domingo, dezembro 21, 2014

Resenhas para a Folha *NATAL* 21/12/14



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
TEXTOS CAIO LIUDVIK

A TERRA SERÁ AZUL
“A humanidade entrou no terceiro milênio para se despedir? “ A inquietante pergunta, em nada deslocada em nosso tempo de aguda crise econômica, social e ambiental, é mote deste livro de ficção científica juvenil de João Batista de Andrade. Num Natal como o que se aproxima, só que do ano 2033, uma supercivilização decide nos enviar um ser superior para nos inspirar a revertermos nosso fracasso histórico como espécie. Caso contrário, a destruição do planeta será  inevitável, num prazo de 20 anos. A nova Belém será no coração do Brasil, e o salvador  se chama Guéri , nome que, se faz pensar no termo francês “curado”, remete a  “menino loiro” na  lenda indígena evocada pelo livro. Bom presente de Natal para quem quer renovar o contato pessoal com a universalidade do mito soteriológico (de salvação)  para além da banalidade ou passividade dos cultos de Papai Noel e de papai do céu.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

A NEVE ESTAVA SUJA
Afora o gênero policial que explorou com maestria e tino comercial (ficou célebre pelas dezenas de romances protagonizados pelo inspetor Maigret), o belga Georges Simenon praticava o que chamou de“roman dur”, como neste  livro de 1948. Uma alegoria da chamada “sensibilidade absurda” que Albert Camus tornou categoria de pensamento e dispositivo literário em livros como “O Estrangeiro”. Nada absurdo, aliás, comparar a obra-prima de Camus com a dicção e o indiferentismo (em nada afetado nem mesmo pelo cárcere) deste retrato de um cafetão da França sob a ocupação nazista, e que decide matar não por causa do reflexo do Sol na sua retina, como Meursault, mas por “curiosidade”; senão ele próprio o  “psicopata”que declarou ser,  Simenon mostra habilidade notável em desvendar os meandros de uma mente com déficit ético, uma figura  não incomum em nossa era de banalização da violência. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

COMBATEREMOS A SOMBRA
Na noite da virada do milênio, um psicanalista na iminência de doloroso divórcio e acossado pelo enigma de um paciente,  se debate também com uma pauta sui generis de artigo: “Quanto pesa uma alma?”. Põe-se em busca da palavra justa, do parágrafo unificador, da maneira de se haver com esse peso insustentável da “consciência de si  quando se narra”, a fala não como adjacência mas núcleo, não mero  perfume, mas flor mesma da alma, em suas reentrâncias sombrias, aludidas pelo título. Não por acaso a premiação em 2008 pela Associação Francesa de Psiquiatria: com seu protagonista que personifica a profissão símbolo da subjetividade moderna, o romance da portuguesa Lídia Jorge se entretece de fragmentos de memórias, fantasias e revelações que vão trazendo à tona um país e uma atualidade global às escuras no “imbróglio do ser” e “confusão dos seres em relação” de nosso cotidiano opaco. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


domingo, novembro 30, 2014

Resenhas para a Folha, 29/11/14


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos CAIO LIUDVIK

A AGONIA DOS PÁSSAROS
Crítico de rock e música pop, ex-vocalista da banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, Fernando Naporano publica seu primeiro livro de poesia –tem vários outros ainda inéditos. São versos impulsionados por um afeto primordial de saudade, ou como ele diz, “saudadeavestruz”, ardendo no fogo da terra, no piche fervente da angústia, seja pela  filha –em 2011, quando os escreveu, ele morava em Curitiba, ela em São Paulo-, seja no luto antecipado pela  cachorrinha, que agonizava de um câncer. Mas não apela para sentimentalismos estereotipados na maneira contundente e enxuta como transfigura  a dor pessoal em lamento e revolta metafísicas da condição humana em nossos desertos, dias desabitados, fortaleza da solidão.


AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

O SILÊNCIO E A PROSA DO MUNDO
"Se a palavra que você vai pronunciar não é mais bela do que o silêncio, não a pronuncie". O preceito sufi é o ponto de partida de Adauto Novaes neste novo ciclo de conferências que organizou. Num mundo cada vez mais "interconectado" e tagarela, a palavra, que deveria ser sementeira de pensamento, ameaça soterrá-lo na vulgaridade dos discursos irrefletidos. Que o conflito entre silêncio e linguagem não é de hoje, fica porém claro em textos da coletânea como a da filósofa Olgária Matos, que a partir de Benjamin e Barthes recua à espiritualidade monástica, calcada no imperativo tríplice do "fuge, tasce, quiesce" (foge, cala, repousa). 
Romain Graziani  nos transporta ao Oriente de Confúcio e dos taoístas, para os quais o divino que pode ser falado já não é mais o divino. Quando a alma fala, não mais fala a alma é o preceito do romantismo alemão cuja categoria do "sublime" é alvo de primoroso ensaio de filosofia musical por Vladimir Safatle. Já Marcelo Coelho comenta o "fascínio" de intelectuais da atualidade por uma modalidade específica de arrancar o homem do silêncio: a tortura.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



SABINA SPIELREIN
Sai, em edição crítica primorosa por Renata Udler Cromberg, o  primeiro volume das obras completas de uma genial e até pouco tempo ignorada protagonista na gênese da psicanálise. A russa Sabina Spielrein (1885-1942) foi uma jovem e fundamental paciente  de Carl Jung no mítico hospital suíço que revolucionava, na primeira década do século 20 a psiquiatria em diálogo com a psicanálise. 
O sucesso do tratamento a fez passar de grave vítima de histeria (senão de psicose) a uma analista talentosíssima, colaboradora direta de Freud em Viena e que lhe antecipou (em texto incluído no volume) o conceito de pulsão de morte. 
 Entre a ruína e o triunfo pessoal e profissional, o polêmico caso amoroso com Jung, e seus reflexos na ruptura dele com Freud, acrescentam intensidade a essa trajetória extraordinária, sustada  pelos nazistas que a fuzilaram juntamente com as filhas.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO 

NOSSA TERESA
O narrador, neste romance de estreia da poeta Micheliny Verunschk, nos exige “olhos que não pisquem em desatenção, o que não é muito para quem se propõe a conhecer a história de uma vida”. Mas nem precisaria –tão envolvente é a história- desse gesto de petulância, típico, diz, de todo aquele que conta um conto, “Deus a seu modo com suas onipotências, arrogâncias e vontades”. O livro narra a “vida e morte de uma santa suicida”, a adolescente e vidente Teresa. 
No seu forte tom iconoclástico contra o “Deus minotauro”, que, como o monstro grego,  se delicia com o sacrifício de jovens no patíbulo da hipocrisia e da crueldade,  o livro investe em paradoxos como o tabu religioso que pesa contra quem atenta contra a própria vida – isso como se o próprio cristianismo não estivesse calcado na memória de mártires “suicidas”, a começar do próprio fundador.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O HOMEM DIANTE DA MORTE
“Como sois insistentes, ó deusa cruel”, diz La Fontaine do poder tirânico de Tânatos, em uma das tantas referência s recolhidas neste estudo monumental de Phillipe Ariès sobre a história das percepções da morte pelo ao longo do processo  histórico de secularização e de afirmação da individualidade ocidental. 
Se a morte “insiste” em assombrar o imaginário humano, não o faz da mesma maneira desde a Idade Média, ponto de partida  do livro. A atitude “tradicional” com base na qual o moderno tabu e a ocultação em hospitais é contrastado é a da  exaltação medieval da bela morte, aquela que dá tempo ao moribundo de reunir parentes e amigos, testemunhar alguns de seus ritos funerários , como aliás vemos o adolescente com câncer terminal fazer no comovente best-seller   “A Culpa é das Estrelas”.
AVALIAÇÃO -ÓTIMO

O EFEITO ETNOGRÁFICO
O lançamento desta coletânea de ensaios da britânica Marilyn Strathern é causa de dupla alegria para a comunidade acadêmica brasileira em antropologia. Primeiro, pela ocasião de estreitar contato com uma das pesquisadoras mais densas e interessantes da atualidade. 
A autora de “O Gênero da Dádiva” conjuga de maneira original a tradição etnológica anglo-saxã e a crítica pós-modernista e feminista, com contribuições seja no campo melanésio, ou na descrição –prática privilegiada pelo “efeito etnográfico”- da sua própria sociedade, vide o ensaio sobre as relações de parentesco inglês ou a crítica ao individualismo tatcherista. 
Outra felicidade é atestar, pelos elogios e farta utilização do perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro, a inserção do Brasil no mapa da antropologia internacional não só como objeto de estudos, mas foro de produção teórica original.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 


segunda-feira, novembro 17, 2014

fé, razão, Romeu e Julieta


Esta madrugada avançava em claro, como de hábito, mas excepcionalmente light, estando eu a distância segura do sofá de meus deleites intelectuais mais densos e de tirar o sono, como a recente travessia das quase mil páginas de uma biografia sensacional sobre Nietzsche. 
Deitado confortavelmente, assistia Bruno Mazzei sempre engraçado, e sempre no papel de Bruno Mazzei, no filme "E Aí, Comeu?". Mas a angústia é minha amante voraz e ciumenta, não aceitou ficar de fora da cama, e veio se insinuar com seus atrativos -tão irresistíveis pra meu romantismo melancólico quanto, na outra face da moeda da libido,  a contemplação da dona de uma minissaia provocante - quando a televisão avisou da mudança pré-programada para o canal em que começaria, dali a instantes, o filme "A Tentação", de Matthew Chapman.  Não resisti à tentação. 
O castigo não foi tanto o de dormir depois das quatro (antes das três quase nunca o sofá das leituras me dá refresco mesmo), quanto acordar ainda empapado das sensações "puxadas", por assim dizer, de uma longa noite de gozo, no sentido usual de deleite e no de Lacan, um  prazer psíquico pelo desprazer, doloroso fascínio de me deixar desviar (seduzir)  e reencontrar, pelo  filme,  com as duas faces típicas da minha libido, a que irradia tesão pela vida, aqui sob os traços encantadores de Liv Tyler, e a sombria, abismal, do drama em que sua personagem, a  enigmática Shana, se vê enredada com o seu vizinho de apartamento, em seguida também patrão e logo amante, o subgerente de hotel Gavin (Charlie Hunman). Logo no início o vemos no alto de um edifício, e literalmente na beira (por isso o título original, The Ledge) do suicídio. Era a exigência do marido de Shana,  Joe (Patrick Wilson), para não matá-la, depois de ter descoberto a traição. 
Não bastasse o aspecto sentimental, o drama -como é típico da grande obra de arte trágica- é inseparável da dimensão filosófico-religiosa. Joe é o típico fundamentalista evangélico norte-americano, "lavado, redimido e justificado" do mundo imundo, e dos pecados pregressos, pela fé fanática. É claramente o vilão da história -embora apresentado de uma maneira não estereotipada, e sim assustadoramente complexa, até excelente pela atuação de Wilson; seu antagonista, Gavin, encarna a visão antirreligiosa do diretor e roteirista. Tetraneto de Darwin, Matthew Chapman foi amigo desde as baladas juvenis do grande ensaísta Christopher Hitchens (morto em 2007), e fervoroso como ele na cruzada contra a direita religiosa dos EUA. 
O elo entre o conflito afetivo e o religioso é tão íntimo no filme que, no alto do edifício em que moram -não o do salto para a morte, mas para o amor-, Gavin consuma o primeiro beijo em Shana após diálogo comovente em que, deitados, contemplam as estrelas, e ele lhe fala que o júbilo de pertencer a algo maior que nós mesmos não precisa depender  de ilusões religiosas. O céu é grandioso mesmo que não haja nenhum pai eterno ou anjinhos ali escondidos a nos proteger, é poético em sua magnitude e em paradoxos como saber que o que vemos lá no alto é, pelo tempo que leva a viagem da luz pelo espaço sideral, não as estrelas, mas imagens dela, reflexos, lembranças póstumas de milênios atrás. Se houver algum ovni nos estudando a uma distância proporcional, por telescópio, nesse momento, a Terra a que estariam estariam  assistindo não seria a atual, mas quiçá a dos tetravôs dos dinossauros. Trata-se ipsis litteris do argumento de outro grande popstar do ateísmo contemporâneo, Richard Dawkins, no livro "A Magia da Realidade", de 2011, ano anterior ao do filme.
Somos evidentemente compelidos à simpatia pelas posições de Gavin, pela sua vitória junto a Shana contra os argumentos do marido tirano e intolerante. Também ajuda nesse sentido a  "hospitalidade" que, ecoando seu ofício, Gavin demonstra com as pessoas ao seu redor, em especial o amigo gay que acolheu em casa, e com quem se permite a discordância afetuosa -impossível no embate contra o fundamentalista- em relação às manias "new age" em que o amigo talvez encontre compensação imaginária para as agruras da discriminação social e da contaminação por HIV.
A generosidade de Gavin também terá papel fundamental para o desenlace de outro drama paralelo da história, a do policial Hollis (Terrence Howard), que não bastasse a tensão de tentar demovê-lo  de pular,  convivia com uma descoberta desconcertante, poucas horas antes: sempre foi estéril e portanto não tivera com a esposa os meninos que considerava seus filhos.   
Falava de Nietzsche no início. Elo indispensável da consciência ateia do Ocidente no seu arco  entre a geração de Darwin e a do seu tetraneto, o Anticristo não recomenda: "Quanto mais abstrata verdade que você ensina, tanto mais deverá seduzir os sentidos para ela"? O filme de Chapman cumpre à risca esse imperativo, se se tratava de fazer, por uma arrebatadora alegoria de amor e de morte, a propaganda de uma visão racional, desencantada do universo. Ou melhor, racional sim, desencantada jamais. Desmistificada das hipocrisias e intolerâncias em que os Joes camuflam dos outros e de si mesmos, por um tempo, sua crueldade e sua covardia. Mas reencantada pela "magia da realidade" de que fala Dawkins e pelo doloroso fascínio do amor destes Romeu e Julieta  do filme trágico e sublime que me impediu uma madrugada mais suave e me arrancou um pouco mais do sono dogmático que insiste em sonhar-se protegido por anjinhos atrás das estrelas. O que no mínimo torna mais exigente o desafio da fé, se quiser se diferenciar do fanatismo que é dela uma versão estúpida, a anos luz de um sentimento que, se outrora autêntico e capaz de ver algo do real, se degradou e morreu na retina corrompida do dogmatismo toupeira. 
-Unzuhause-    

sexta-feira, novembro 14, 2014

a travessia e abismo Pascal


Começou ontem no Centro Universitário Maria Antonia, da USP o curso "Existência e Ética em Pascal, Kierkegaard e Levinas". A ideia é discutir autores que,a seu tempo, se levantaram contra seu tempo, ou melhor, contra a hegemonia intelectual de certo tipo de racionalismo abstrato, por exemplo o de Descartes (alvo de Pascal) ou de Hegel (contestado por Kierkegaard). Se é verdade que a ética é a busca de valores humanos para além do interesse egoísta, isso não implica virar as costas para o homem de carne e osso, eu você, a pessoa concreta e singular, nas agonias e opacidades de uma existência que não se deixa jamais "explicar" teórica e dirigir praticamente (ética é uma disciplina do agir) do pedestal, torre de marfim ou biblioteca mofada dos presunçosos intelectuais. 
Sem recair no que hoje chamaríamos (e que muito me atrai) de revolta irracionalista, Pascal  (1623- 1662), tema da aula de ontem, entrou pros anais da auto-ajuda como o autor da frase de efeito "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Mas para além do clichê, o que essa frase transmite é o senso, tão atual, aliás, de que a ciência sem consciência, e a consciência sem afeto, não bastam, podemos nos servir dos instrumentos mais refinados do intelecto e da técnica e nem assim dotar de sentido -ético, em especial- este mundo que cada vez mais toma a forma de jaula de ferro profetizada por Max Weber na virada do século XX, que haveria supostamente de ser o ápice de felicidade, conforto e emancipação intelectual do homem liberto pela ciência das crendices do passado. 
Pois bem, Pascal, gênio da matemática, com grandes contribuições também para a física, a engenharia e tantos outros campos da incipiente razão moderna, nem por isso se curvou ao racionalismo, isto é, à ideologia da razão. Evocando a tradição cristã, mas num registro sem dúvida mais sombrio do que habitual nos clérigos e nos escolásticos, Pascal "humilha", chama de volta (sentido de sua "revolta") à humildade, o orgulho (hybris, diriam os trágicos gregos) humanista encarnado pelo absolutismo cartesiano da do sistema racional de saber, de certo modo uma réplica intelectual do absolutismo do Estado moderno que se emancipava das garras da religião. Se a por natureza compartilhamos da grandeza da Criação divina, nossa condição de seres  manchados pelo pecado de Adão e Eva (estranha presença e sedução dos velhos mitos no raciocinar filosófico) é a de uma miserabilidade lamentável. Grandeza e miséria do homem, caniço pensante de uma fragilidade constrangedora como a do grande filósofo -Pascal ama essas alegorias de nosso ridículo- que na imponência de seu gabinete de trabalho perde a mais básica concentração e elevação racional sob o infernal assédio do zumbido de uma mosca. E essa madrugada, eu em agonia por uma coceira particularmente vexatória, pelas partes íntimas que me atacava,  não terei provado, no chão da cama poucas horas depois dos ares profundos do espírito na aula de meu mestre Franklin,  dessa mesma ambiguidade pascaliana ?
Sem pretender aqui detalhar em sua riqueza a aula de Franklin (para minha honra, o orientador de meu mestrado e doutorado e tutor no pós-doc), queria destacar, entre outros pontos, a ênfase dele no fato de Pascal, ao se rebelar contra Descartes, nem por isso abdicar dos instrumentos conceituais e lógicos oferecidos pelo adversário. Não saía da órbita intelectual de seu tempo, era preciso entrar em diálogo, assimilá-lo com suficiente empatia e profundidade para ir mais longe.  Por isso o cuidado de Franklin em afastar de Pascal a pecha de irracionalista, embora mostre mais tolerância com a impressão de críticos marxistas de que o mestre jansenista já era "dialético", séculos antes de Hegel e Marx, em momentos brilhantes como aquele em que diz que o homem, sujeito a todas as agressões e meios de aniquilamento neste universo esmagadoramente hostil, todavia se conserva mais digno do que qualquer das armas cegas que o destrua, justamente por se saber finito e frágil. Nossa grandeza, aqui diretamente vinculada à consciência de nossa fraqueza, não como ideal abstrato que a escondesse de nós mesmos, não bastasse o Absoluto que nos chama (pela sensibilidade, sem "provas" possíveis da Sua existência) ser verdadeiramente o Deus obscuro, diz Pascal citando Isaías.
 Com efeito, o Deus de Pascal é o dos grandes profetas, santos, místicos e mártires da fé, o Deus do temor e tremor, insondável e avassalador, não o Deus dos filósofos, personagem meramente conceitual dos teoremas, "ideia" inata ou ideologia forjada e imposta à mente humana como em Descartes ou nos críticos ateus e psicólogos e sociólogos laicos da religião. 
Falei em recalque; o equivalente pascaliano desse termo consagrado do esperanto psicanalítico é divertissement. 
Mais que "diversão", embora a inclua, o conceito pascaliano aqui tem base militar, é diversionismo, como a manobra do general que ludibria o adversário fingindo que fará uma coisa enquanto se prepara para outra. Quem o homem do divertissement existencial quer enganar? Sobretudo a si mesmo, pois nada mais insuportável -eis outro aforismo célebre de Pascal- para o homem comum do que passar muito tempo a sós no silêncio para ele tedioso de seu quarto, fora do rebuliço do mundo, dos ruídos e cores das "diversões" todas daquele tempo, tão maiores em quantidade e em vulgaridade hoje em dia.
Outra "dialética" possível de se entrever em Pascal está em sua tipologia do espírito de fineza e do espírito de geometria. Prefigurando um William James ou mesmo Jung, mostra a dicotomia entre introversão e extroversão, intelecto e intuição, "aposta" (termo de riquíssimo significado para a experiência de fé em Pascal, não esmiuçada por Franklin ontem) e raciocínio demonstrativo, cujas primeiras premissas tentem sempre a não serem demonstráveis, a serem questão de "gosto", de temperamento pessoal. 
Animal ainda não determinado, diria o tão "pascaliano" Nietzsche, o homem é chamado por pensadores desta profundeza, os "abismais", a um encontro face a face consigo mesmo, no espelho do seu dilaceramento, imperfeição e nudez, parando com a farsa de se fingir de rei num universo que faz dele tão-somente testemunha efêmera da Grandeza que, ela sim, é absoluta mas não nos pertence. Por que -outro  petardo pascaliano- um rei é tão rodeado de gente a lhe fazer a corte? Para que não se veja como é. Pascal: de nome próprio a adjetivo da paixão de Cristo, paixão de cada um de nós, na travessia da existência com a bússola da fé e do afeto em sendas éticas de mais autenticidade do que a mera vestimenta dos códigos morais convencionais e arbitrários que fazem de um assassino de compatriota francês um criminoso, mas de um assassino francês do soldado espanhol um herói. A travessia pascal é árdua, íngreme, mas recompensadora, ética, em sentido grandioso e humilde,  na companhia de amigos críticos da índole de um Pascal. 
-Unzuhause-

sábado, novembro 08, 2014

o rugir da essência do homem doméstico


Menin aiede, the, Peleiadeo Achileos
Ouloumenem, he myri Achaiois alge eteke

A ira canta, ó deusa, do filho de Peleu, Aquiles,
a ira portadora de desgraça, que mil sofrimentos aos Aqueus
Criou e muitas imponentes almas para baixo até o Hades arrojou

O filósofo alemão Peter Sloterdjik nos lembra que o verso de abertura da Ilíada, ela própria obra fundante da tradição ocidental, tem por palavra de alvorada a ira. Começo do começo do começo, a paixão iracunda é o equivalente afetivo à guerra e violência objetivas que tingem de sangue e de seiva, de vida e de morte, a todas as coisas, ao Caos e ao Cosmos e a miniatura deles que chamamos e vivemos, vaidosos protagonistas de nossas quimeras, pomposamente de "História".  O Antigo Testamento, que Nietzsche elogia e prefere ao Evangelho cristão dos "minguados animais domésticos" e seu Deus amoroso e bonzinho, é repleto de momentos de ira seja de Deus ou de seus profetas; o salmista podia ser franco o bastante com suas pulsões bélicas ao compartilhar de sua espera, com língua em estado de apetite, pelo dia em que o justo banhará seus pés no sangue dos pecadores ( Sl 58, 11). Na luta pela sobrevivência entre espécies e indivíduos, homens ou formigas, o "pega pra capar" é um instinto e uma necessidade que humilham nossas risíveis projeções "fofinhas" que querem fazer da Terra um paraíso de golfinhos sorridentes e cachorrinhos fiéis. 
Essas verdades inconvenientes estão entre os ingredientes da delícia de assistir aos  "Relatos Selvagens", do argentino Damián Szifron. Com co-produção de Pedro Almodóvar, o filme expõe com incrível fluidez narrativa, humor negro e capacidade envolvente seis pequenas esquetes sobre personagens que perdem o controle dos nervos, renunciam ao pacto de repressão universal e internalização individual do instinto cruel dos minguados animais domésticos que a civilização moderna faz de nós. Nesse pacto, transferimos todos, para nossa segurança, o monopólio da violência legítima para uma só esfera, a do Estado; o filme mostra o quanto hoje se difunde a consciência de que "vândalo é o Estado", como li outro dia na camiseta de uma aguerrida militante, modos rijos, cabelo joãozinho, que por acaso dividia comigo uma mesa no Centro Cultural São Paulo. Cada vez mais desconfiados, senão mesmo fartos uns dos outros, no trânsito, nas filas, na briga por emprego, no stress do trabalho, não temos um Estado ao qual dirigir o olhar aliviado do "ufa, pelo menos nessa força superior posso confiar". Falta água, falta segurança, falta decência, ninguém nos representa. Nossa pulsão também não se representa, cai no esquecimento pela ausência de uma imagem ressonante o bastante que lhe honre.
 As imagens do filme nos honram. Nos despertam, ainda que em fagulhas e ruídos de anamnese de nossa essência frustrada e ferida. A ira vira fio condutor do emergir da verdade. Em duas de suas histórias, a corrupção é desmascarada não como aberração, mas modus operandi do Estado, da sociedade, de nossas almas corrompidas; do magnata ao caseiro, não há valores acima dos interesses imediatos, tudo se compra e se vende, fidelidade conjugal é um teatro bisonho, mas nem por isso amamos a nossa individualidade, a liberdade não parece valer grande coisa - veja a cozinheira que desabafa que isso aqui (a vida fora do presídio) é uma merda, que se sentia muito mais livre quando prisioneira; veja o engenheiro bombita, suas humilhações antes da aclamação geral atrás das grades.
O filme não faz uma apologia irresponsável da violência, o que fica evidente no patético da guerra primitiva entre o rico do carrão novo e o gorila (de pele clara, mas "escura" o bastante para o insulto racial) da charanga com adesivo "paris dacar". Mas mostra, por outro lado, o que a ira tem de potencialmente "terapêutica"  quando nos arranca da hipocrisia, do delírio esfuziante de ritos de casamento que abafam na ostentação de alegria e luxo o vazio e a suspeita íntimas. A ira como desacato a uma vida lesada pela frieza e pela mentira pode ser a via paradoxal de, no extremo oposto do amor, tocar os pés no chão da piscina que parecia sem fundo e adquirir impulso  para voltar a respirar. 
Quantos outros atrativos espetaculares, num filme que -quase regra da excelência do cinema argentino atual- se dá ao luxo de contar com um Ricardo Darín , mas vai bem além dele. Érica Rivas no transe das grandes performances.  Julieta Zylberberg, simplesmente minha nova paixão cinematográfica, avatar de minha Anima ideal na telona, Beatriz delicada e selvagem, rosto de meu impulso, o de com os dedos do pé ascender desde o  fundo da piscina dantesca, suportar uma sociedade corrompida como esta, aliviado ao menos de saber que meu nariz não é feito pra isso, a angústia o mostra, e que neste mar de lodo não se respira, e lutar por respirar o ar da superfície, melhor ainda, o vento montanhês que nos brinda não quando escondemos de nós mesmos, minguados animais domésticos, o bestial, mas quando afirmamos, com ele e para além dele, também o angelical. 
-Unzuhause-

segunda-feira, novembro 03, 2014

um sonho com Paulo Arantes


Tive um verdadeiro sonho de crioulo-filósofo doido, esta madrugada: Paulo Arantes, uspiano marxista, destaque,  com Vladimir Safatle, entre os pensadores da geração junho de 2013,  em serena conversa professoral comigo; me indica livros, mas não os que seriam previsíveis no caso dele, um Marx, Zizek ou Badiou. Não!  Nada mais nada menos que Auguste Comte, pai do positivismo, autor do imperativo "ordem e progresso" de nossa bandeira, conservador idolatrado por nosso exército. Mais curioso ainda, Paulo, no sonho, fala de Comte como fundador de certo "queremismo" (sim, o termo consagrado pelos defensores de Vargas, arquirrival de meu atual xodó nos estudos políticos nacionais, Carlos Lacerda). mas no vocabulário do meu spiritus rector onírico, queremismo seria coisa distinta, algo assim como as ideologias do Querer, que "viriam a desaguar", segundo a torta cronologia esquisita do enredo, na filosofia de Schopenhauer, irracionalista nas antípodas da religião comteana da razão. Meo Dels! rssss Esse borbulhar de razão e irrazão, direita e esquerda, Vargas e Lacerda, ordem e caos, progresso e retrocesso, moções em batalha dentro de mim, precisa de um bruxo como  Jung para ser pilotado e  cuidado como caldeirão e vassourinha (affe, aqui introduzo Jânio, outro fetiche de meus estudos sobre o populismo de direita) que seja firme para o limpar e leve para o voar :)
-Unzuhause-

sábado, outubro 25, 2014

Resenhas para a Folha, 25/06/14


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK
A ARTE DA NOVELA
Num feliz paradoxo da escritora Francine Prose, a arte de escrever não se ensina, mas se aprende. E que melhores professores do que os mestres do passado, pergunta, “generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio, tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?”
Quatro dos títulos da coleção “A Arte da Novela”, da Grua Livros, funcionam como notável “sala de aula” para se ler como quem escreve, e se lapidar para escrever.
Escrever uma vida com alma. O pobre protagonista de “Bartleby, o Escrevente”, de Herman Melville, está na antípoda disso.  Com seu “prefiro não”, se recusa em ato -como muitos de nós apenas em pensamento-  a cumprir as ordens burocráticas do chefe, que é o narrador perplexo e fascinado a ponto de não conseguir demiti-lo, em “generosidade” igualmente surreal.  
Em “A Lição do Mestre”, Henry James ensina sobre as tensões entre o seu ofício e os “falsos deuses”, os atalhos e acomodações devido às quais um decadente escritor perdeu a mão para a grande arte.
Outros dois títulos são “A Briga dos Dois Ivans”, de Nikolai Gógol, e “Freya das Sete Ilhas”, de Joseph Conrad. Gógol, em narrativa satírica menos conhecida que “O Capote”,  comenta a condição humana pela ruptura por motivo banal de uma amizade de longa data. E Conrad evoca a mitologia nórdica (Freya é a deusa da beleza, da fertilidade e do amor) na descrição de uma jovem encantadora que ama um capitão e com ele defronta os obstáculos da hostilidade paterna e da inveja de um oficial holandês.  
AVALIAÇÃO - ÓTIMOS
Os ensinamentos da loucura
Não é novidade o interesse da psicanálise pela obra de Fiódor Dostoiévski. Freud via em "Os Irmãos Karamázov" uma das mais potente ilustrações literárias do complexo de Édipo. Já em "Os Ensinamentos da Loucura", Heitor O' Dwyer de Macedo enfoca “O Duplo”,  "Memórias do Subsolo" e "Crime e Castigo", aproximando os fantasmas do gênio russo à auto-análise freudiana, da qual emergiu a descoberta da fantasia como mundo próprio do inconsciente.  
Radicado na França, Meca dos lacanianos,  Macedo não se furta a diatribes contra essa escola que, no nível teórico,  se perde em abstrações lógicas satirizadas pelo homem do subsolo -que, em confronto com a psique viva, se recusa a reduzir a existência à ditadura do dois e dois são quatro. Também no nível prático, uma leitura superficial do homem do subsolo se limitaria a ver nele uma mera confirmação da sanha destrutiva  de psicanalistas que se dão por satisfeitos se convencerem seus clientes a abandonar os idealismos egoicos e se verem como "lixo".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

domingo, outubro 19, 2014

Aline Barros, "Vitória no deserto"


os monstros do pântano



Em Os Pantanais da Alma,  o psicólogo junguiano James Hollis observa que o autoconhecimento e crescimento pessoal, via terapia, se distinguem da exigência social que hoje existe de que estejamos "felizes" o tempo todo. Não a felicidade, mas a sabedoria é a verdadeira meta. A sociedade do espetáculo nos cobra nunca estarmos tristes, a tristeza parece um atestado de fracasso, somos forçados  dançar o forró (for all) uniformizante da "empolgação" num mercado -ou farmácia- cujas anestesias (químicas ou não) nos empurram para fora do tempo, porque no tempo, diz o poeta, tristeza não tem fim, felicidade sim. Ou melhor, tristeza e felicidade são ambos estados fluidos, incertos, ilusórios como, para os fanáticos de um lado e de outro da atual corrida eleitoral, a angústia do rodamoinho de denúncias, perigos e dança dos números de uma pesquisa que bote um dia na liderança nosso  candidato e, noutro dia, o adversário.

 Kant propõe para a alma uma série de crenças, entre elas a de que há finalidade e liberdade pessoais, sem as quais tudo se reduziria a mecanismo cego e absurdo, e quem tem razão seriam os assassinos e corruptos de se locupletarem porque é tudo igual, entrar pra Cruz Vermelha ou levar vida de pinguço.
Uma crença junguiana básica sobre a natureza da alma é que tendemos a uma individuação que nos faz egos "des-mascarados" mas não desprotegidos (a máscara social era uma mentira que não deixava de proteger), ao contrário, mais fortes porque agora nosso respaldo vem de nossa verdade, vem do Self, luz e sombra para além do bem e do mal arbitrários e caprichosos da moral, da ideologia, da religião externa, da imbecilidade do rebanho humano. E para o Self, que os antigos chamavam de "alma", todo saber vem do sofrer. Nem todo, me corrijo. Só o mais importante. Os "pântanos da alma" (tradução melhor que pantanais, que no Brasil evocam região bem mais bela do que o autor tem em vista) são lugares de enfrentamento pessoal com o que a realidade tem de mais opressivo. Ansiedade, depressão, culpa, mágoa, luto e outros monstros, não porém de todo "desalmados", porque neles, ou na luta contra eles, há sementes para jardinar o pântano e reflorescer como um ser humano maior, mais pleno, menos manco (manquer - faltar), sem porém aquele pisar duro e indiferente ao solo gretado com que nós paulistanos, e todo aquele ego desenraizado da profundeza do Self, levamos nossa vida cada vez mais sem água e sem vida.

-Unzuhause-

sábado, setembro 27, 2014

Resenhas para a Folha, 27/ 09/2014


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
CAIO LIUDVIK

Edith Stein

A judia  Edith Stein sofreu na pele as agruras de um mundo de ódio que a impediu de fazer carreira acadêmica e a levou ao assassinato em Auschwitz. Discípula de Husserl, ela encetou sofisticada articulação entre a fenomenologia moderna e a escolástica de São Tomás de Aquino, como mostrado em duas obras a ela consagradas, "Pessoa Humana e Singularidade em Edith Stein", de Francesco Alfieri, e "A Antropologia de Edith Stein", de Mariana Bar Kusano.
 Ambas se destacam pela linguagem acessível, reforçada, no caso da obra de Alfieri, pelo excelente glossário, para o qual Kusano foi uma das colaboradoras. Ficam cristalinos os pilares do projeto steiniano de investigação. De um lado, aquilo que une a consciência e o mundo, segundo a lição husserliana da "intencionalidade" (a "vibração de nosso espaço interno, sempre voltado para e preenchido por objetos afetivos ou cognitivos que não a própria consciência).
De outro, o que nos singulariza, torna-nos "pessoas", faz-nos mais que redundantes espécimes da espécie humana ou cidadãos da cidade: o Eu profundo, núcleo de nosso ser e de nossas potencialidades, espécie de espaço monástico (monos, "uno") interno de não dispersão - que Stein conheceu intimamente ao se converter em monge carmelita, antes de precipitada ao sacrifício que a fez ser canonizada, décadas depois, como Santa Teresa Benedita da Cruz.
AVALIAÇÃO - ÓTIMOS

CORPO E SOCIEDADE
Sociólogo da Universidade Nacional de Cingapura, Bryan Turner apresenta densa, porém acessível, reflexão sobre a importância -que deveria ser óbvia- da "condição carnal" ou, em termo não sem ressonância teológica, da "encarnação" (embodiment) do homem. Sua ambição é, dessa perspectiva, contribuir a uma nova teoria da ação social. 
Levantando questões que vão dos direitos humanos ao impacto social e psicológico da longevidade cada vez maior do homem, da dança e sexualidade à religião, Turner apresenta seu livro como réplica a Foucault; nesse sentido, e de um viés mais próximo à fenomenologia (a vivência pessoal da encarnação como conteúdo de consciência), abre fogo contra o clichê acadêmico relativista (que, como todo clichê, se desenraíza do possível momento de verdade da ideia que banaliza) segundo o qual o corpo humano não passa de uma "construção social" . 
AVALIAÇÃO - ÓTIMO  

ALTÍSSIMA POBREZA
Dando prosseguimento à dimensão "teológica" de sua arqueologia, em sentido foucaultiano, das formas contemporâneas do poder,  Aganbem se volta aqui ao exame do fenômeno monástico entre os séculos 4 e 13. A liturgia eclesiástica, tema de seu "Opus Dei", é aqui investigada no esforço das "regras" monásticas, como a de São Bento, de plasmar a totalidade do "ora e labora" do monge numa coessencialidade entre forma e vida,  "vida que se relaciona tão proximamente à sua forma a ponto de dela resultar inseparável". Para além do estereótipo da Idades das Trevas como tempo de opressão, a perspectiva medieval seria  alternativa para uma vida liberta das amarras da lei e da primazia do economicismo -daí a importância estratégica que o filósofo italiano confere ao ideário de pobreza dos monges franciscanos, em sua tensão com a Cúria romana.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

terça-feira, setembro 09, 2014

o cão negro da depressão



Comentava com uma amiga esses dias sobre a ressonância que a palavra "depressão" exerce em mim desde muito: algo como uma contrapressão, reversão da pressão, "despressão", talvez. A Carol (interlocutora nessa conjectura) traduziu bem o que eu tentara articular: "consegui entender o que você disse....pensei numa panela de pressão!! nem conseguimos abrir quando ela está na pressão..o movimento é totalmente "positivo", ela está ali cozinhando...perigoso até explodir! Para abrir...para retirar o que foi cozido...despressão!"
 O vídeo acima, por sua vez,  amplia essa compreensão da depressão pelo  simbolismo do "cão negro", metáfora que um Churchill usava muito, a partir de sua experiência pessoal de depressivo. 
No Fausto de Goethe, o cão é o disfarce de Mefistófeles para se infiltrar na casa e na vida do herói vitimado pelo fastio de viver com seu excesso de saber e pouco amar. O poeta  Manuel Laranjeira, conterrâneo de Pessoa  -mestre tradutor de "O Corvo", de Poe,essa outra potente figuração do espírito depressivo-, mostra, a esse propósito,  como o desespero de viver resulta de um estado de  "consciência hipertrofiada" (nos termos do homem do subterrâneo de Dostoiévski) diante da qual a vida é um deserto tanto mais impiedoso quanto mais não se lhe acena, entre os camelos raquíticos que cruzam com o peregrino que anda em círculos, o mínimo oásis de auto-engano que seria a sorte (?) de amar. 
Não por acaso seu livo se chama "Comigo";  começa por convidar o leitor à introversão (retirada da libido dos objetos do mundo, reinvestindo-a em si mesmo), via  solilóquio: "Quando os outros não te entendem, fala contigo mesmo". O eu poético se dilacera, por um lado, entre versos schopenhauerianos de denúncia da miséria metafísica da existência: 
Pobre alma desiludida,
teu mal é não esquecer
que tudo falha na vida... 

Mas ouve, alma: pra viver
e ser feliz é preciso
fitar a mentira e crer,

como alguém que sem juízo
olha pra a terra e a vê
convertida em paraíso... 

Um coração que não crê
na mentira cegamente,
coração feliz não é.

Mas o que poderia ser simplesmente uma constatação intelectual sobre a vanidade (palavra sintomaticamente tão próxima de "vaidade") do mundo "em geral" mostra ser uma condição trágica impulsionada pela falta do vinho do amor, ou pela versão caricata do licor nupcial (tema "dionisíaco" do primeiro milagre de Cristo, na festa de casamento, a pedido da mãe Maria), isto é, o  vinagre dos torturadores que querem espicaçar a sede do Crucificado na árvore da vida e da morte. O poeta português confessa a tortura tão fáustica do intelectualismo ressequido pela frustração amorosa, convite à amizade canina da depressão:
"Ânsia de amar! oh ânsia de viver!
um'hora só que seja, mas vivida
e satisfeita... e pode-se morrer,
–porque se morre abençoando a vida!

Mas ess'hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!"




O vídeo acima não pretende essas altitudes metafísicas e existenciais da depressão, focaliza suas agruras cotidianas, as sensações que ela acarreta de  vazio, lentidão, perda de apetite, desmotivação,  falta de auto-estima. É interessante como o vídeo aponta na contramão da falácia chique de psicanalistas que insistem em que o sujeito deve ser afastado da "demanda de terapia" e convidado a fazer uma "demanda de análise", concordando em "pagar para trabalhar" (pode essa mais-valia, Arnaldo e lacanianos esquerdistas?) em ruminações numa espécie de dark room, com a cara afundada na lata de lixo mental em que devemos renunciar ao desejo de colo, de nome para nossa dor, de caminhos de cura. Não; já o fato de um terapeuta (cuidador do Ser, no sentido original do termo) vir ao nosso socorro com o diagnóstico de nosso mal, ele nos ajuda a começar a superá-lo, até por nos tirar do isolamento em que nos achávamos, ante os outros, reduzidos a distância entre mim e o tamanho da tampa da garrafa de iogurte que ainda há pouco deixei cair da mão junto à geladeira.  
O "nós" dos analistas gosta de se diferenciar do "eles", os terapeutas, pelo orgulho também de não oferecer soluções genéricas. Ora, as soluções que o vídeo indica -medicação, se for o caso, exercícios, descanso, meditação, contato com a natureza- não são genéricas no sentido frouxo,de uma moral de rebanho sob as vestes de dicas de bem-estar psíquico; são, isso sim, universais à natureza humana, aos nossos "instintos", essa palavra embaraçosa para gente que não pode, em sua sofisticação linguística, tolerar a dimensão evidentemente biológica que o"Trieb" freudiano tem; precisam traduzi-lo nas complicações intelectualistas da "pulsion" parisiense de fugir das verdades simples da natureza em nós e ao nosso redor, para irritação e gaia revolta argelina de um Albert Camus. 
Não por acaso o lacaniano caricato repete de seu mestre o mantra de que "a angústia é o único afeto que não mente"; falta de sorte, como a de Laranjeira, em encontrar amigos sinceros em outros afetos igualmente verídicos da existência,   como a alegria, a fé, o senso de grandeza. Nunca fui tão "gordo e preguiçoso", como o cão negro do vídeo,e  paralisado de autipiedade, quanto no período em que tentei tratar de meus sufocos na forma de uma "demanda de análise" com a cara enfiada na lata de lixo e suspirando pela fragrância da vida, e vida em abundância, que advém de outra postura, a do amor fati por tudo e todos, pelo que se passa conosco, pelo que nos advém, mesmo que seja o cão negro da depressão que, como Mefistófeles, vem nos convidar a outros caminhos e outras árvores de vida, de frutos menos bichados, à sombra das quais descansar, rolar com o bichano, reaprender a sorrir, na fidelidade a si mesmo, e então sim se reerguer, fortalecidos pela convalescência sagrada em que Nietzsche aprendeu, nas dores do parto do super-homem, a redenção do eterno retorno no amor fati, amor ao destino.  
-Unzuhause-


sábado, agosto 30, 2014

Resenhas para a Folha, 30/08/2014


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
Textos de CAIO LIUDVIK
Inventário de torpezas
(comentário sobre três livros de Bernardo Kucinski)
A  trajetória de sucesso de Bernardo Kucinski como jornalista e intelectual de esquerda se soma, mais recentemente, ao despertar como brilhante escritor de ficção. A estreia consagradora foi com o aclamado romance “K.- Relato de uma Busca”, livro de 2011 ora relançado pela CosacNaify juntamente com  o inédito “Você Vai Voltar para Mim e Outros Contos”. 
Além deles, a safra criativa conta também com “Alice – Não Mais Que de Repente”,  envolvente romance policial sobre o assassinato de uma professora de física (curso em que o autor se graduou) que nos leva para os labirintos de um país não de maravilhas, mas de horrores, vaidades, desonestidades que impõem reflexão sobre os rumos da universidade em mais um momento de grave crise como o atual. Decadência com possível marco simbólico na expulsão de alguns de suas maiores intelectuais, nos anos de chumbo, além de torpezas como a que atingiu de perto Kucinski (professor na instituição até sua aposentadoria), cuja irmã, sequestrada e assassinada com o marido, foi demitida da USP (onde lecionava química) sob a alegação de abandono do emprego.
O drama familiar foi aliás o tema de “K”. O  romance, já considerado um dos maiores retratos do pesadelo ditatorial que acaba de completar 50 anos,  mostra com pungência humana e apuro formal a jornada de K., o pai, pelos labirintos kafkianos (como realçado pela abreviatura do protagonista) de desespero e absurdo na busca de notícias sobre a filha desaparecida.
Os contos de “Você Vai Voltar para Mim”, também referentes a esse período histórico, reiteram a profundidade com que Kucinski abrange com precisão a dimensão política mas vai além dela, na meditação dos afetos em jogo, o humano que resiste a tudo o que institucionalmente o negava e massacrava.
 Como, por exemplo na comovente história (que faz relembrar a coragem de setores católicos liderados por um cardeal como Dom Evaristo Arns) da mãe que  tinha visões do Cristo crucificado se transfigurando em seu filho torturado. A denúncia da torpeza humana então entronizada como política de Estado aparece no conto que dá nome à coletânea; título que, à primeira vista romântico, na verdade é uma fala do torturador monstruoso para a sua vítima.  
AVALIAÇÃO- ÓTIMOS 

LUIZ RUFFATO, FLORES ARTIFICIAIS
A nova obra de Luiz Ruffato vem ratificar qualidades que o tornam nome tão crucial na literatura brasileira contemporânea. Desde os contos interioranos de “(os sobreviventes)" e do retrato da pauliceia dilacerada em “Eles Eram Muitos Cavalos”, o escritor oriundo de Cataguases (MG) demonstra maestria no manejo de tensões constitutivas da subjetividade nos tempos e valores que se entrechocam em nossa pós-modernidade de desassossego e sem retorno possível a um porto seguro qualquer. A epígrafe do novo romance é ilustrativa a esse respeito: “caminho nenhum / é caminho de volta”. Ou, como resume um dos personagens “Eu não tenho pátria!” Trata-se de uma transposição literária de um livro de memórias que Ruffato recebeu de Dório Finetto, um funcionário do Banco Mundial, também ele do interior mineiro  e que, desenraizado de seus laços locais e familiares, se viu lançado ao “grande mundo” por conta das sucessivas viagens a trabalho, a locais como Beirute, Havana, Hamburgo e Timor Leste. O resultado é um buquê de acontecimentos e personagens marcantes, como o próprio Finetto, retratado em “Memorial descritivo” que recua a seu tempo de menino refém das horas e magoado pelas paisagens, e a professora francesa que, na sensualidade do tango, vive uma espécie de epifania num “presente absoluto” que vem como que sublimar, dar forma, prazer e sentido, a algo que em estado bruto seria da ordem do trauma, as angústias do despertencimento histórico.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO  

EVANDO NASCIMENTO, CANTOS PROFANOS
Ex-aluno de Jacques Derrida, Nascimento exige dos leitores o que oferece a cada página: audácia de pensar fora da caixa. Sem hermetismos, o  ensaísta conjuga, nestes contos, densidade filosófica e maestria narrativa na “descontrução” irônica de velhas morais e metafísicas que, antes do niilismo, podiam esconder de si mesmo o homem, o fundo intratável do desejo, das misérias, da capacidade de fazer da Terra (à beira da catástrofe explorada num em conto futurista) o que as mitologias projetavam no inferno. 
O antídoto para a devastação existencial que nos ameaça talvez esteja no aspecto libertador das “profanações” de que falam Walter Benjamin e Agamben, ou no elogio da “razão sensível” (possível alusão a  Michel Maffesoli) que o próprio príncipe das trevas, aqui sem intermediários, como o homem no confessionário do conto de abertura, profere e sugere –em instante de generosidade paradoxal- ser a rota de saída do caos,  em perturbador autorretrato diabólico.
AVALIAÇÃO ÓTIMO


sábado, agosto 09, 2014

Plínio Marcos Universal


Uma grande descoberta por dia. Esperar menos que isso é brocha, e esperar mais é sacrilégio, se nos afastar da atenção que desfruta do que cada revelação oferece quando é a primeira e a única na sua vez. Quando faz a roda dos dias de fato avançar. A descoberta que fez dia do dia de hoje foi assim. Estava eu à procura, nos labirintos de minha biblioteca, de um material sobre a língua alemã, e de repente tive os olhos interceptados pela epifania: um livrinho de bolso, edição do autor, com a peça "Madame Blavatsky", de Plínio Marcos. A mãe da espiritualidade moderna, segundo expressão de biografia recentemente lançada entre nós, é por si só um atrativo poderoso para mim. Ainda mais quando é Plínio, mestre do teatro brasileiro, quem dá sua versão pessoal da bruxa russa, ela própria uma das versões mais interessantes, e de raízes ancestrais, sobre os mistérios que o universo guarda a sete chaves num cofre a céu aberto porém inacessível a olhares envenenados pela ruindade de espírito, materialismo científico e obtusidade de fanáticos. 
A peça, que já me programo pra reler, é pois uma versão da versão que é Blavatsky.  Ante o uno Uni-verso, todos os discursos são em sua soma confusa um cipoal de multi-versões, em disputa entre si e por nossas mentes e corações, atraídos que somos por esta ou aquela verdade menos segundo a verdade interna dessa verdade do que pela vibração entre ela e nós. Tudo isso é pântano enquanto não ascendermos para a objetividade da contemplação desarmada e universal. 
Sou mais católico hoje por vibrar em sintonia com o atual Sumo Pontífice que, em Roma, se faz tão simbólico de minha fé de nascença, mas o catolicismo atinge a catolicidade (universalidade) de seu nome, em mim,  no espírito gnóstico e alegorista que me move e me faz vibrar no dial de místicos como Madame Blavatsky e Plínio, mais conhecido pela poética da podridão brasileira e da grandeza resistente do humano que ele investiga em peças sobre o cru e cruel urbanos como "Dois Perdidos numa Noite Suja". A Noite Suja, revista do viés esotérico posterior, é a Noite Escura da alma neste mundo pérfido em que está encarcerada gemendo dores de abandono e de parto, sem parteiros que não ela própria e a graça invisível.
A peça de 1988 sobre a mística fundadora da Sociedade Teosófica é precedida por uma autoentrevista de Plínio, da qual colho uma  passagem (ver adiante) que me parece pertinente não só por definir um sentido muito pessoal de religiosidade de um dos nossos maiores dramaturgos, tido por "marginal", mas também porque esse sentido (versão) pessoal se põe à margem, forte e resistente a nossos tempos de opressão do sonho libertador no pesadelo petralha -versão degradada, até porque sentada no poder,  da teologia da libertação que, das catacumbas da opressão e censura (dentro e fora da Igreja), impulsionou a luta de esquerda no Brasil ditatorial, e que pede pra renascer, hoje, mais anarquista, gnóstica e mística, alheia aos engodos partidários que mataram a primeira "versão" dela, nos áureos tempos de chumbo da luta de Boff e de Betto. Hostil também à teologia da vulgaridade inacreditável de nossos templos de salomão para outros tantos fakes do espírito.  
Anarquista ela renascerá pela antipatia a todo poder, alegorista em sua compreensão de todas as formas de manifestação do nobre impulso religioso originário e universal (a Religião-Sabedoria dos primórdios, segundo Blavatskky),  gnóstica em sua negatividade contra todas as formas de decadência e de inferno que dominam a Criação e o Criador que nós criamos, e mística pela desobrigação com todos os nomes e fôrmas, inclusive e principalmente as que mais agradariam a nossa veleidade, libertação da própria teologia, livramento do denso manto de nomes e crendices e pavores quais formigas devoradoras a nos torturar e enredar nas dez mil versões que calam o Universal.
"- Você fala como um místico. Você é místico?
-Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-me de rótulos, por favor, e eu te explico que a busca da religiosidade nada tem a ver com seitas, Igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A religiosidade leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão.
-Mas antes você escrevia um teatro político e social. Foi preso, proibido de trabalhar em rádio, televisão, teatro, jornal, sempre por causa de suas opiniões. Por que esta mudança?
-Eu mudei no sentido de que sempre acreditei que o homem desperto tem o dever de ser mutante. Como espero continuar sempre mudando. Só o imbecil, que acha a si mesmo uma maravilha, é que não tenta mudar, crescer. Nesse sentido, eu mudei. Mas os valores que dignificam o homem e que eu preservava, esses permanecem. Continuo, com a graça de Deus, com a coragem de correr o risco por dizer o que penso, sem fazer nenhum esforço de agradar aos poderosos, aos grupos políticos ou religiosos. Nisso eu sou o mesmo. Mas, hoje em dia, eu me aprofundo mais nas coisas. E nisso há mudança. E também busco me autoconhecer cada vez mais. Vou cada vez mais me desligando das coisas. Exercito cada vez com mais energia a não-posse. Trabalho sem cessar para vencer meu temperamento. Mas isso tudo que estou tentando comigo é realmente uma mudança. Antes, eu não tentava nada disso. Mas, estar nessa não significa que parei de tentar despertar meu próximo. Tento chocar. Com muito vigor. Não faço isso por política. Faço isso por religiosidade. Mesmo considerando que toda atitude do homem é política. Tudo o que tento fazer é com o sentido da religiosidade. Porque, essa sim, é subversiva. A política é sempre a luta pelo poder. Os partidos políticos são sempre ajuntamentos de pessoas de elite com a finalidade de tutelar o povo. E os políticos lutam entre si para ver quem é o tutor-chefe. A ação deles nada tem a ver com os discursos que fazem. Mudam de pele como camaleão. Toda a ciência dos políticos se resume na habilidade do mais esperto, ou na brutalidade do mais forte. E todo os esforço dos políticos é no sentido do poder. Já o homem com religiosidade, o homem que tem o autoconhecimento, não deseja o poder. Portanto, rasga a regra, rompe a estrutura, arrebenta elos da cadeia. Subverte. Mesmo que não queira, subverte. Seu modo de ser subverte".
-Unzuhause-

sexta-feira, agosto 01, 2014

a sandália, a calcinha e o saquinho de látex


Para nossa ideologia sexual permissiva, basta camisinha para uma transa "sem remorsos" (vide link). Responsabilidade, pede essa campanha em prol de uma vida "intensa" e responsável, se mede pelo saquinho de borracha e látex que eles acham que "apaga" miraculosamente todo perigo, garante o corpo contra o ataque dos vírus e bactérias de um outro corpo. Garante mesmo? E não há tantos outros arrependimentos que podem macular, sem borracha pra apagá-los como se fossem erros de conta no colégio, toda uma vida em troca de poucos instantes do prazer dos atritos de foda? Foda como a versão degradada do fazer amor, dizia Reich, que nada tem de carola careta.  Se para adentrar na presença de Deus era preciso "tirar as sandálias" (se desnudar das veleidades egoicas e retomar o contato com a terra, o pé no chão) , será que a divindade em nós, o templo de nossa intimidade de fluidos e afetos, só requer isto de um parceiro, o tirar a cueca e a calcinha de decisões alcoolizadas seja pela cachaça ou por campanhas vulgares como esta?
-Unzuhause-
http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2014/08/01/com-imagens-provocativas-campanha-quer-promover-o-uso-da-camisinha.htm

terça-feira, julho 29, 2014

Rubem Alves vive


"O professor alto, magro, cadavérico, verde
entrega ao seu discípulo, sua imagem,
também alto, magro, cadavérico, verde, 
a prova final do saber, o diploma,
um feto morto, dentro do tubo de ensaio"
Não conhecia essa impressionante imagem, nem palavras, do grande pintor mexicano José Orozco,  grande muralista como Diego Rivera. Devo minha descoberta a mestre Rubem Alves, no livro "Por uma Teologia da Libertação", tese de doutorado em filosofia que defendeu em 1969 nos EUA. Pouco conhecida, ela  praticamente lançou o nome e o conceito que revolucionaria o pensamento teológico (católico e, no caso de Rubem, protestante) mundial ao mostrar que o evangelho de Jesus Cristo é relevante não só para a a Humanidade em geral, mas para o homem moderno que é afinal o que somos. Religião que nos religa ao reino dos céus que se soergue com mãos humanas no tempo e espaço das lutas mundanas.
 Cheio de ideias, mas falto de tempo e de vontade de compartilhar pérolas com alguns porcos dos quais farejo a visitação carente e o odor pesado ao redor do meu espaço, não sei se me dedico a comentar esta obra fundamental do mestre Rubem, que nos deixou semana passada, mas certamente seguirá vivíssimo entre nós, religado que está, agora de corpo e alma, com o espírito eterno, em vida após a morte oposta à vida morta de pseudointelectuais como os retratados nesta "formatura" de Orozco, diplomados no douto saber de porra nenhuma senão de traduções fake de sua própria escrotidão e de suas limitações pessoais e profissionais. Gente que é devota do preceito "acuse os outros de fazerem o que você faz, de serem o que você é", de Lênin, em aplicação política singular da sabedoria d' Aquele que ensinou que quem julga já por julgar está sendo julgado. Se autojulgando, como transparece a quem tem olhos atentos para além da capa boba dos gestos inócuos pra russo ver. 
Rubem também nisso é transgressor. Porque ele, no prefácio de 1987,  evoca a imagem de Orozco não para criticar os outros, mas, veja você, para se desculpar pela tese "chata" que defendera em 1969. Chata porque submissa aos cânones do discurso acadêmico comum. E chata por banalizar a própria teologia, que em comentário ao "ateísmo" de Feuerbach Rubem irá mostrar que não é uma fortaleza de tipo medieval que esconde o homem de seus pavores. A teologia é gesto de imaginação, flor frágil e ilusória, em si mesmo bela -quando não envenenada de rancores impotentes, que não ousam dizer o seu nome e suas traduções fake-, e que fala do mundo e do Criador como um jardim de cerejeiras, como os jacarandás de Buenos Aires, que o resistencialista Ernesto Sabato diz que deixamos de notar quando sequestrados pela tele-visão, não só a do aparelho televisor, mas de toda visão à distância (etimologia de televisão), de toda quimera de além que nos impeça de ver e celebrar o cristo do ínfimo, o rubem rubi deixado na calçada, a menina pérola, pérola moça, fruto do orvalho, que nos sorri de dentro da concha de onde brotou como evangelho de beleza e luz. Como disse um Rubem Alves de outras eras, o místico e poeta Angelus Silesius, "A pérola é gerada e dada à luz pelo orvalho dentro de uma concha. O orvalho é o Espírito divino, a pérola Jesus Cristo, a concha minha alma".
-Unzuhause-