domingo, novembro 24, 2013

Super-Homem, 75 anos de uma lenda eterna


A Fnac da Paulista, a  gostosa Fnac, cada vez mais vantajosa em comparação ao formigueiro barulhento e rude das gentes girando em torno, como na brincadeira, das mesas do café da Cultura, a Fnac, eu dizia, abriga esses dias uma exposição de desenhos em  homenagem aos 75 anos de Super-Homem. 
Tendo em Christopher Reeve -e na sensacional música-tema dos filmes estrelados pelo trágico galã- talvez seu avatar definitivo, e não só nas fronteiras do cinema, o Super-homem é, também ele, avatar de uma história de longuíssima duração, a de nossas projeções messiânicas da libido (digo em termos junguianos, energia psíquica em geral) em figuras redentoras, imagens de poder, liberdade e nobreza moral acima das misérias de nosso mundo banal e massificado (os super-heróis são deuses para as nossas cidades inchadas e sempre à beira de colapsos e sob as botas de fascínoras e corruptos). Uma história que rima de Gilgamesh ao Übermensch, termo nietzschiano que quer dizer aproximadamente isso, "super-homem", por mais torçam seus sofisticados narizes os eruditos comentadores tesistas que preferem falar em "além-do-homem" ou soluções parecidas que respeitem a liturgia da opacidade acadêmica. 
Criado por dois jovens cartunistas de Cleveland, Jerome Siegel e Joseph Shuster, o Super-Homem estreia em Action Comics nº 1, de 1938. Tem aparecido desde então em milhares de revistas, tiras em quadrinhos, filmes, shows de rádios, desenhos animados para a TV, brinquedos, jogos e lembrancinhas 'suficientes para fazer uma reta da Terra à Lua", segundo Christopher Knowes em "Nossos Deuses São Super-Herois" (ed. Cultrix). 
Mas nada assegurava, no princípio, esse sucesso estrondoso. Siegel criou-o muitos anos antes de sua estreia nos quadrinhos, mas não teve sorte a princípio, vendo o personagem ser rejeitado várias vezes porque "fantástico demais".
Finalmente, o editor da DC, Harry Donenfeld, comprou o personagem por 200 dólares e ele se tornou um sucesso imediato, inspirando milhares de imitadores. "De várias maneiras, podemos dizer que todo super-herói de revistas em quadrinhos surgido posteriormente é, na verdade, uma variação do Super-Homem", prossegue Knowles.

O Super-Homem é Kal-El, último filho de Krypton, enviado ao espaço quando bebê por seu pai, um cientista, pouco antes de seu planeta explodir. Sua cápsula espacial aterrissa na cidade de Smallville, no Meio-Oeste dos EUA. Ele é encontrado por um casal de idosos, os Kent, que dão ao bebê o nome de Clark e o adotam. Clark, que desde o início mostras uma força prodigiosa, sai d Smallville e vai para Metrópolis, onde trabalha como repórter para "O Planeta Diário". Em momentos de crise, veste seu uniforme azul e vermelho e usa seus superpoderes -voo, força descomunal, visão de raio X- para lutar pela verdade e pela justiça.
O Super-homem, nisso diferindo do paganismo ético do Übermensch nietzschiano, é um messias da mais pura cepa bíblica. Seus aspectos crísticos são evidentes, como homem enviado do céu por seu pai para usar seus poderes especiais pelo bem da humanidade. Não por acaso a revista satírica National Lamoon desenvolveu uma tira chamada "Son O' God" (Filho de Deus) que parodiava Jesus como herói semelhante ao Super-Homem, com capa vermelha e desenhos do astro da DC Comics Neal Adams (vide acima). Na onda da "morte do Super-Homem", no início dos anos 90, a capa de uma graphic novel  evocava, nessa mesma direção, a Pietà de Michelangelo, com Lois Lane no papel da Virgem Maria. 

Parecia de fato, no vaivém volátil das vendagens em banca de revista, que super-heróis desse gênero estavam com os dias contados. Só parecia. "Os acontecimentos de 11/9 evocaram a necessidade, profundamente arraigada, de que alguma coisa ou alguém salvasse o mundo civilizado de um mal sem rosto e sem nome, capaz de provocar o caos instantâneo - um tipo de destruição que antes só era visto em histórias em quadrinhos. Para combater esses demônios invisíveis, precisávamos de deuses. Com efeito, mais uma vez, a indústria da história em quadrinhos reagiu, fornecendo a uma nação confusa e aterrorizada os super-heróis que poriam ordem em tudo", observa Knowles. 
Jung reconhecia a universalidade do mitologema do herói nas mais diversas culturas;  aspectos como nascimento divino, descida aos infernos, ações redentoras em batalhas terríveis, presença de companheiros femininos ou masculinos, a  ideia recorrente de derrota, morte e renascimento. Esse arquétipo sinaliza para a emergência da consciência do ego desde o inconsciente material e psicológico -o mundo em si e tudo o que (des) conhecemos dele e de nós-, os rigores impostos pela existência contra a frágil flor da integridade espiritual, a improvável brecha de experiência significativa e indi-visibilidade (não esquecer que indivíduo quer dizer indiviso) quando tudo no espaço parece agregados de "últimos homens" (o antípoda nietzschiano do super-herói) visíveis apenas em dispersão, agressão, banalidade e caos.
-Unzuhause-