deus e a que posso compará-lo?
É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal. Cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos.»
Disse ainda: «A que posso comparar o Reino de Deus?
É semelhante ao fermento que certa mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar levedada toda a massa.»
Comentário ao Evangelho do dia
São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre os Actos dos Apóstolos, n° 20


Ser o fermento na massa
Haverá coisa mais ridícula que um cristão que não se preocupa com os outros? Não tomes como pretexto a tua pobreza: a viúva que colocou duas moedas na caixa das esmolas do Templo (Mc 12,42) insurgir-se-ia contra ti; assim como Pedro, que dizia ao coxo: «Não tenho ouro nem prata» (Act 3,6); e Paulo, que era tão pobre que muitas vezes passava fome. Não recorras à tua condição social, pois os apóstolos também eram humildes e de baixa condição. Não invoques a tua ignorância, porque eles eram homens iletrados. Mesmo que fosses escravo ou fugitivo, poderias sempre fazer o que depende de ti. Foi o que sucedeu com Onésimo, que é elogiado por Paulo (Flm; Col 4,9). A tua saúde é frágil? Também a de Timóteo o era. Sim, independentemente do que somos, todos podemos ser úteis ao nosso próximo, se quisermos verdadeiramente fazer o que está dentro das nossas possibilidades.

Vês como as árvores da floresta estão vigorosas, belas, elegantes? E no entanto, nos nossos jardins, preferimos árvores de fruto ou oliveiras cobertas de frutos. Belas árvores estéreis […], tal como os homens que apenas têm em conta os seus próprios interesses. […]

Se a levedura não faz levedar a massa, não é verdadeiro fermento. Se um perfume não inebria os que se aproximam, poderemos dizer que é um perfume? Não digas que é impossível exercer boa influência nos outros porque, se és verdadeiramente cristão, é impossível que não aconteça nada; isso faz parte da própria essência do cristão. […] Seria tão contraditório dizer que um cristão não pode ser útil ao seu próximo como negar ao sol a possibilidade de iluminar e aquecer.


Questões para reflexão:
1) Como distinguir o arquétipo (o arcaico que é típico)  altruísta, Jesus Cristo Super-herói, do estereótipo do bonzinho que só se ferra?
2) Como distinguir o arquétipo de cristão do estereótipo de pastores corruptos, padres pedófilos e discursos ineptos contra a vergonha alheia?
3) Dentre as várias metáforas (arquetípicas) escolhidas no texto para ilustrar a lei (material e espiritual) de que o ser de uma coisa é o mesmo que sua efetividade no mundo, vemos o perfume e seu efeito de inebriar. Assim é o cristão e seu efeito de transformar (-se) para melhor. Compare, nesse contexto, com a passagem célebre de São Paulo sobre o "aroma de Cristo":
“… porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão salvos e os que estão perecendo. Para estes somos cheiro de morte, para aqueles, fragrância de vida…”
4) Na floresta de símbolos em que verdeja todo texto místico -que tentamos falar do que transcende toda fala, dificuldade que impõe ao falante, afora a vergonha e certa má-fé do próprio ato de falar, que se demore na multiplicação e desfetichização das palavras-, me ocorre ,para concluir, um simbolismo que experimentei em duas de minhas vivências mais caras, a do teatro e a do cristianismo. Assim como o iniciante em teatro teme o que logo verá ser o menos difícil no seu ofício - "decorar" um texto, esforço superficial ante a verdadeira missão, encarnar o papel-, o admirador de Cristo percebe, com o tempo, a experiência e a graça pessoal, que pertencer a uma agremiação religiosa é o que há de menos decisivo para a sua qualidade de vida cristã. Faz sentido para você? E nesse sentido desimpedido, que desculpas ainda te impedem de ser como a chuva que chove, a mata que cresce, o riacho que corre, o tigre que come, o homem clareira do Ser?
-Unzuhause-