terça-feira, outubro 29, 2013

monkey mind, observar e ver


Belíssima a passagem seguinte de um dos clássicos do ciclo Sherlock Holmes. Ela nos fala de duas atitudes dos olhos, ou melhor, da mente, muito exploradas por filósofos em busca do graal da Verdade, e por lógicos, psiquiatras, psicólogos e neurologistas interessados nos modos de operação deste mundo dentro do Mundo, ou mistério reflexo do Mistério, que é o cérebro humano. Por um lado, o pensamento dirigido, que reproduz em seu nexo de imagens, em regras de causa e efeito, de tempo e espaço, as coisas sem ele meramente espalhadas num campo visual aleatório. Por outro lado, o que William James chama de pensamento "meramente empírico", e esse "meramente" me parece exaltar justamente a nobreza, soberania e transcendência do cérebro, como órgão legislador do caos do real. O pensamento meramente empírico, no avesso da atenção, é distração, é passividade, é, na cadência desordenada das coisas, também o sacolejo nauseante de imagens daqui pra cá e de lá pra cá, generalismo superficial,  é a "monkey mind" dos budistas. O mero ver é a leitura de um livro num ônibus lotado de São Paulo tolerando o fedor e a grossura da multidão e rezando pra um black bloc não te escolher para churrasco da consciência revolucionária; o observar seria o atenção nupcial de um Sebastião Salgado às misérias e grandezas da vida nas profundezas do pantanal, nos submundos do capital. É a força de vida que vem da dúvida, do questionamento, do maravilhamento em nada saber e ter a oportunidade de dessaber menos do que tolamente supúnhamos saber.
-Unzuhause-

"-Quando você expõe seu raciocínio -comentou [Watson]-, a coisa toda me parece tão ridiculamente simples que eu poderia com facilidade chegar às mesmas conclusões, ainda que, a cada passo, sinta-me atônito enquanto você não termina de elucidar o processo inteiro. Mas creio que os meus olhos são tão bons quanto os seus.
-De fato- retorquiu [Holmes], acendendo um cigarro e jogando-se na poltrona.- Você vê, mas não observa. É uma distinção evidente. Por exemplo, você já viu os degraus que nos trazem da sala até este cômodo.
-Muitas vezes.
-Quantas?
-Ah, algumas centenas.
-E quantos degraus são?
-Quantos? Não sei.
-Justamente! Você não os observou. E não se pode dizer que não tenha visto. Essa é a questão. Eu, por outro lado, sei que são 17 degraus, porque não só vi como observei".
Arthur Conan Doyle,
Escândalo na Boêmia