sexta-feira, novembro 29, 2013

Russell no trem mìstico de Henri Bergson


Não, não vou bater na tecla arquibatida de que fulano que fala de sicrano nos revela mais de fulano que do sicrano. Ok, ja bati... Mas um grande filosofo que se ponha a comentar outro, ou a historia da filosofia em geral, repete exatamente esse esquema clichê, claro que na escala monumental do embate dos genios, dos santos (daimones) que se batem ou nao. O santo de Bertrand Russell gostaria è de surrar o de autores como Bergson. E o faz, na Historia da Filosofia Ocidental, quando no amplo capitulo sobre o filosofo frances se locupleta em gracinhas como observar que, para Bergson, `o intelecto è o infortunio do homem, enquanto que o instinto è encontrado em sua melhor forma nas formigas, nas abelhas e em Bergson`.  A ironia prossegue em passagens como: `O relato das acoes do intelecto nem sempre è facil de seguir, mas se quisermos entender Bergson, temos de fazer o possivel nesse sentido`. Uma diferenca duzentas vezes maior que o canal da Mancha separa o frio racionalismo do logico britanico (nao sem, como vemos, tiradas humoristicas tao sutis quanto mordazes) do filosofo que, sem escrever ficcao, foi um dos grandes `dramaturgos` dos conflitos do espirito afundado na materia, em estagios evolutivos de crescente desprendimento e reencontro, na senda mistica da intuicao, do que o intelectualismo materialista, pragmatico, tira de nòs. E desse conflito, paradoxalmente, Russell nos dà imagens que surpreendem pela beleza, por exemplo quando compara o universo bergsoniano a `um cone com o Absoluto  no vertice, pois o movimento ascendente da mente junta as coisas, enquanto que o movimento descendente as separa ou, pelo menos, parece fazê lo`. Parece, no caso, pois nao se trata senao do velho vèu de Maia dos indianos, ilusao interposta entre o espirito e a materia por um intelecto que, longe de mero fardo nefasto e inutil, nasceu para nos proteger e nos ajudar a prevalecer contra os rigores da existencia no estagio material, mas que nos leva a erro quando se imagina a unica forma de acesso à realidade. E, logo adiante, Russell recorre a outra bela metafora para ilustrar o que diz seu adversario intelectual (saudades do tempo em que, nas polemicas, o adversario nao renunciava à elegancia e a admitir beleza na posicao antagonica). O universo, para Bergson, seria como que `um vasto trem funicular, em que a vida è o trem que sobe, e a materia o trem que desce. O intelecto consiste em observar o trem que desce quando este passa pelo trem em que estamos. A faculdade evidentemente mais nobre que concentra sua atencao sobre o nosso proprio trem è o instinto ou a intuicao <que para Bergson è o instinto em sua forma superior, voz da natureza reencontrada ja em condicoes novas propiciadas pelo cultivo da racionalidade (Unzuhause)> È possivel saltar de um trem para outro; isto acontece quando nos tornamos vìtimas de um habito automatico, e è a essencia do còsmico <o mundo pelas lentes `mundanas`tao denunciadas pela tradicao moralista francesa desde Montaigne, Pascal, Chamfort, ate Sartre e Camus, passando, claro, por Bergson (Unzuhause)>. Ou podemos dividir nos em partes <embora metaforas espacializantes nao fossem muito do agrado de um filosofo como Bergson, para quem a vida è essencialmente tempo, sendo o espaco a dimensão ilusòria de nossas alienacões e dispersoes num plano de ser e de conhecer inferior (Unzuhause)>, uma que sobe e outra que desce; entao, so a parte que desce è cosmica. Mas o intelecto nao è um movimento descendente, mas simplesmente uma observacao do movimento descendente pelo movimento ascendente`.
Bergson, je t`aime!!
*Unzuhause*