sexta-feira, novembro 01, 2013

lavar a roupa suja na casa da força da vontade


Deliciosa sob todos os aspectos, a autobiografia de Jung surpreende também num trecho em que flerta com o que hoje chamaríamos de terapia cognitivo-comportamental de transtornos de ansiedade. A "TCC", criada nos anos 60 por Aaron Beck, de formação freudiana mas farto das insuficiências e ineficiências da psicanálise, tem entre seus preceitos a ênfase no comportamento concreto, e em suas crenças subjacentes, como instância decisiva para o bem-estar ou não da pessoa. Isso, por consequência, leva o clínico a estratégias práticas de cura que não a mera "livre-associação" ou "interpretação dos sonhos". Por exemplo, no caso de estresses pós-traumáticos, a exposição do paciente a situações que reproduzem, com risco calculado, e energia despotencializada, o episódio que engendrou a neurose.  
Na esteira da escola francesa de psiquiatria (Janet, Binet), Jung entendia a neurose como uma dissociação mental, em que uma ou mais cadeia de representações ideo-afetivas simplesmente se soerguem em revolta contra a hierarquia imposta até então pela consciência dominante, que responde por nossa adaptação ao mundo. Ideo-afetivo, aqui, é um adjetivo composto que assinala o quanto, nos chamados "complexos" (termo consagrado por Jung, depois popularizado no senso comum) cognição e emoção são indissociáveis nas assim chamadas ideias que a mente produz do magma da experiência sensorial. 
Jung é um dos maiores mestres da psicologia profunda, a "Tiefenpsychologie", que enfatiza o determinismo do inconsciente sobre o conjunto do funcionamento mental. Daí que interpretação dos sonhos e fantasias, investigação do discurso etc sejam estratégias fundamentais para todo junguiano. Mas aquele que agradecia a Deus por ser Jung, e não mais um "junguiano", podia se permitir transgressões como tratar a si próprio por medidas que hoje soam estranhíssimas a um público psicanalítico tão hostil aos "simplismos" e "manipulações" dos terapeutas cognitivo-comportamentais. Vejamos.
Nas Memórias, Sonhos, Reflexões, ele relata um acontecimento de seus 12 anos de idade, que seria, diz ele, "o marco" de sua vida (apesar de essa expressão ser recorrente no seu relato, inclusive no caso de eventos impalpáveis como determinados sonhos).
No princípio do verão de 1887, depois das aulas, por volta do meio-dia, estava na praça da catedral, à espera de um colega que normalmente voltava com ele pelo mesmo caminho. De repente, um menino lhe dá um soco, ele cai, bate a cabeça na sarjeta, fica tonto por uma meia-hora. No momento da pancada um pensamento lhe assalta como um raio: "Agora você não precisa mais ir à escola'. Foi levado combalido para uma casa próxima, de duas velhas tias solteiras.
A partir desse momento sofria uma síncope, cada vez que se tratava da necessidade de voltar ao colégio, ou quando os pais lhe mandavam fazer o trabalho escolar. Faltou por mais de seis meses à escola, gozando as delícias de seus devaneios em desenho -era dado a cenas de guerra, incêndio de velhos castelos, caricaturas assustadoras- e de sonhar em liberdade, por horas prolongadas, à beira d' água, na floresta. "Melhor do que tudo, porém, era o mergulhar completamente no mundo do mistério: a ele pertenciam as árvores, a água, os pântanos, as pedras, os animais e a biblioteca de meu pai; Era maravilhoso. Entretanto, eu me afastava cada vez mais do mundo, com um leve sentimento de má consciência. Consumia meu tempo flanando, lendo, colecionando e brincando. Mas nem por isso era feliz; pelo contrário, tinha como que a obscura consciência de fugir de mim mesmo".
A preocupação em torno dele só crescia. E certo dia, o menino Carl, às escondidas, flagra o pai comentando com um amigo a situação: "Ah, é uma história penosa! Os médicos ignoram o que ele tem. Falam em epilepsia: seria terrível se fosse incurável! Perdi o pouco que tinha e o que será dele se for incapaz de ganhar a vida?"
Jung chamou de "raio" o pensamento que lhe ocorreu na hora da agressão do menino, e usa a mesma palavra agora. O choque, agora, vinha do duro embate com a realidade, não sem o sentimento da vergonha e da inferioridade. Que concorreram, aqui, para que ele saísse do torpor. Retirou-se cautelosamente, foi à biblioteca paterna, tomou uma gramática latina desafiando-se a estudá-la com plena atenção. Passou por três crises desmaio sucessivas, mas sempre voltando à luta. Começou enfim a superar o mal-estar, os acessos pararam, a concentração pôde se dilatar, ele voltou aos seus cadernos de estudo e, algumas semanas depois, ao colégio. "O sortilégio fora conjurado! Foi assim que fiquei sabendo o que é uma neurose".
Sortilégio é magia, remete à maneira "primitiva" que é peculiar a Jung de pensar os fenômenos da alma humana, modernamente chamados de histeria, neurose, psicose etc, mas já conhecidos anteriormente por outros termos, talvez mais realistas, como possessão pelo diabo. Neurose é, como dizíamos, a dissociação incapacitante, que produz um aleijamento psíquico em que o sujeito regride, se degrada, foge da realidade. E a "cura" pode  estar na velha e boa força de vontade, no mais que arcaico passar um bom punhado de roupa suja lá em casa, como diz jocosamente mamãe, ao invés da caríssima frescura e conversa fiada de  muitos de nossos terapeutas -ontem uma delas, adoro procurá-las de tempos em temos com minha sanha rodrigueana de voltar a ter uma professorinha sexy-  me recomendava procurar alguém de serviços assistenciais de faculdades de psicologia, com preços "mais modestos", para tratar de minhas angústias, inclusive essa do dinheiro...
-Unzuhause-