Monday, November 25, 2013

o sintoma facebook





"Um viciado em facebook me confessou - não confessou, mas de fato gabou-se - que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi: eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso!


Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo', e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa, são coisas diferentes. Quando eu era jovem, eu não tinha o conceito de redes, eu tinha o conceito de laços humanos, comunidades... esse tipo de coisa, mas não de redes.
Qual a diferença entre comunidade e rede? 
A comunidade precede você. Você nasce em uma comunidade. De outro lado temos a rede, o que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar.
Eu penso que a atratividade desse novo tipo de amizade, o tipo de amizade de facebook, como eu a chamo, está exatamente aí: que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar e fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. 
Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões reais, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Assim, romper relações é sempre um evento muito traumático, você tem que encontrar desculpas, tem que se explicar, tem que mentir com frequência, e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não têm direitos, que você é sujo etc., é difícil. 
Na internet é tão fácil, você só pressiona "delete" e pronto, em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos."

-ZYGMUNT BAUMAN, conferência para o ciclo "Fronteiras do Pensamento", 2011-



"O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros. Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme. O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério. Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido."
-C. G. JUNG, Civilização em Transição-

"(...) A terceira espécie de coragem é o oposto da apatia descrita acima, a que chamo coragem social. É a coragem de se relacionar com os outros seres humanos, a capacidade de arriscar o próprio eu, na esperança de atingir uma intimidade significativa. É a coragem de investir o eu, por certo tempo, num relacionamento que exigirá uma entrega cada vez maior.A intimidade requer coragem porque o risco é inevitável. Não é possívelsaber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá,transformando-se, em auto-realização, ou nos destruirá? A única coisa certa éque, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos.Uma atitude comum nos nossos dias consiste em fugir à responsabilidadede estruturar a coragem necessária para um relacionamento autêntico,deslocando o centro da questão para o corpo, transformando-o num caso decoragem física. Em nossa sociedade, é mais fácil desnudar o corpo do que a menteou o espírito; mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos,aspirações e temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos tornamais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o querealmente importa. E, assim, as pessoas isolam o edifício mais "perigoso" de umrelacionamento, indo imediatamente para a cama. Afinal de contas, o corpo é umobjeto e pode ser tratado como tal.Mas, a intimidade que começa a nível físico, e aí permanece, deixa de serautêntica, e em pouco tempo estamos procurando fugir ao vazio. A coragem social autêntica requer intimidade simultânea nos vários níveis da personalidade.Só assim é possível vencer a alienação do indivíduo. Fazer novos conhecimentosprovoca sempre alguma ansiedade, aliada ao prazer da expectativa, e à medidaque o relacionamento se aprofunda cada descoberta é marcada por novo prazer epor uma nova ansiedade. Cada encontro pode ser o precursor de algo novo em  nosso destino, bem como um estímulo na direção do prazer excitante derealmente conhecer alguém.
-ROLLO MAY, A Coragem de Criar-