Friday, November 29, 2013

Sêneca, a aguia e a âncora


Em preparativos de artigo sobre Jung para o pos doutorado, tenho visto com ele o problema da emergencia da mensagem cristã no contexto da decadencia civica e depravacao moral generalizada dos estertores do mundo antigo. E em Sìmbolos da Transformacao, paragrafo 103, deparo com um trecho de Sêneca que depois fui buscar nas minhas fontes e reproduzo mais extensamente a seguir. 
Vemos, na primeira parte do texto, o movimento de interiorizacao da consciencia etico-religiosa, a critica do ritualismo, da observancia meramente exterior e formal de obrigacoes, de uma ideia de sacrificio que vitimava animais, que traficava bens economicos, mas que nao depunham a propria alma na pira dos calores de renuncia ao pequeno eu, caminho para a união (`yoga`, termo etimologicamente proximo a `jugo`, como o jugo suave de que fala Mt 11, 28s) com o deus interno e o livramento para fora das potencias irracionais do destino, do acaso; dialetica de virtude e fortuna que no Renascimento seria repensada por Maquiavel.
A `Era Axial`(termo cunhado pelo filosofo Karl Jaspers, expoente de um existencialismo que de certo modo reatualiza em termos modernos essa ruptura com sistemas externos e enfase no altar do coracao) vai abalar os pilares desses esquemas acomodaticios, vai exigir uma religiosidade mais profunda, chamamento que ecoa das Upanishades hindus a Lao Tse, de Buda aos grandes profetas judeus ate a vinda do Cristo, e que tem no estoicismo uma variante que Luc Ferry destaca entre as principais expressoes de uma soteriologia (soter: salvacão) profana, basicamente racional e independente de crencas alem-mundo.
No segundo trecho que destacamos, ainda na carta 41 a Lucilio, Seneca està trazendo para o terreno etico uma discussao do sentimento religioso que linhas atras ele associava a nosso assombro ante as potencias da natureza. 
 `Se penetrares num bosque cheio de velhas àrvores, de altura fora do comum e tais que a densidade dos ramos entrelacados uns nos outros oculta a vista do ceu, a propria grandeza do arvoredo, a solidao do lugar, a visao magnifica dessa sombra tao densa e continua no meio da planura, tudo te fara sentir a presenca divina`. Mesma aura de `religioso misterio`que sera entao  associada ao homem de virtude (convem lembrar o sentido dinâmico, mais que o obviamente moral, de virtude enquanto dynamis, força, poder). 
Em tempos `puxados`, para dizer o minimo, como os nossos, precisamos de um resgate do amor ecologico e religioso nao so pelas florestas, animais (daì a beleza que confesso me comover em gestos como o salvamento estilo black bloc dos caezinhos semanas atras), pelas montanhas, pela majestosidade delicada das coisas da vida, mas tambem pela ecologia interna que favorece e desemboca na potencia e na alegria das virtudes, estrelas do firmamento propriamente humano em que resplandece a gloria do Criador na noite escura de um mundo material corrupto e vil como os corpos miseraveis em que estamos encerrados, para repugnância de Sêneca. 
Essa è uma das maneiras de dar nome à `transformacao` axial, para combinar os termos de Jaspers e de Jung (ambos, alias, pensadores psiquiatras de formacao, mas convertidos a um olhar curador outro para os sofrimentos da alma), de que me parece prenhe a civilizacao moderna em suas dores torturantes e enormes potencialidades, aguias com asas abertas mas patinhas desesperadamente (ao menos pra mim) presas a âncora de chumbo, como vi outro dia num rapaz ao lado no inferno do um dia de metrô lotado.
-Unzuhause-


``È uma empresa excelente e salutar a tua, se de fato, conforme me escreve, continuas a avançar rumo à sabedoria, a essa sabedoria que, por estar ao teu alcance obtê-la, seria estupidez ir suplicar aos templos. Nao è preciso elevar as maos ao cèu nem pedir ao ministro do culto que nos deixe formular votos ao ouvido da estatua do deus, como se assim nos fosse mais facil sermos atendidos: a divindade esta perto de ti, esta contigo, esta dentro de ti! È verdade, Lucilio, dentro de nòs reside um espìrito divino que observa e rege os nossos atos, bons e maus; e conforme for por nòs tratado assim ele proprio nos trata. Sem a divindade ninguem pode ser um homem de bem; ou serà que alguem pode elevar-se acima da fortuna sem auxilio divino? As decisões grandiosas e justas, è a divindade que as inspira. Em todo homem de bem,

qual seja o deus, ignora -se, mas existe um deus!
(...)
Se vires um homem intrèpido no meio do perigo, insensivel aos desejos vulgares, feliz no meio da adversidade, tranquilo em plena tempestade, contemplando os outros homens do alto, olhando os deuses de igual para igual: acaso nao sentiras por um tal homem uma onda de veneracão? Não diras: Hà aqui algo de superior, de demasiado elevado para poder considerar -se equivalente ao miseràvel corpo em que esta encerrado? Sobre este homem desceu  uma força divina; a sua alma sublime, com perfeito dominio sobre si, que passa pelas coisas sem descer ao seu nìvel, que se ri dos temores e dos desejos vulgares, è uma alma movida por uma energia celeste. Uma alma desta natureza nao pode perdurar sem auxilio divino; e por isso mesmo pertence, pela sua parte mais sublime, ao lugar donde proveio. Os raios do sol atingem, è certo, a terra, mas estao no lugar de onde emanam; do mesmo modo essa alma excelsa e divina, descida ate nòs para nos fazer conhecer mais de perto a divindade, embora estando na nossa companhia, mantèm-se ligada a suas origens. Emanaçao celeste, è para o ceu que olha e se dirige, e està entre nòs sabendo que na realidade paira acima de nòs. O que caracteriza esta alma? O fato de nao brilhar senao graças aos seus bens proprios. Que hà de mais estulto do que admirar num homem aquilo que lhe è exterior? Onde hà maior loucura do que na admiração  por coisas que, de um momento para outro, podem mudar de proprietàrio? (...) Ninguem deve vangloriar - se do que nao lhe pertence. (...) aquilo que lhe è peculiar (...) que se não lhe pode tirar, nem dar, aquilo que è especifico do homem. Queres saber o que è? È a alma, e, na alma, uma razao perfeita (ratio perfecta: a razao levada ao maximo de suas potencialidades, identificando -se com a `virtude` ; by Unzuhause) . (...) A razao nao exige mais do homem do que esta coisa facilima: viver segundo sua propria natureza! O que torna esse objetivo dificil de atingir è a loucura generalizada que nos leva a empurrar -nos uns aos outros na direcão do vicio. E como reconduzir ao caminho da salvaçao homens a quem ninguem consegue deter, e a quem o vulgo ainda mais acicata?`
SÊNECA
Cartas a Lucilio (n. 41)