Saturday, October 19, 2013

Leminski , Cartier-Bresson,o clique e o clinch


"Depois de hoje
a vida não vai mais ser a mesma
a menos que eu insista em me enganar
aliás
depois de ontem 
também foi assim
anteontem
antes
amanhã"
-Paulo Leminski-

No entorpecimento nosso de cada dia, os dias se escoam e nossa eterna procura de "onde está Wally" dá com os burros n' água, e voltamos pra casa sem nada nas mãos, nada nos bolsos, nada no que os antigos tinham o costume de chamar de alma, essa coisa ressequida e fora de moda. Mas não sei, por vezes pressinto que Wally passa por nós, passa muito perto até, e a nossa distração ou covardia é que nos impede de fitá-lo, preferimos então fazer que não vimos e seguimos procurando, procurando, ansiosos por não encontrar. A cada dia, nem que numa fração mínima dele, tivemos tudo para fazer da inquietude visão e tirar as consequências da visão na ruptura da repetição. Não mais aceitar o tudo igual, o mais do mesmo, não mais sucumbir, aquele maldito instante de capitulação em que os ombros amolecem e nós nos entregamos, e sabemos disso, e não fazemos nada para fazer alguma coisa diferente daquilo que dá sempre na mesma merda de resultados, e reclamamos dos resultados mas não do que fazemos e do que deixamos de fazer para produzir os resultados que abraçam a vida com aqueles agarrões de boxeador cansado e  como a sombra que não larga do pé do corpo na luz. 
O Wally que caçamos para não encontrar, isso me relembra o "instante decisivo" que definia para Cartier-Bresson o sentido de fotografar. O clique como ideia luminosa, que captura, ou melhor, liberta da efemeridade distraída em que algo, uma sincronicidade de elementos na composição total do sentido de uma cena,  ocorreu e se dissipou na vida -e toda arte existe porque a vida não basta, disse mestre Ferreira Gullar- mas sobreviverá em imagem.  O clique como irrupção do "acontecimento" arrancado das entranhas que, deixadas a seu automatismo, não produziriam senão ciclos que dão nas fezes da vida sem fé que se esgota para recomeçar amanhã no feitiço do tempo do sempre. O conhecimento que sem ação não passa de boato, mas que amparado como a Sagrada Família em torno do bebê se torna libertação : clique!  Ou o jogo medíocre do jogador nocauteado por sua própria impotência: o clinch... eis o dilema do infinitésimo de cada dia, eis a arena moral em que somos gladiadores contra os leões gordos e cansados de nossa própria realeza inconsciente de si.
-Unzuhause-
PS: 
Sobre o "instante decisivo" em Cartier-Bresson, cf. http://www.fotografelivre.com.br/2013/01/o-instante-decisivo-de-bresson.html
Tudo no universo está em constante agitação. Os quarks, átomos, moléculas, células, ondas de radiação, os seres constituídos de complexos sistemas vivos, os satélites, os planetas e as estrelas. Até mesmo a mais gigantesca das rochas está em continuo movimento. Diante deste aparente caos, em dado momento tudo se alinha e cria uma harmônica e simétrica imagem.

A este momento único, o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson chamou de “O instante decisivo”. Bresson passou a vida correndo atrás deste instante que, para ele, seria a foto perfeita.

A arte de registrar as coisas data de nosso passado mais remoto. Nas cavernas, nós dizíamos como foi o dia, o que caçamos e como caçamos. Já nas idades dos mitos, registrávamos cenas de batalhas heróicas. Na época medieval, a pintura sacra se misturava com os deuses pagãos, relatando nossa fé. Tudo, no entanto, era demasiadamente estático.

Com o advento da fotografia (para saber mais da história clique aqui), os registros passaram a ser muito mais rápidos, mesmo assim, estáticos. Bresson, que antes de celebre fotógrafo estudava artes plásticas, vislumbrou um algo onde ele conseguia paralisar o universo em movimento.

Com a herança da geométrica de seu professor de pintura, o cubista André Lothe, Henri se dedicou a encontrar o momento certo para clicar e este certo seria uma harmonia de retas e curvas incluindo, claro, a figura humana, estatizando, geralmente, momentos de puro movimento.

Está complicado? Não entendeu? Irei explicar. Visualize uma praça onde existam pombos ciscando atrás de comida. Um velho está sentado em um banco prestes a jogar milho as aves. Mas, no local da cena, há um problema que a prefeitura está tentando resolver e que está incomodando os habitantes vizinhos, os cocôs destes animais que infestam e enfeiam os parapeitos das casas. O velho enfia a mão no saco de milho e retira um punhado. Nisso, um homem está passando atrás da cena olha com cara de raiva enquanto o velho estica o braço com força alçando os milhos ao ar. No passo do homem atrás, você clica.

A imagem que captou resume todo o problema além de trazer uma linda composição. O velho com braços esticados jogando o milho, o homem com as pernas em ‘V’ invertido olhando com raiva para o velho e os pombos sendo alimentados. Ou seja, você mostrou o problema e a ira dos moradores em um enquadramento no instante decisivo, paralisando o mundo em pleno curso de suas ações.

“Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, da significância de um acontecimento, bem como de uma organização precisa de formas que dão a esse acontecimento sua expressão adequada”, disse.

Perder este instante é comum, por isso é bom ficar atento, mas como Bresson mesmo falou, “para os fotógrafos, o que passou, passou para sempre”.