Saturday, November 30, 2013

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 30/11/2013


LAURA BELÉM
A artista plástica Laura Belém declara, em seu site pessoal, que uma "poética da presença e da ausência" tem sido fio condutor de sua obra. O livro que ora é lançado, fazendo um retrospectiva de seu riquíssimo percurso, com exposições mundo afora, mostra bem essa característica ambivalente. Vide uma das obras ali destacadas, "Naufrágio", originalmente um vídeo em que o desenho de uma caravela derrete, aos golpes implacáveis de singelos pingos d' água,  e se torna um poço de cor indiferenciado. A referência imediata, segundo o crítico  Lorenzo Fusi, é à conquista colonial da América. Mas é claro –na medida de tradução que uma imagem permita à razão discursiva- que a obra se derrama em símbolo de todas as nossas finitudes, náufragos que somos da existência neste samsara. Os jogos da sedução romântica, nosso lugar na natureza, a mercantilização da arte, a busca do espiritual são outros tantos temas de meditação e de experiência para o leitor / espectador.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


A MENINA DO FIO
Na leitura psicológica de Marie Louise Voz Franz (maior discípula de Jung), os contos de fada têm um motivo temático recorrente, o de "redenção", que consiste na superação de uma condição de enfeitiçamento semelhante ao de nossas modernas neuroses. Um dos exemplos destacados pela analista é o da princesa forçada a matar todos os seus apaixonados, até conseguir se livrar da maldição que a forçava a esse baixo nível de conduta e de metabolismo de energias.
Essa é uma chave explicativa que funciona à perfeição para o conto de fadas moderno de "A Menina do Fio", infanto-juvenil de Stela Barbieri e Fernando Vilela. O fio, símbolo do destino (as Parcas), da conexão com o Princípio via travessia dos labirintos do mundo (Ariadne), é a maldição que brota, inexplicável e incômoda, da cabeça de uma linda princesa, a enrosca em tudo, a impõe dor e mau humor, até que surge um "Teseu", músico como Orfeu, para descer aos infernos e libertá-la para o amor e a capacidade de se tornar tecelã de si mesma, com a matéria-prima de sua até então desajeitada singularidade.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

ENTRE A LITERATURA E A HISTÓRIA
A dicotomia que dá nome a essa coletânea de Alfredo Bosi sintetiza a tensão que orientou e desafiou a geração de estudiosos de Letras dos anos 1960: por um lado, a lógica interna da obra literária, conforme exigido pelos mestres do estruturalismo francês e do formalismo russo; por outro lado, o imperativo ético trazido então pelo marxismo, e que se fundava no reconhecimento da inevitável inserção da arte,  e do intelectual que a comenta, num contexto histórico marcado por injustiças, opressão e distorções derivadas da desigualdade de classes e da ideologia.
Se a pós-modernidade traz uma crise de prestígio (que muitos confundem com uma suposta "refutação", improvável no âmbito das ciências humanas) para estruturalistas e marxistas, nem por isso reflexões da envergadura de um Bosi ficam desatualizadas. Temos aqui cerca de 40 textos do professor de Literatura brasileira da USP, que vão do saboroso memorialismo a insights preciosos sobre autores como Machado de Assis, Leopardi (mestre pessimista que influenciou o autor de "Brás Cubas"), Otto Maria Carpeaux e Celso Furtado.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


KARDEC – A BIOGRAFIA 
Marcel Souto Maior, embora também autor do best seller "As Vidas de Chico Xavier", não se define como espírita. Isso confere a este livro-reportagem sobre o fundador do kardecismo um distanciamento "laico" elogiável, embora o sobrenatural das mesas giratórias e fenômenos mediúnicos seja, ao longo da narrativa, pressuposto sem maior contraponto ou suspeição. 
Tampouco é crível que qualquer estudo isolado possa abranger uma trajetória complexa como a de Allan Kardec (1804-1869) a ponto de se arrogar o subtítulo que tem, de "a biografia". 
Ainda assim, o livro, informativo e de leitura fluida e envolvente, é uma boa introdução à vida e pensamento do até então discípulo de Pestalozzi, e autor de sóbrios livros de pedagogia que eram adotados em escolas e universidades da França da época. 
Premido pela curiosidade sobre o além e dificuldades no mundo material, ele passou pelo seu "caminho de Damasco" de abandono da incredulidade e conversão a uma doutrina que vê na existência entre terrícolas (saboroso termo de um espírito célebre dos meios kardecistas, Ramatís)  a escola penosa, reencarnação após reencarnação, de nossa evolução, termo-chave do século de Darwin ao qual o gênio religioso da humanidade precisava engendrar uma réplica.

AVALIAÇÃO – BOM

FILÓSOFOS DA CONSCIÊNCIA
 Eugene Webb dedica o presente livro a rastrear o conceito de "consciência" em filósofos como Eric Voeglin (a quem já dedicou monografias específicas), Paul Ricouer, René Girard e Kierkegaard –deixa o grande existencialista dinamarquês para o fim, em ordem propositadamente não cronológica. 
O professor de literatura comparada da Universidade de Washington é autor também de "A Pomba Escura", estudo sobre as tensões entre o sagrado e o secular na literatura moderna, e de certo modo se mantém nesse mesmo campo intelectual ambivalente, ao discutir aqui pensadores que, por mais diversos entre si, têm em comum o forte diálogo intelectual com o cristianismo e suas jazidas possíveis de significação transcendente para um mundo secular dominado pelo primado, desde Descartes, da consciência subjetiva enquanto instância da verdade.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


O FUTURO NÃO É MAIS O QUE ERA
A incrível fecundidade de citações de Paul Valéry no meio acadêmico marca presença, de novo, nesta coletânea de ensaios organizada por Adauto Novaes. Vem de Valéry o mote para filósofos e ensaístas meditarem a mutação da imagem de futuro em nossa atualidade marcada pela crise das utopias, imediatismo, triunfo da tecnociência e uma "correria" incorporada no vocabulário do senso comum mas que  parece não levar a lugar nenhum. Franklin Leopoldo e Silva comenta a angústia da temporalidade na tradição filosófica, e sua crítica em Bergson; Vladimir Safatle relê a denúncia nietzschiana da consciência histórica, marco da recusa pós-moderna das grandes narrativas e, pois, do futuro como reconciliação de tipo hegeliano e marxista do racional e do real; Fréderic Gros aponta o anseio de abolição do futuro em Epicuro, no milenarismo cristão e na atual era de "internet dos objetos" em autorregulação perpétua.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO