Monday, November 04, 2013

os cegos perdidos pelo tiroteio



Mocinhos e bandidos de enredos simetricamente inversos, inclusive alterando a voz (engrossada como no gravador de pilha fraca para fazer o necessário inimigo soar debilóide) os homens se digladiam por ideias, por plataformas de poder conceituais de seus projetos que latem por cargos, prestígio e poder, babosos uns contra os outros e ao mesmo tempo irmanados e dóceis a uma só e mesma lógica que fecha os punhos em bravatas calculadas e abre mão da intuição direta, que aos cinco sentidos do imediatamente imposto acrescentaria, subversivo, o sexto do (im) possível. Em meio aos tiroteios da certeza faltam os cegos tirésias do perdido ver além e através, mesmo que nada. Num dia como hoje, arrastado e avassalado de uma vontade de estar noutro lugar que nem sequer existe, e que por isso pode ser, me socorro dos versos e versões de vida à deriva de Lao Tsé, o sábio chinês.
-Unzuhause-

TAO TE KING 
-POEMA 20-

Tradução direto do chinês por Mário Bruno Sproviero:

não ao estudo e foi-se a inquietação
"sim" e "pois não" quanto se distinguem?
bem e mal como se distinguem?
o que os homens temem não se pode não temer?
estéril! esse nem sim nem não
A massa efusiva e mais efusiva
como no gozo de um festim sacro
como nos altos a sagrar a primavera
só eu ancorado! nesse ainda sem auspícios...como recém-nascido antes de se acriançar
marionete! sem para onde retornar
a massa tem o supérfluo
só eu sem quê nem para quê
eu... que coração de idiota
oh! confuso e mais confuso
a gente brilha que brilha
só eu ofuscado e aparvalhado
a gente vibra que vibra
só eu melancólico e mais melancólico
plácido! tal qual o mar
ao vento! como sem lugar
a massa tem com quê
só eu obstinado e tosco
mas só eu diferente dos outros
dignificando a mãe nutriente
 (Lao-Tse)

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Tradução do inglês por Luiz Fernando Rodrigues:
"Pare de pensar, e acabe com seus problemas.
Que diferença entre sim e não?
Que diferença entre sucesso e falha?
Você precisa valorizar o que outros valorizam,
evitar o que outros evitam?
Que ridículo! 
Outras pessoas são empolgadas,
como se estivessem em um desfile.
Só eu não me importo,
só eu sou inexpressivo,
como um bebê que ainda não sorri. 
Outras pessoas tem o que querem;
só eu não possuo nada.
Só eu estou à deriva,
como alguém sem lar.
Só eu sou como um idiota, minha mente é tão vazia. 
Outras pessoas são brilhantes;
só eu sou sombrio.
Outras pessoas são espertas;
só eu sou tolo.
Outras pessoas tem um propósito;
só eu não sei.
Eu vago como uma onda no oceano,
Eu vou tão sem direção quanto o vento. 
Eu sou diferente das pessoas ordinárias.
Eu bebo dos seios da Grande Mãe."
 (Lao-Tse)
Tradução de Humberto Rohden com explicação filosófica:

Renunciai à vossa pretensa cultura,
E todos os problemas se resolvem.
Oh! quão pequena parece a diferença
Entre o sim e o não!
Quão exíguo o critério
Entre o bem e o mal!
Como é tolo não respeitar
O que merece ser respeitado de todos!
Ó solidão que me envolve todo!
Todo o mundo vive em prazeres
Como se vida fosse uma festa sem fim,
Como se todos sorrissem em perene primavera!
Somente eu não sei o que farei...
Sou como uma criança que desconhece o sorriso.
Sou como um foragido
Sem pátria nem lar...
Todos vivem na abundância,
Somente eu não tenho nada....
Sou um ingênuo, um tolo...
É mesmo para desesperar...
Alegres e sorridentes andam os outros!
Deprimido e acabrunhando ando eu...
Circunspectos são eles, cheios de iniciativa!
Em mim, tudo jaz morto.
Inquieto, como as ondas do mar;
Assim ando eu pelo mundo...
A vida me lança de cá para lá,
Como se eu fosse uma folha seca...
A vida dos outros tem um sentido,
Eu não tenho uma razão de ser...
Somente a minha vida parece vazia e inútil;
Somente eu sou diferente de todos os outros -

E no entanto - sossega meu coração!
Tu vives no seio da mãe do Universo.
 (Lao-Tse)


Explicação Filosófica:

 À primeira visa parece estranho esse pessimismo do autor, esse lúgubre desânimo da vida, que lembra os lamentos de Jó. Mas não convém esquecer que todo o homem que deixou a sociedade dos profanos tem, de início, a sensação de uma solidão imensa, de um saara sem oásis; sente-se exilado sem pátria sem lar. O homem espiritual se sente desambientado aqui na terra; ninguém o compreende; todos o consideram como um estranho, não pertence ao nosso mundo. O próprio Jesus passou por estes transes:"As raposas têm suas cavernas, as aves têm seus ninhos - o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". E a seus discípulos diz ele:"Por causa de mim e do Evangelho sereis odiados de todos..."."Bem-aventurados os que choram..."
Ao descer de Tambor, ele exclama: "Ó geração perversa e sem fé! Ate quando estarei convosco?
Ate quando vos suportarei?"...
Mas essa aparente solidão e abandono do homem espiritual é a "Comunhão dos Santos", a mais bela do Universo, como Lao-Tsé lembra nas últimas linhas. É o total abandono de Jó - que estava na companhia de Deus, no coração do Universo. Abandonado se sente o ego - bem amparado está sempre o Eu. "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?...Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito."