terça-feira, outubro 22, 2013

um frontispício do inconsciente coletivo


"nada tão comum 
que não possa chamá-lo 
meu

nada tão meu
que não possa dizê-lo
nosso

nada tão mole
que não possa dizê-lo
osso

nada tão duro
que não posso dizer
posso"
-Paulo Leminski-

Dante, em sua viagem poética e iniciática pelos três mundos da Terra, viu na porta do inferno a inscrição "Lasciate ogni speranza / voi que entrate", deixai toda esperança ó vós que entrais. A esperança é o avesso da subvida que se arrasta nos infernos. A esperança é a tensão com o futuro, como a memória é a tensão com o passado, e ambas dão a (des)medida do quanto o presente não basta para de-finir a criatura transbordante de criatividade que somos nós.  O presente (tempo) é presente (dádiva) mas não se basta a si mesmo, bastaria se não houvesse desejo, e portanto sonho, eco de traumas, profecia de rimas. Poesia, como a que vejo na entrada do inconsciente coletivo. Aliás, já porque "conceito" o inconsciente, mesmo quando aplicado a um indivíduo, se estende a vários, a todos, não podia senão ser coletivo. Édipo e Narciso, a mãe boa e a mãe má, o orgônio, a linguagem, o Outro habitam todos nós... as múltiplas psicanálises concordam com Jung, sem dizê-lo, quando traçam esboços gerais de conteúdos e estruturas universais que habitam o espírito humano para além do perímetro estabelecido pelas sentinelas de Descartes, Locke, Kant. 
Daí o: nada tão comum que não possa chamá-lo meu, nada tão meu que não possa dizê-lo nosso
Inconsciente como espaço das agruras, rochedos, securas, sangrias. Mas também reservatório de potencialidades que gritam como a criança mais chata: ela quer algo, nem que aprontar pirraça. O inconsciente arteiro em que o pai pressente o inconsciente artista, a criança meiga, amorosa, misteriosa, maior que si mesma. Avenidas para o avenir. Inconsciente osso, inconsciente posso!
-Unzuhause-