Monday, December 09, 2013

o grande silêncio


A ALEGRIA DE SER CARTUXO 
http://www.vocatiochartreux.org/pdfs/A%20ALEGRIA%20DE%20SER%20CARTUXO.pdf


Há alguns anos o filme “O Grande Silêncio” causou grande impacto no público. 
Revelou um pouco sobre a vida dos cartuxos, mas só um pouco, porque a mudez do filme deixou os espectadores com muitas perguntas no ar. Quem são esses monges vestidos com grosseiros hábitos brancos? Que sentido tem essa vida retirada e silenciosa, tão diferente da vida dos sacerdotes e religiosos dedicados à 
vida pastoral, ao ensino, às missões, inseridos no mundo? 
Os cartuxos defendem com firmeza o seu silêncio e retiro do mundo para poder viver seu carisma próprio e especial, por isso fogem da publicidade e raramente concedem entrevistas aos meios de comunicação. Não é de se admirar que sejam 
tão pouco conhecidos. 
Apesar de tudo, a vida solitária dos cartuxos sempre atraiu homens famintos do Infinito, desejosos de viver ocultos aos olhos do mundo, consagrando a sua existência totalmente a Deus no silêncio e na solidão de um ermo. Santos como 
Inácio de Loyola, João da Cruz e outros, sentiram o desejo de ingressar em uma cartuxa. E a Cartuja continua despertando interesse em não poucas pessoas de fé que se sentem atraídos por uma vida de fé singela, centrada no essencial.  
Recolhemos aqui as perguntas que há alguns anos o Pe. Rosendo Roig, jesuíta, planejou para os cartuxos de Miraflores (Burgos, Espanha). Também aproveitamos para adicionar outras perguntas que os aspirantes costumam nos fazer em suas cartas e em seus retiros vocacionais. Esperamos que estes simples 
diálogos sirvam de orientação aos jovens desejosos de saber mais sobre o carisma e a vida diária dos cartuxos. 
(...)

- Que motivações não seriam válidas para ser monge cartuxo? 
- As desilusões da vida, o desejo de uma vida tranquila, sem problemas, em geral qualquer motivo egoístico. O único motivo válido é a busca dos valores que 
não passam, a busca mais ou menos claramente percebida (ou ao menos pressentida) de Deus. Procuramos analisar a vocação com o máximo de discrição e paciência. 
- Com que idade se pode entrar na Cartuxa? 
- Tende-se a desaconselhar cada vez mais o ingreso antes dos 21 anos. 
- Dos 21 até que idade? 
- Sem a autorização especial do Capítulo Geral ou do Reverendo Padre, que é 
o Superior Geral da Ordem, não se pode receber ninguém que já tenha 45 anos. 
- E a autorização é concedida? 
- Se a idade não supera muito os 45 anos pode ser concedida, mas só depois de ter feito uma experiência especial de três ou quatro meses antes de ser admitido como aspirante. 
(...)
4. OS ASPECTOS MAIS CARACTERÍSTICOS DA 
ESPIRITUALIDADE CARTUSIANA 

A. Deus só 

- Diferentemente das ordens religiosas de vida apostólica, que se dedicam à pregação, ao ensino, ao cuidado dos enfermos etc., a que se dedica a Ordem Cartuxa? 
- Nossa missão na Igreja é o que tradicionalmente se chama de “vida contemplativa”. 
- O que é, então, a vida contemplativa para um cartuxo? 
- Um mistério que se aproxima do mistério de Deus, de cuja grandeza e incompreensibilidade ela participa de certa forma. Mais além do cuidado pelas coisas do mundo; mais além, inclusive, de todo ideal humano e da própria perfeição, o monge cartuxo busca a Deus. Ele vive só para Deus, dedicado de corpo e alma a louvar a Deus. Este é o segredo da vida puramente contemplativa: viver só para Deus, não desejar mais que a Deus, não querer saber de outra coisa senão de Deus e não possuir mais que a Deus. Aquele que reconhece a Deus como o Bem supremo, compreenderá o valor dessa vida de consagração radical que é a vida do cartuxo. 
- É um lindo ideal. 
- É, mas esse lindo ideal exige um clima adequado para acontecer. 
- E qual é o clima adequado? 
- As nossas usanças e observâncias criam esse clima e revelam assim o seu sentido. Consideradas isoladamente, sem relação com o seu fim, seriam incompreensíveis e não passariam de um monte de práticas estranhas. 
- Vejamos... 


B. A solidão e o silêncio 

- Qual é a palavra que mais se repete na Cartuxa? 
- Se alguém se desse ao trabalho de buscar o vocábulo mais repetido nas páginas de nossos Estatutos, seriam certamente as palavras “solidão” e “silêncio”. 
- Sua espiritualidade têm algum slogan? 
- A espiritualidade cartusiana é a espiritualidade do deserto. 
- É uma tradição? 
- Assim afirmam nossos Estatutos quando dizem: “Os fundadores de nossa Ordem seguiam uma luz vinda do Oriente, a dos antigos monges que, consagrados à solidão e à pobreza de espírito, povoaram os desertos numa época em que a lembrança ainda viva do sangue derramado pelo Senhor ainda ardia em seus corações”. 

- Essa espiritualidade lhes é própria, ou tem fundamentos em outro lugar? 
- A Sagrada Escritura e a tradição da Igreja oferecem argumentos para colocar a vida solitária acima de qualquer outra vocação. 
- Apesar de reconhecer que a solidão é somente um meio, vocês lhe tributam um verdadeiro culto. Por quê? 
- Porque, como dizem muito bem os nossos Estatutos, citando Dom Guigo, quarto sucessor de são Bruno no eremitério Chartreuse, a solidão é o meio mais apto para a união com Deus: “o gosto pela salmodia, a aplicação à leitura, o fervor da oração, a profundidade da meditação, a elevação da contemplação e o dom das lágrimas, 
não podem encontrar ajuda mais poderosa que a solidão”. 
- Então essa importância que a Cartuxa dá à solidão tem alguma repercussão na estrutura jurídica da Ordem? 
- Toda a legislação da Cartuxa tende a conservar e favorecer essa solidão e esse silêncio, que são os traços mais marcantes da espiritualidade do deserto e da espiritualidade cartusiana. 
- Pode me indicar alguns aspectos de seus Estatutos sobre a vida de solidão do cartuxo? 
- Os Estatutos proíbem ao cartuxo, por exemplo, pregar, confessar e fazer acompanhamento espiritual, coisas em si excelentes, mas que não estão na linha da vocação eremítica.
(...)
- Em uma palavra, o que é necessário para um cartuxo?  
- Que se enamore da solidão para vivê-la em intimidade com o Senhor. 
- O cartuxo que é fiel a esses princípios é feliz? 
- Sim, porque o monge que é fiel à sua vocação compreende que Deus o chama a uma solidão e a um silêncio de espírito cada vez mais profundos.

C. O repouso espiritual 


- Solidão e silêncio cada vez mais profundos? 

- Sim, a solidão exterior cria o ambiente propício, necessário para que se 

possa desenvolver uma solidão mais perfeita, a solidão interior. 

- Em que consiste a solidão interior? 
- Em um processo espiritual pelo qual a memória, o entendimento e a vontade vão perdendo o interesse e o gosto pelas coisas passageiras. Por sua vez, Deus começa a ser percebido como o único que pode saciar as profundas aspirações do espírito. Só quando o cartuxo descobre, admirado, que enfim é só Deus que o preenche, começa a ser um autêntico “monge” contemplativo. Esta 
descoberta produz uma sensação de liberdade e gozo interior que é difícil expressar com palavras. 
- Esta experiência é algo típico e exclusivo da Cartuxa? 
- Se trata de um processo espiritual já descrito na espiritualidade dos antigos monges do deserto, tal como Antão, Pacômio, Evágrio, e em geral nos místicos cristãos de todos os tempos. 
- Como vocês, cartuxos, o concretizam? 
- Acho que todo esse processo espiritual poderia ser resumido em uma palavra muito cara a nosso pai São Bruno e aos primeiros cartuxos: ”quies”, isto é, o repouso espiritual. 
- Se entendo bem, isso significa que todo o ambiente da Cartuxa tende a isso? 
- A um clima de solidão e silêncio que elimina o barulho perturbador dos desejos e imagens terrenos. Se trata de uma atenção tranquila e sossegada da mente em Deus, favorecida pela oração e pela leitura pausada. Chega-se assim a essa “quies”, ou “repouso” da alma em Deus. Esse repouso divinizado, simples e 
gozoso faz com que o monge toque de alguma forma a beleza da vida eterna. 
- Que grau de contemplação é esse? 
- Digamos que a “quies”, é a meta do cartuxo, é onde anela chegar. 
D. Fidelidade à Cruz  
- Vocês têm a fama de serem muito penitentes. 
- Sobre o tema das penitências da Cartuxa, como sobre tantos outros, existem as ideias mais estranhas. Para nós as penitências são simples “meios para aliviar o peso da carne para poder seguir o Senhor mais prontamente”, como dizem os nossos Estatutos.  
- Mas você sabe que hoje em dia a penitência individual não é considerada um meio infalível... Vivemos em um tempo de comprensão e diálogo. 
- É, nos dias de hoje, a penitência e, em geral, tudo o que supõe sacrifício e abnegação, é malvisto; costuma-se falar disso com notável inconsciência. Todo o mundo acha razoável que um esportista se prive de muitas coisas boas e submeta 
o seu corpo a duros treinamentos. 
- Vocês, monges cartuxos, desejam viver segundo o “homem novo” da Sagrada Escritura. Pode me dizer precisamente quais são as penitências básicas? 
- A separação do mundo, a ausência de notícias e de passatempos... São privações que talvez custem mais aos noviços. Tem também o sono dividido em dois tempos, a simplicidade no vestir, a frugalidade na alimentação... 
(...)

No dia 6 de outubro celebramos o santo fundador da Ordem dos Cartuxos, considerada a mais rígida de todas as Ordens da Igreja, e que atravessou a história sem reformas. Filho de família nobre de Colônia, Alemanha, nasceu em 1035. Quando alcançou idade foi chamado pelo Senhor ao sacerdócio, e se deixou seduzir. Amigo e admirado pelo Arcebispo de Reims, Bruno, inteligente e piedoso, começou a dar aulas na escola da Catedral desse local, até que – já cinqüentenário e cônego – amadureceu a inspiração de servir a uma Ordem religiosa.
            Após curto estágio num mosteiro beneditino, retirou-se a uma região chamada Cartuxa com a aprovação e bênção de um bispo, o qual lhe ofereceu um lugar. Assim, São Bruno começou sua obra com o coração abrasado de amor por Jesus e pelo Reino de Deus. Com os companheiros observava absoluto silêncio a fim do aprofundar-se na oração e meditação das coisas divinas, ofícios litúrgicos comunitários, obediência aos superiores, trabalhos agrícolas, transcrição de manuscritos e livros piedosos.
            Quando um dos discípulos de São Bruno tornou-se Papa, o quis como assessor. Por obediência ao Vigário de Cristo, ele aceitou o convite. Porém, recusou ser bispo e – após pedir com insistência a Urbano II – conseguiu voltar à vida religiosa. Juntamente com amigos de Roma fundou, no sul da Itália, o mosteiro de Santa Maria da Torre. Faleceu em 1101, neste mesmo mosteiro.
            As suas últimas palavras foram: “Eu creio nos Santos Sacramentos da Igreja Católica. Em particular, creio que o pão e o vinho consagrados, na Santa Missa, são o Corpo e Sangue verdadeiros de Jesus Cristo”.
São Bruno, rogai por nós!