sábado, outubro 26, 2013

Resenhas para a Folha de São Paulo, 26/10/13

José Guilherme Merquior (1941-1991)

FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
-Caio Liudvik- 

Gênio crítico
Além de admiração profunda, a trajetória do ensaísta e diplomata José Guilherme Merquior (1941-1991) inspira tristeza e revolta, pela precocidade de sua morte, por câncer. Precocidade que é também de seu gênio, vemos nos livros ora relançados pela editora É Realizações.
"Razão do Poema" (1965) , sua estreia, foi, segundo Luiz Costa Lima, "uma das melhores contribuições para a consolidação do legado modernista, para a afirmação de um poeta pouco estudado, Murilo Mendes, e de um João Cabral, que ainda dividia opiniões". Merquior exalta a "famosa Semana libertadora" de 22 com o mesmo entusiasmo com que desanca a regressão dos poetas da geração de 1945 –esses "bons meninos" que, horrorizados com as  radicalidades de um Mário ou de um Oswald de Andrade, são incapazes "de fazer pipi na cama da literatura", renunciando à maturidade que o modernismo trouxe para a literatura brasileira. Embora surgido nessa época, incluir João Cabral de Melo Neto entre os "iludidos de 45" é inadmissível, afirma o jovem crítico, com autoridade que impressiona também no ensaio sobre a poesia "visionária" de Murilo Mendes, e que deve ter marcado Claude Lévi-Strauss, em sala de aula, escutando seu jovem aluno brasileiro sintetizar as dimensões estéticas do pensamento do pai da antropologia estrutural. Foi num seminário em 1969, do qual derivou "A Estética de Lévi-Strauss". Entre os destaques, o elogio (leitmotiv em todo o percurso de Mequior) do racionalismo ocidental, tão marcante também na intelectualização do pensamento primitivo por Lévi-Strauss, e a relação da arte com a ciência e com o mito.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO; ÓTIMO

Altos papos
Estes são os primeiros títulos da série "Conversas", da Cosac & Naify, que traz entrevistas de artistas latino-americanos com críticos de arte internacionais. Em "Ferreira Gullar Conversa com Ariel Jiménez", um dos maiores poetas brasileiros fala de sua trajetória, principais obras, da renúncia ao marxismo e da polêmica contra os concretistas de São Paulo e seu racionalismo que reprime a intuição criadora. Não é casual a simpatia de Gullar pela psiquiatria revolucionária de Nise da Silveira, que resgatava o valor estético e o potencial curador da pintura e escultura de pacientes esquizofrênicos. 
Já em "Jac Leirner conversa com Adele Nelson", uma das principais artistas contemporâneas comenta seu olhar peculiar para "sobras" da vida cotidiana, como sacolas plásticas, embalagens de cigarro, cartões de visita, ressignificados quando tirados da esfera utilitária.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO; ÓTIMO

DA ÁRVORE AO LABIRINTO
Para Umberto Eco, o evolucionismo biológico, o historicismo e o psicologismo são tendências do século 19 e 20 que deram cada vez mais lugar à semiótica como perspectiva totalizante dos saberes humanos. A ciência dos signos, porém, se insinua, de modos mais ou menos esparsos e "clandestinos", em correntes diversas como o cético Sexto Empírico, os estoicos ou Santo Agostinho, antes da nova sistematicidade introduzida por Saussure, Peirce ou Hjemslev. Em "Da Árvore ao Labirinto", o pensador italiano se devota a estudos históricos sobre as várias teorias do signo e da semiose ao longo dos séculos. Aborda temas díspares como a relação entre dicionários e enciclopédias, o impacto de traduções ruins de Aristóteles na Idade Média, a obsessão escolástica com o valor semiológico do latido do cão, além de polemizar contra o relativismo do conterrâneo Gianni Vattimo.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ESTRELAS ERRANTES
Tão sagrada para um "povo do livro" como o judeu, a memória é celebrada de modo deslumbrante nessa pesquisa de Nachman Falbel sobre a trajetória do teatro ídiche no Brasil, desde a segunda metade do século 20.
"Venham, venham compartilhar conosco, as nossas e vossas fantasias!", é o sussurro poético que Falbel escutou dos ancestrais que se aventuravam naqueles "mundos iluminados" dos palcos, para ali encenarem os mistérios da alma humana e os sonhos e angústias de uma etnia que é central no palco da história desde os tempos bíblicos. 
A paixão de lembrar se traduz aqui em um arsenal de informações sobre atores, peças e trupes, uma massa de dados que, longe de aborrecer, nos entusiasma pela dupla aventura, a do pesquisador –que nos brinda ainda com um lindo acervo iconográfico- e a daquelas "estrelas errantes" a que o título alude: referência ao sistema do "estrelato" (termo hoje com outra conotação) que, à falta de um teatro mais institucionalizado do Brasil na época, se valia sobretudo de atores famosos da Europa e Estados Unidos que eram trazidos por empresários regidos mais pelo lucro que por ideais de refinamento estético das peças.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO