quarta-feira, novembro 20, 2013

era uma vez -a maçã e a pedra


Era uma vez um rei que era visitado todo dia, na sala de audiências, por um mágico que lhe entrega uma linda maçã. Distraído, o rei a entrega ao ajudante de ordens, que por sua vez manda jogá-la num quarto distante. Assim se fez durante um ano inteiro, até que um dia o macaco da rainha, que conseguira se soltar, pula dentro da sala de audiências, pega a maçã e a morde. Quando faz isto todos vêem, admirados, que esta maçã contém dentro d si uma pedra preciosa belíssima. Aí o rei, naturalmente, investiga às pressas o lugar onde estavam as outras maçãs. E, de fato, encontra-se debaixo da polpa adormecida das frutas um monte de pedras preciosas de grande valor, cujo número corresponde exatamente ao dos dias do ano. 
Esse conto de fadas indiano me parece uma ilustração preciosa -como o tesouro escondido nas maçãs- do quanto, por negligência, podemos desperdiçar os presentes mágicos que a vida cotidiana pode nos oferece, na sua humildade, na despretensão das grandes datas e expectativas. O quanto o tempo pode ser transfigurado, no dia após dia da totalidade de um ano (os 365 dias simbólicos de nossos ciclos), quando de repente nos apercebemos que no monturo do esquecido, no dejeto das coisas desprezadas, dos lados de nossa personalidade e de nossa história que mal conseguimos encarar de frente, havia ali algo, um presente, para o qual não tínhamos dado o presente de nossa atenção plena. Chega um dia, talvez uma grande necessidade ou aflição, o macaco que se libertou da jaula,  que vem bagunçar o coreto e revelar a verdade que liberta -conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. O macaco, na simbologia tibetana, é muito utilizado para ilustrar nossa consciência em ziguezague, titubeante de lá para cá, de galho em galho. Mas, em aparente contradição, remete à leveza da consciência espontânea, à fantasia, ao desprendimento, ao que tem desdém pela pseudo-sabedoria dos homens. O macaco, no conto, é o psicopompo, animal prestativo e figura guia, que nos indica que precisamos reabrir a porta escondida, limpar a sujeira e recolher o tesouro que esperava por nós no aparentemente podre, inútil e morto. 
-Unzuhause-