segunda-feira, outubro 28, 2013

você já comungou com sua coalhada hoje?


Um homem certa vez procurou um já consagrado dr. Jung, mas dizia não querer se tratar, e sim trocar opiniões ou, menos pretensiosamente, aprender, como  um curioso que era nas coisas da psicologia. Mas, sabedor do amor de Jung pelas fantasias noturnas, leva consigo o seguinte sonho:
 "Estou num quarto de parede nuas, uma enfermeira me recebe. Quer me forçar a beber um frasco de coalhada. Eu queria ir ver o dr. Jung, mas ela me responde que estou num hospital e que o doutor não tem tempo para me receber".
As associações deste sonho revelam que ele já estivera em tratamento por esgotamento nervoso mas ainda muito distante de qualquer restabelecimento. Pretendia abordar Jung como filósofo e psicólogo e assim escamotear sua neurose. O sonho porém obriga-o à franqueza: tem de submeter-se a um tratamento, tem de beber algo repugnante (detestava coalhada), antes de poder conversar com Jung em pé de igualdade.
Acho bonita essa história contada por Jung, por mais que soe a propaganda (meio fora de moda, atualmente) da mentalidade terapêutica, uma espécie de releitura do velho clichê de que fora da Igreja (no caso, do divã) não há salvação. 
A anedota soa tão verídica (portanto tão lendária) como as histórias dos velhos mestres zen, por exemplo aquela em que o discípulo pergunta ao mentor como podia enfim alcançar a iluminação; resposta: você já lavou seus pratos hoje? Este sonho ilustra a própria teoria junguiana do sonho em geral como uma compensação inconsciente para nossas crenças e atitudes de fachada: à pretensão de filósofos, o sonho nos responde com a nossa realidade de neuróticos; à ambição de "devorar" a grandeza de belos pensamentos, o sonho nos recomenda engolir a bebida desagradável de nossas próprias misérias incuradas.
Assim como o cachorrinho que vai ficando parecido com o dono, algum mistério de contágio faz com que os pacientes se pareçam muito -no caso das transferências positivas e de tratamentos de maior durabilidade e fecundidade- com seu terapeuta; as fantasias coincidem, em seu significado e direção,  com os pressupostos mais amplos da terapêutica que se debruça para comentá-las e tratá-las. Os pacientes de Jung são frequentemente "junguianos", o mesmo valendo para um Freud, um Winnicott, um Reich; no sonho em questão, o indivíduo que se recusava a ser paciente traz um sonho que revela algo precioso não só dele, como do próprio Jung: o equívoco de academicizar, escolasticizar, petrificar homens como Jung ou Nietzsche, que reduzidos a nomes de disciplina e programas departamentais parecem tão autênticos quanto um Artaud dissertando professoralmente sobre o teatro após ser submetido uma sessão de lobotomia. Que Jung seja um grande pensador , não há dúvida. Mas é sobretudo um curador, com a humildade dos enviados não para os sãos, mas para os doentes; sei do quanto o cansava a atitude, mais frequente em homens que em mulheres, segundo sua experiência, de ser abordado de maneiras pedantes, que mal escondiam a inveja e o desejo de apropriação. Jung, homem arcaico como o criado por suas teorias do inconsciente coletivo, se sentia bem entre seus irmãos pedra, vento, água e Sol, e entre pessoas que fossem menos "gente" (no sentido da vaidade chata e barulhenta e vazia dos hominhos que ignoram o seu próprio nada, inebriados de um poder que deliram ter) do que símbolos, isto é, hologramas de osso, poço, pele e alma dessas potências cósmicas sem nome nem posses. Para esse esvaziamento de si, verdadeira quênose cristã em que renascemos de nosso monturo como filhos de Deus, nada como comungar com a coalhada nossa de cada dia.
-Unzuhause-