Friday, October 18, 2013

Jung comigo no hospício do mundo


O post anterior era na verdade o início de uma reflexão que vou desenvolver agora. Era uma digressão que, demasiado longa, exigiu para si os holofotes de texto próprio. 
Eu dizia do término de uma análise lacaniana. E tinha em mente um de seus efeitos mais imediatos, a desinibição de minhas intuições psicológicas, que são muito mais íntimas de Jung do que de Lacan. Por aflições mais de ordem psiquiátrica (episódio de pânico e consequente transtorno obsessivo-compulsivo, há sete anos), optei por um médico que também era psicanalista, e da escola que eu frequentava. E desde então o que ganhei em apaziguamento (indispensável, na época), sofri em termos de aprisionamento da energia hidráulica de meus sonhos, e provavelmente também de minhas fantasias mais destrutivas. Não explicitamente, "escutava" de meu analista uma certa satisfação quando eu dizia que meu amor por Jung estava travado, que uma leitura aqui, uma tradução acolá, não conseguiam fluir por conta de minhas aflições em relação à consistência do próprio pensamento do "mestre" (será que ainda era um, para mim?). Acho que isso se encaixava, de alguma forma, na ideia de lacanianos como Jacques-Alain Miller de que a análise nos reduz ao "osso", nos desseca dos fantasmas, para reabrir o caminho da invenção e da responsabilidade, de decisões mutáveis, no que antes era um campo de certezas. Isso é belo, e deve mesmo ter a ver com meu processo.
Nesse ínterim, não por acaso, minha maior produção no universo junguiano foi um ensaio em que interrogo as aflições também psiquiátricas subjacentes ao pensamento psicológico de Jung, cf.  http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=12&ori=autor&letra=L
Uma verdadeira "Noite Escura da Alma", como diria São João da Cruz (apesar de eu suspeitar do uso excessivo dessa ideia, desse verso, pra tudo o que seja situação de tristeza e esterilidade de uma pessoa religiosa). Os velhos símbolos já não conversavam comigo, e com eles haviam partido, e se partido, as condições de pacto da alma com o mundo, do não sentido com o sentido, da beleza de viver com os absurdos da vida.
Mas na própria insatisfação profunda eu sentia que Jung continuava vivo em mim. Na própria esterilidade desértica eu hauria a sede que me impedia de parar. Não me desencantei com ele, mas sim com as limitações da minha própria maneira de ser, que não honra o mito junguiano  quando se utiliza dele para fugir dos deveres da realidade. O mito junguiano é verdade da alma, não crença dogmática sobre o Ser. É o que, quase sem perceber, me levou outro dia ao seguinte comentário no facebook: 
depois que topei com a teoria de que Leonardo da Vinci é o autor e o modelo do Sudário de Turim, lá vem mais essa cacetada :)) mas pra que se afligir (se maravilhar sim!) com o Jesus da arqueologia dos milênios se a nossa própria psicologia conversa com o Cristo do espírito hoje?
Eu me referia a uma notícia sobre teoria nova que circula na praça, de que Cristo foi uma lenda forjada pelos romanos, para sufocar, com um "deus" judeu pacifista, a revolta do povo dos profetas contra a dominação dos césares. 
Na distinção entre a arqueologia dos milênios e a psicologia do agora, entre o Jesus histórico e o Cristo da fé, eu claramente me inspiro em lições junguianas sobre a ilusoriedade e a verdade de todas as nossas images de deus, que não falam hebraico, indiano ou tupi senão porque falam primeiro o esperanto (esse, não forjado, mas prévio a Babel) da natureza humana.
E não só nas minhas opiniões e humores religiosos, mas na atitude mesma para com a vida, é Jung o fio vital, o pai espiritual, a presença xamânica que me dá motivação para a vida. Subjugado pelos sete anos de deserto analítico, não fui roubado da seiva sintética em que meu eu se recompõe e ao mesmo tempo se abre ao que lhe ultrapassa, refratário a qualquer colonização. Ontem, por exemplo, dia horroroso, exteriormente, ao passar pela cidade e ver gente amontoada de pé no metrô, sentada nos carros, nego andando com calça cagada por inteiro, em frente ao cemitério do metrô Clínicas, acidente na dr. Arnaldo com a turma do resgate resgatando a vítima, na USP os grevistas profissionais com sua obra de arte inovadora, as carteiras tiradas da sala de aula amontoadas pelos corredores da FFLCH, muitas delas picoteadas (um aviso dizia que eram "intervenções" sobre carteiras que em boa parte já estavam danificadas antes). A burocracia medonha de meu pedido de bolsa. A minha conversa, no ônibus, com uma senhorinha simpaticíssima, com quem fui comentando esse mundo fora dos gonzos; ela me lembra minha vovó, sobretudo quando diz que os baderneiros pedem isso, exigem aquilo, e "no meu tempo", ou melhor, no dos avós dela, os imigrantes chegavam com uma mão na frente e outra atrás, sem falar patavina da língua local, e literalmente se construíam e a suas casas do monturo e da poeira. E eu lhe explicando minha técnica de me desapegar, me condicionando mentalmente com o pensamento de que estou de visita nessa merda toda, como se em turismo na Índia. 
E a noite se fechando com meu mestre, sim, meu Amado de Kusnacht, vindo me explicar tudo aquilo, ao dizer que, de uma psicologia cientificista nada podemos esperar se queremos entender de alma. Ao contrário, o que precisamos é de outra coisa: "dependuremos no cabide a ciência exata, despeçamo-nos de nosso escritório de estudo e percorramos com um coração humano o horror das prisões, os hospícios, os hospitais; vejamos os arrabaldes, os bordéis, os salões elegantes, a Bolsa, os comícios socialistas, as igrejas, as seitas fanáticas; sintamos em nosso próprio corpo amor, ódio, paixões. Então voltaremos carregados duma sabedoria mais rica do que aquela que nos dariam grossos manuais e poderemos, como conhecedores da alma humana, ajudar os doentes".
Foi isso que eu fiz para que você mesmo não fosse apenas grossos manuais, mas  herança paterna que dissipei como filho pródigo mas que não tinha como desaparecer, amor que é e que me impulsiona de volta para casa, amado mestre (ah, e parabéns atrasados, como em tudo sou atrasado!, pelo dia dos professores).
-Unzuhause-