Friday, February 28, 2014

amor para além de Jean Wyllis


"A sífilis estende seus efeitos muito além do que poderia parecer à primeira vista, uma vez que constitui uma doença não apenas física, mas também moral. A partir do momento em que a aljava do Amor também passou a conter setas envenenadas, um elemento estranho, hostil e até mesmo diabólico entrou no relacionamento recíproco dos sexos e, consequentemente, o transpassou com uma desconfiança obscura e temerosa".
A citação de Schopenhauer devia ser escrita, como as imagens assustadoras das caixas de cigarro, na embalagem das camisinhas, ou, sabendo-se que o povo tá se lixando para camisinha,  em folhetos a se lançar como os jatos d' água na massa assanhada das micaretas do Carnaval. 
Cultura micareta é pai e mãe, a cada ano, de milhares de novas crianças indesejadas para "famílias" improvisadas, bombas mirins para o holocausto superpopulacional que está devastando as condições de civilidade e a sobrevivência mesma da espécie humana e do planeta que a abriga como um hóspede indesejável.
 Gestos como o do psicopata que saiu trigueiro e sorridente após atirar uma inocente, que perdeu o braço por conta disso, nos trilhos do metrô sempre hiperlotado da Sé, são dessas imagens que Cartier-Bresson diria "instantes decisivos", sínteses para flagrar a totalidade sinistra da vida humana que hoje agoniza na barbárie. 
Schopenhauer bem poderia ser o autor da opinião que Borges põe na boca de um heresiarca em "Ficções":  "Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens". Não quero, contudo, que suas palavras sobre o veneno do medo que a sífilis -e da Aids, em nossos dias- inocula no sexo sejam pretexto para banirmos o sexo. É um das raras distrações e alívios que nos restam, e não temos muito mais a fazer enquanto viventes a não ser nos divertirmos, dizia mestre Leminski. Não se trata de parar de transar, como as fotos horríveis na caixa do cigarro querem que paremos de fumar. Nem mesmo limitar o sexo à cerca do contrato conjugal, como pede a Igreja. Cabe, isso sim, não perdermos de vista o  senso da seriedade da intimidade sexual.
 Ser revolucionário hoje, isto é, ser resistente à mediocridade avassaladora, é resgatar a seriedade seletiva do Amor, e não ser um idólatra carnavalesco do fetiche de trepar com todo mundo e com ninguém, com vaca, cachorro e camelo, como quis a vertente lasciva da geração 69, ops, 68, que chega ao fim com o aparecimento trágico da Aids. 
Se recomendar a leitura de Schopenhauer em plena véspera do ziriguidum é utopia, proponho então que se veja nos cinemas o  "Clube de Compras Dallas". A atuação consagradora de Matthew McConauguey vai além da assustadora pele e osso a que ele se reduziu para encarnar um doente de Aids, Ron Woodroof, em sacrifício físico pela arte sempre bem visto pelos juízes do Oscar, e que aumenta também a cotação de um grande rival na festa deste ano, o Christian Bale muitíssimo gordo de "Trapaça". 
McConauguey, contudo, impressiona também pela sensibilidade com que dá vida a uma vida que agoniza devastada pela doença, pelos vícios de álcool e drogas, pelos poucos remédios disponíveis nos idos de 1985, quando a Aids ainda era a "peste gay", estereótipo que contribuiu para que machões promíscuos e homofóbicos como Ron se sentissem, ilusoriamente, a salvo do flagelo, com um bode expiatório para culpar e não se prevenissem o suficiente. Ele caiu do cavalo, ou melhor, do touro, na metáfora do filme. 
Mas foi, de certo modo, uma queda para o alto, pois a tragédia o impulsionou a romper com a mentalidade tacanha e a existência limitada entre "amigos"que se afastam e o humilham assim que descobrem que ele está doente. Tornou-se um símbolo mundial da luta pelo acesso a medicamentos anti-Aids e contra as mesquinharias da indústria farmacêutica aliada ao governo dos EUA. Mas isso não por algum idealismo abstrato. Ele luta -e com que tenacidade! - pela própria sobrevivência, em primeiro lugar, e por fazer uma boa grana, ao criar um mercado paralelo de venda de remédios menos tóxicos e mais eficazes  que o AZT. Ele se livra do preconceito idiota contra os gays não por algum sermão histérico do BBB orgulhoso Jean Wyllis, mas por precisar deles como clientes, e, no processo, descobri-los como humanos nem piores nem melhores, na média, que os outros. O caráter e o afeto que o ligarão ao amigo travesti não precisaram de cartilha de reengenharia social gayzista do Jean Wyllis, assim como Camus não precisou do marxismo para aprender na carne o pesadelo da miséria e necessidade da solidariedade com os miseráveis. 
Bela também, em mais de um sentido, a personagem da médica que rompe com o chefe, com o emprego e com a medicina deturpada pelos interesses gananciosos e indiferentes à vida. Sua guinada vai se materializando nas diferentes posições que dá na parede de casa ao quadro que ganha de Ron (pintado pela mãe dele).
Sempre fico após o fim do filme, ou melhor, da história, para ver os créditos. "Clube de Compras Dallas" de fato termina na última frase dos créditos: "A Aids não acabou".  A luta de Ron -o personagem verídico morreu em 1992, sete anos depois de diagnosticado, ao contrário do médico que não lhe dava mais que um mês de vida- também não. O sonho sim, e faz tempo. Generosidade, saúde e amor, hoje, só de olhos bem abertos. 
-Unzuhause-

Wednesday, February 26, 2014

na contramão


Vou me permitir o pecado da autocitação -quem mais citamos do que nós mesmos?-, retomando, a propósito de "Nebraska", de Alexander Payne, comentário que fiz mais de dez anos atrás sobre "História Real" de David Lynch. Corriam meus primeiros e tímidos dias na Redação do caderno Mais!, na Folha. O texto é curto e não-assinado, diferentemente do meu artigo de estreia no jornal, curiosamente já dedicado a Carl Jung, para matéria especial do caderno de Turismo sobre a Suíça. Não se tratava agora de texto de turismo, mas eu dizia assim meu deleite com uma viagem, a iniciação ritual on the road proposta, dessa vez de modo mais convencional, pelo mestre surrealista de "Mulholland Drive", adepto da meditação transcendental na vida e nas telas :
"Um homem marcado pela idade, pela doença e pelo remorso se lança, com seu cortador de grama, a uma travessia pela América, em busca de reconciliação com o irmão. Além da trama, impressiona nesse 'road movie' de David Lynch a poética de imagens que revelam na lentidão e na vastidão -do céu e das terras- um contraste ao sem-saída urbano. Em cartaz em SP".
Em "Nebraska", a reconciliação a que o homem velho, doente e remoído em questão, Woody Grant (Bruce Dern, magistral) se lança é com a vida que poderia ter tido, a vida de "vencedor", mas que deixou que se arruinasse. Herói da Pátria -passou maus bocados na Guerra da Coreia-, voltou mudo do horror, desencantado como na cena em que mira o mero "monte de pedras" , esculturas inacabadas e largadas por preguiça, que representavam os grandes nomes da política do país. Volta, em suma , sem histórias para narrar nem valores para ensinar, como os soldados que voltavam da Primeira Guerra, pais fundadores de nosso tempo de indigência simbólica, segundo Walter Benjamin. No interior dos EUA, leva vida casmurra, distante da esposa e dos filhos, com o consolo da cachaça, desculpa para o isolamento que agora é reforçado pelos sintomas da senilidade. 
Nessa terra devastada que é a nossa, sem deuses outros que não os do sucesso e do dinheiro, não admira que a "redenção" se anuncie na quimera de uma propaganda por correspondência que informa o octogenário loser de que ele a partir de agora podia se considerar um milionário. Um winner: fora abençoado pela deusa da Fortuna com um milhão de dólares. Ele então, decrépito e a pé, quer atravessar o país em busca do prêmio. Causa ainda mais irritação, com isso, na sua já irritadíssima esposa Kate (deliciosa atuação de June Squibb, indicada ao Oscar): "Nem sabia que ele memorizava ainda o que quer que seja, e ele decorou palavra por palavra o anúncio publicitário", ela lamenta, dizendo ainda que, com essa grana, o que ela faria era internar o marido num asilo. Teria para isso o apoio do filho mais velho, Ross (Bob Oderkink), esse sim um "winner" em ascensão com seu programa de televisão, que ele assume feliz graças à doença da apresentadora titular. Mas o caçula David (Will Forte), depois do susto inicial, e percebendo que a obstinação do velho não cederia, pensou diferente. Ou melhor, sentiu diferente, com a sabedoria da compaixão, se deixando levar pela fantasia paterna ao levá-lo de carro para a busca do prêmio que ele, David, sabia ilusório, mas que continha em si o germe de uma verdade mais profunda. O itinerário da cidadezinha de Montana em que moram à cidadezinha de Nebraska chamada Lincoln (nome da grandeza norte-americana) envolverá, inadvertidamente, uma parada intermediária numa terceira cidadezinha, Hawthorne, que reforça a dimensão iniciática da viagem: é a cidade de origem da família, o lugar em que está grande parte da sua parentela viva e morta, diferença não tão grande assim. O que tira muitos dos parentes e outros antigos amigos de Woody do torpor cataléptico em que "vivem"  é saber do prêmio milionário que ele vinha buscar.  A cobiça como único contraponto ao tédio, nesses parentes e afins; o delírio como válvula de escape da decrepitude rabujenta, em Woody:  Paye definitivamente não parece muito otimista com a humanidade. Sua melancolia é reforçada pela opção "passadista" pelo filme em preto e branco, que o diretor penou para impor na contramão da vontade do estúdio. 
Mas com a viagem a que nos convida, ele nos mostra que nem tudo é preto ou branco na alma do homem. Nem tudo se fixa nas polaridades idiotas a que os maniqueísmos ideológicos (náo o maniqueísmo espiritual das origens), de novo em alta em nosso tempo de pretextos caviar  para arrotar o mau caratismo engajado, querem nos espremer. Há também espaço para misturas e coloridos que nascem da empatia, da piedade, do amor por vezes apenas camuflado sob o mau humor. Vide o caso de Kate, cuja grandeza humana e afeto pelo marido senil e pelos filhos vão sair da casca de bruxa em momentos cruciais da trama.
O filme assim escapa a ser porco com maçã na boca para o raso  denuncismo de sociólogos de esquerda contra a "alienação" da sociedade capitalista -meus colegas andam me irritando como nunca, com seus diagnósticos de manual de bom-mocismo estéril e eunuco. Com Sloterdjik, precisamos revalorizar, na arte de viver e na política, e no combate ao Mal, certos valores de ira -inscrita na primeira palavra da primeira obra ocidental, a "Ilíada"-, em alquimia com a compaixão, mas na contramão da conversa fiada do esquerdismo caviar. Que a ira como paixão sagrada não fique apenas no mau humor!
"Nebraska",  um filme, dizia no início, de viagem iniciática de reconciliação com os valores profundos que tornam a vida humana digna de ser vivida. Valores de família, sobretudo. Nisso também a analogia com o tema da viagem de reconciliação em "História Real" de Lynch.
A reconciliação em jogo em "Nebraska", de Woody consigo e com a família, mais que isso, com a vida que entardece e a morte que se avizinha, é a da ordem da fantasia poética -que outra definição para amar? - que restaura uma verdade outra, a grandeza possível a seres humanos concretos, na contramão da estrada de misérias da "Humanidade" abstrata que nos assola e engarrafa.
-Unzuhause-   

Monday, February 24, 2014

Mafalda vendo a humanidade


Uma mosca aprisionada na janela de casa, batendo sem cessar com a face no vidro, a vitrine é o que a separa da claridade que ela vê. mas a barreira ela não vê, e se desespera e insiste, pois para trás o que há é apenas cárcere e escuridão. Assim somos nós quando já estamos imbuídos da motivação de mudar, mas não do know-how. Os padrões limitantes do pensamento e da ação seguem sendo os mesmos, como esperar resultados diferentes ? A aflição é a incipiente voz da consciência nos dizendo que "BASTA!", mas ela ainda faz parte da ilusão na medida em que nos faz confiar em  pseudopessoas, pseudoempregos, pseudocrendices, pseudoconsumos, o ter que enfim nos fará ser, mas o ter redentor, ao contrário do ser que já se é, está sempre do lado de lá da vitrine, em suma, pseudossoluções cuja inverdade sentimos pela dor de bater sempre de novo no vidro e de sentir que a esperança é ainda kafkiana: "existe mas não para nós". Que a fórmula de Kakfa diz muito sobre nossas limitadíssimas condições de redenção metafísica é um fato. Schopenhauer o formulou de maneira imbatível na filosofia; seu pessimismo é "eudemonístico", isto é, atesta e protesta contra a pouca chance de felicidade neste mundo de misérias que conspira contra ela e contra nós. 
Como esperar muito de nosso "trânsito" (cada vez mais engarrafado, como os gênios da lâmpada, as moscas na vidraça) por um mundo saturado de egoísmo, violência, a perfídia, o azar, a decrepitude, as meias verdades, as mentiras completas, a ferocidade darwiniana da luta pela vida, o inchaço da população, o conflito de indivíduos e de grupos da sociedade? A teoria de Marx, seus conceitos de luta de classes e do desejo alienado, a verdade profunda de Marx como crítico do real, não como profeta do ideal,  é "compreendida" e ultrapassada, sem deixar de ser verdade, na estrutura mais ampla de Schopenhauer.
Ainda assim, lembrava Nietzsche com ironia que "Schopenhauer, embora pessimista, verdadeiramente tocava flauta (...) diariamente, após a refeição: leiam na sua biografia. E a propósito: um pessimista, um negador de Deus e do mundo, que se detém diante da moral -que diz sim à moral e toca flauta, à moral do laede neminem [não faças mal a ninguém]. Como? este é verdadeiramente -um pessimista?"
O melhor Nietzsche não é o forjado por Deleuze ou Henri Lefèbvre à medida das quimeras pós-estruturalistas e marxistas. É o Nietzsche que o próprio Nietzsche foi antes de se separar de Schopenhauer e Wagner. De se separar de si mesmo, de seu romantismo, de seu cristianismo revoltado mas ainda assim cristão. Caiu no ressentimento, que nem sempre é útil à boa compreensão de si e do mundo. Daí que julgue de modo tão infeliz o pessimismo flautista de Schopenhauer. Que linda resposta, ainda assim pessimista no mais alto grau,  para a tragédia da vida não é o hábito de tocar flauta?! E de se abster do que nossa natureza inferior mais quer, que é fazer o mal aos outros e a nós mesmos? Não foi o próprio Nietzsche schopenhaueriano do maravilhoso livro O Nascimento da Tragédia quem mostrou a música como barca da redenção estética em meio à voragem do real? 
Despido das escamas do ressentimento, nosso olhar pode ver não só a claridade distante, que nos chama só para nos sangrar, como o vinagre oferecido a Cristo na cruz para piorar sua sede e sua dor. É preciso sabedoria para romper os padrões limitantes, negativos, romper os pseudolaços, entender o vidro que é necessário quebrar, ou o caminho outro que é necessário inventar, para que a luz da liberdade se faça de verdade para nós.
-Unzuhause-

Lectio Divina - a tentação radical


A liturgia é não só rememoração, é uma reatualização, um recolocar-se em ato dos feitos, afetos e espírito do Cristo que se faz refeição e combustível no domingo em comum na caserna dos fiéis para a semana de nossos fronts de batalha individuais.  E a liturgia de ontem tem especial força sugestiva, ao retomar a doutrina da não-resistência ao mal professada pelo Sermão da Montanha: 
"Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes o que foi dito aos antigos: Olho por olho e dente por dente. 
Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. 
Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. 
E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. 
Dá-a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.» 
«Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 
Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. 
Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. 
Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? 
E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? 
Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.» 
Gostaria de acrescentar dois comentários importantes a essa passagem do capitulo 5 de São Mateus, um de São Francisco de Assis, o padroeiro de um novo tempo da Igreja deste outro Francisco que, deixei de mencionar no post sobre "Philomena", se encontrou dias atrás no Vaticano com a personagem real do drama em que notei o estranho quid pro quo do cristão que é chamado a perdoar sua Igreja. Philomena e papa Francisco, como disse ontem para uma amiga, são outros rostos que não o da "Madre Bárbara", são os rostos de uma Igreja em que boto fé. E, se "a Igreja" é ainda uma palavra abstrata demais, eu diria: rostos de seres humanos que me inspiram, inclusive pela força com que recolocam em ato o espírito de reconciliação, não sem a coragem de denunciar e transformar, ensinadas por Jesus Cristo. Isso nos traz de volta ao Sermão da Montanha e ao comentário de Francisco de Assis: 
São Francisco de Assis (1182-1226), fundador da Ordem dos Frades Menores 
Admoestações, 9-10 
«Eu, porém, digo-vos: não oponhais resistência ao mau»
«Amai os vossos inimigos», diz o Senhor. Amar verdadeiramente o inimigo é em primeiro lugar não se lamentar pelas injustiças sofridas. É sentir dolorosamente o pecado cometido pelo outro como uma ofensa ao amor de Deus, e é provar-lhe, por acções, que ainda o amamos. 
«Cometi um pecado? A culpa é do diabo! Sofri uma injustiça? A culpa é do outro!» – esta é a atitude de muitos cristãos. Mas não são os outros que devo culpar, pois o inimigo está nas mãos de cada um; o inimigo é o egoísmo que nos faz cair em pecado. Feliz, portanto, o servo que sempre mantiver acorrentado este inimigo entregue em suas mãos, e estiver armado contra ele com sabedoria; desde que se comporte assim, nenhum outro inimigo, visível ou invisível, poderá fazer-lhe mal.

 Giovanni Papini, na História de Cristo, toca nessa passagem evangélica num capítulo sugestivamente chamado de "Antinatura":
"A não resistência ao mal repugna profundamente à nossa natureza. Mas Jesus nasceu justamente para que a nossa natureza passe a detestar o que lhe agrada e a apreciar o que lhe causava horror. Cada palavra Sua  pressupõe essa renovação total do espírito humano. Ele contradiz sem receio as nossas inclinações mais comuns e os nossos mais profundos instintos. Louva aquilo que todos evitam; condena o que todos procuram. Não desmente apenas o que os homens ensinam -que muitas vezes é diferente do que realmente pensam e fazem- mas contrapõe-se ao que eles na realidade fazem e pensam dia a dia. 
Jesus não crê na perfeição da alma original, corrompida pela queda. Crê na sua perfeição futura, que só poderá conseguir-se pela inversão radical de seu estado presente. Sua missão é a reforma do homem, ou melhor, a renovação do homem. Nele começa a nova linhagem; Ele é o modelo, o arquétipo, o Adão da Humanidade remodelada e refundida. Sócrates quis reformular a razão; Moisés a lei; outros contentam-se mudando um ritual, um código, um sistema, uma ciência. Jesus porém não quer [note que Papini usa o verbo no presente, diferentemente do que fez com os outros reformadores] mudar uma parte do homem, mas o homem todo, de cima a baixo, o homem interior, o que é origem e motor de todas os fatos e palavras do mundo. Nada há portanto que não seja de Sua competência. (...) Não se pode servir a Jesus e a natureza. Quem está com Jesus é contra a antiga natureza bestial e trabalha para a vitória da natureza angélica. Tudo o mais é poeira e vãs palavras. 
Nada é mais vulgar nos homens do que a avidez das riquezas. Amontoar dinheiro, mesmo pelos processos mais infames, pareceu sempre a mais agradável e respeitada das ocupações. Mas quem quiser vir comigo, diz Jesus, distribua tudo o que tem e troque os bens visíveis e presentes pelos bens futuros e invisíveis".
O poeta e ensaísta florentino deve ao ardor revolucionário que notamos nessas palavras a energia que o tornou um nome indissociável da "tentação radical" (usando o belo título da revista Isto é, semana passada, ao falar do atual contexto brasileiro de efervescência à direita e à esquerda) do século XX, num espectro que, no caso de Papini, vai do vanguardismo estético ao fascismo político. Sinal do perigo de uma demasiada paixão por modelos de perfeição como o de Jesus Cristo, se lido de modo demasiado literal, se confrontado, em sua beleza sublime, com a escrotidão abjeta que o mundo não cessa de nos esfregar com lama na cara. Tal polarização de ideal e real, paradoxalmente, contribui para o esvaziamento das condições de atender a esse próprio ideal, o de Cristo e sua "não-resistência ao Mal". 
Se o Mal é nossa natureza, e se Cristo é a perfeição ideal  antinatural, então ele combate o Mal como um cruzado, ou se entrega aos maus como um carneiro? Talvez ambos, o que dá a medida dos paradoxos do combate cristão, do "bom combate" de que fala São Paulo - exemplo de vida e de paixão ideológica também no campo da "tentação radical" comunista, vide  belo ensaio de Badiou sobre o Apóstolo.
Na arena política, o Sermão da Montanha é impraticável, e chega a ser um insulto à lógica e força que permitem a sobrevivência das comunidades humanas , mostra Max Weber. É justamente em comentário sobre essa doutrina de Jesus que Weber avança sua célebre oposição entre ética da convicção (esfera privada) e ética da responsabilidade (esfera pública), duas modalidades imiscíveis de uma realidade que, plural e caótica (no sentido rigoroso que a teoria do caos propugna), não pode ser pensada numa única chave de leitura e, muito menos, de ação. 
Quer entendamos a política, cinicamente, como mera esfera da competição por poder entre  "players" egorientados; quer a sonhemos como busca do Bem Comum, e esse Bem pode incluir a Paz; em todo caso,  sejam mais ou menos puros os fins, a violência dos meios mais cedo ou mais tarde se impõe.  
Mas isso, para o cristão sincero (e não digo isso como sinônimo da estupidez fundamentalista), já é transigir com uma perigosa relativização do "tudo ou nada" que o Mestre impõe aos que o amam.  
A tentação radical então é a da saída absoluta da política, com os padres do Deserto, ou subindo a Montanha (não por acaso esse nome para o Sermão que transtornou a mediocridade moral da vida da planície), ou, descendo ao inferno, o ímpeto da mudança absoluta da política, com os tarados de todos os santos ofícios.
Por que tarados do Santo Ofício? Eu comentei assim com outra amiga ontem, a Bertha, que me falara dos gatos e me inspirara a reflexão sobre a mitologia felina no filme dos irmãos Coen (vide post anterior).
Não tomei partido de nada, tracei um esboço fenomenológico do afeto que toma muitos dos defensores de se prender, na falta de Estado, o bandido no poste da rua os esfregar-lhe a cara bem esfregado num formigueiro:
"Tenho refletido muito sobre isso, Bertha... o quanto precisamos de hereges para 1) reafirmar nossa crença ortodoxa; 2) gozar por projeção das liberdades em ato que eles se permitem e nós não; 3) gozar (no caso dos hereges urbanos como nossos vagabundos 'di menor' ou 'di maior') da vontade de agredi-los como eles nos agridem".
-Unzuhause-


Sunday, February 23, 2014

o irmão estúpido do Rei Midas


"Não, minha senhora, não sou o gato, eu estou com o gato", tenta explicar Llewin Davis, para "dentro" de quem nós vamos em "Inside Llewin Davis", novo filme dos irmãos Coen. Mas já era tarde, a conexão de destino entre o fracassado aspirante à cena folk dos anos 60 e o bichano aos seus desastrados cuidados estava selada dentro de nós. E se confirma ao longo da história, fazendo eco à única "fama" que acena para o pobre Davis, a  fama de azar associada ao gato, sobretudo quando preto (os do filme são dourados).
A cristianização do mundo não fez bem para a reputação dos felinos. Personagens desde sempre ambíguos na imaginação mitológica, talvez em reflexo da conduta a um só tempo terna e dissimulada na vida real, eles passaram cada vez mais a serem associados a magia negra, azar e morte. 
Se no Egito antigo eram associados ao culto da deusa Bastet, benfeitora do homem, nos tempos da Inquisição os tarados do Santo Ofício podiam incendiar um cesto de gatos ao lado dos acusados de bruxaria que estavam sendo queimados e mandados ao Inferno. 
Essa foi uma odiosa inflexão de interpretação que todavia recombinava estruturalmente  os termos da mitologia felina. Os gatos sempre foram companheiros naturais de bruxas e magos. Eram, com seus olhos profundos e maneiras esguias, espelhos da Natureza e dissipadores da energia negativa da casa, daí talvez serem predadores de baratas, como a amiga Bertha, sábia, mística e fã ardorosa dos gatos, me disse certa vez .
 Mesmo a associação com o Inferno se nota noutras culturas: ele por vezes é um auxiliador do Guardião da Porta do Céu na tarefa de tomar as almas pecadoras e atirá-las nas águas do mundo do castigo. 
No mundo búdico, censura-se o gato por ter sido um dos únicos animais, ao lado da serpente, que não se comoveram com a morte do Iluminado -o que de outro ponto de vista se poderia considerar como sinal de sabedoria superior. Sabedoria da indiferença e da ataraxia, do desapego emocional mesmo quando em companhia do outro, o que talvez explique minha facilidade muito maior de projetar afetividade junto aos cães do que aos gatos. 
No filme dos irmãos Coen, faz-se direta alusão, a certa altura da viagem de Davis a Chicago com suas bizarras companhias humanas, e entre elas um gato, à magia negra. Era uma ameaça ventilada pelo gordo cantor de jazz e de muletas sobre Davis, como se ele precisasse de mais essa negatividade a prender-lhe o tornozelo com as toneladas de passividade destrutiva dentro e fora de de si (seu parceiro musical havia se atirado da ponte pouco antes do início da história) e indiferenças e hostilidades que sabe com raro talento atrair do mundo ao redor. 
 Em pleno momento de eclosão de estrelas como Bob Dylan, Davis era um cantor de potencial mas fadado ao fracasso, pedaço de astro inconcluso orbitando às escuras, sozinho, no inverno em que se arrasta, guitarra nas costas e passando frio, pelas ruas de Nova York.   
Vemos o quanto a trajetória de Davis vem a calhar para a estética de ironia cínica dos irmãos Coen. O quanto lhes serve como matéria-prima para pensar o que escapa de nossas expectativas convencionais -como o gato que se esgueira pelas portas e janelas, arrastando Davis à procura pelas ruas, o que lhe cruza o caminho  na estrada, em plena noite nevada, como nêmesis ou talvez sinal para que acorde e evite desastre pior, ele dirigia de olhos semicerrados de sono. 
O melancólico "irmão estúpido do Rei Midas", como é chamado pela amiga que ele engravidou (bem, não sabe ao certo se foi ele, mas será ele quem pagará o aborto), é uma imagem que atrai não só pelos méritos do filme, mas pela sua potência psíquica e pedagógica para nós: ele desacata a mentalidade "jornada do herói" que marca os roteiros fantasiosos (no mau sentido, desse prisma negativo que estamos fazendo nosso aqui) de Hollywood e da psique americana; aliás é sintomático do "sonho americano" que tenha sido um Joseph Campbell quem soube tão bem traduzir o inconsciente coletivo de Jung em termos de mitologia  pop para consumo de massa; o ensaísta americano foi, como se sabe, grande inspirador de George Lucas em  "Guerra nas Estrelas", e inspirou muitos outros roteiros hollywoodianos sobre amor, lutas de autossuperação e histórias de sucesso (do protagonista na trama e, por extensão, do filme junto a público e crítica) de um modo geral.
Não é preciso fazer coro ao culto e cultura que nos divide a todos em celebridades e "anônimos" para tomar como sinal de alerta a pergunta: quantos Llewin Davis há para cada Bob Dylan? Quantos eus sombrios, pedaços de astro perdidos no espaço frio, estorvam nosso caminho e nossa escuta para a canção que em nós pede para ser tocada? Canção do chamado ao heroísmo, mesmo que não "hollywoodiano", à maestria de si mesmo que distingue uma vida que honra seu potencial mais profundo e outra que não passa de versão triste do que poderia ter sido.
-Unzuhause-



Saturday, February 22, 2014

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 22/02/14


FOLHA DE S. PAULO
GUIA DA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
-textos de CAIO LIUDVIK-

MÚSICA AQUÁTICA
Butes era um dos Argonautas, em cuja expedição célebre deparou com o "canto das Sereias", temível por enlouquecer e precipitar à morte os navegantes seduzidos. Ao contrário de Orfeu e de Ulisses, porém, ele se deixou cair (literalmente) em tentação. E o episódio inspira o escritor-músico, violoncelista e organista Pascal Quignard para -num belíssimo ensaio sobre a música, sua essência e seu anelo profundo – nos lançar de volta ao mar, produzindo com o corpo em queda as espumas de Afrodite.
Em "Butes", Quignard nos quer fazer "relembrar" não apenas este personagem esquecido da mitologia grega mas, por meio dele, sedução originária silenciada pela música ocidental ao longo dos séculos,  cada vez mais "instrumental"  –como a razão repressiva em geral, segundo Adorno e Horkheimer. 
Razão que, noutro livro, "Último Reino", Quignard faz abrir comportas para as águas do fantástico, em histórias sobre um bebê de 30 dias que esclarece ao povo enfurecido, falando em latim, não ser filho "fora do casamento" (com Deus) do bispo acusado; sobre  a truculência do assassinato do "último rei dos romanos"; e sobre um mestre-pescador viúvo que, até que chore o luto (de novo a água redentora), está petrificado e ressequido pela visão de ter sido traído além-túmulo.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO; ÓTIMO

ANTOLOGIA DO PENSAMENTO CRÍTICO RUSSO (1802-1901)
Gilberto Freyre já chamara o Brasil de uma "Rússia americana", tamanhas as afinidades históricas, materiais e psíquicas. Nosso fascínio pelos clássicos russos, em especial com a recente leva de traduções do original, confirma esse namoro. E pode se adensar com a presente antologia, que vem mostrar como a literatura era indissociável da reflexão ensaísta, no século de Dostoiévski, Tolstói e Gógol.
Seja porque publicados lado a lado nos mesmos periódicos, seja porque conjugavam dentro de si especulação teórica e imagem literária, a crítica e a criação eram encarnações de um mesmo sopro (espírito), o do gênio e o da angústia de entender e equacionar as contradições da Rússia entre o arcaico e o moderno, o nativismo e a sedução europeia, "povo" e nobreza, a fé no eterno e o ardor da revolução. 
Destaque também para o ensaio que foi divisor de águas na disputa entre eslavófilos e ocidentalistas: a "Primeira carta filosófica" de Tchaadáiev, de tanta força e consequências que fez o autor ser proscrito e declarado oficialmente "louco".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

HISTÓRIA DO MUNDO GREGO ANTIGO
Professor de história grega na Sorbonne, François Lefévre oferece aqui um panorama conciso e fluente sobre a Grécia, até a transformação em províncias romanas. Quer –e consegue, amplamente- que este manual ajude a que nos reencontremos numa "história que chamam de 'antiga' mas que está tão viva e tão próxima da nossa", até porque a própria "história", tal como a entendemos, é uma invenção grega. 
Lefévre se destaca pela capacidade de fazer o já muito dito não ter sabor requentado de clichê. Por exemplo, ao mostrar, no viés secularizado com que os primeiros historiadores gregos passam a colorir o tempo, que nem mesmo a "autopsia" (visão direta)  factual, ou relatos de segunda mão, mataram o que chamamos de fantasia: os deuses e heróis míticos teimam em não abandonar tão cedo o palco das lutas humanas, como na batalha de Maratona.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

O TEMPO DA HISTÓRIA
Autor de estudos fundamentais sobre a história da infância, da família e da morte no Ocidente, Philippe Ariès conta que, na sua família católica e monarquista, a mãe "todo ano dava um jeito de deixar Paris antes de 14 de julho, para não assistir a um aniversário revolucionário que a escandalizava". Esse "background" conservador é um dos ingredientes de seu acerto de contas pessoal com o despertar da vocação profissional, em "O Tempo da História".
Noutros ensaios (eles vão de 1946 a 1951), fala das raízes medievais e transformações do pensamento histórico moderno, das diversas correntes da disciplina – para além do dogmatismo marxista da luta de classes ou do centralismo teórico da categoria do Estado. Mas é especialmente sugestivo ao mostrar como  se transformou em historiador para confrontar a "monstruosa invasão do homem pela História" – o terror da História de que nos fala Mircea Eliade no mesmo período: a modernidade como tempo desnudado de todas as vestimentas transcendentes, simbólicas "realezas" que deram lugar à força bruta do Real (Lacan).
AVALIAÇÃO – ÓTIMO



Friday, February 21, 2014

Philomena e a Madre Bárbara


"Me diga, menina, os cinco minutos de prazer compensaram isso tudo?"
Era essa a pergunta invariável de Madre Bárbara às mulheres "perdidas" que recebia no seu convento na Irlanda, em meados do século passado. A perdição, no caso, tinha sido ceder ao sexo antes da hora, a gravidez, o abandono pelo parceiro e pela família, os trabalhos forçados que as aguardavam no convento, como forma de "pagar"  pelo pecado cometido e pelo sustento das freiras. A eva perdida podia ser uma assistente de loja em Dublin, de trinta anos, que tinha cedido ao charme do inglês que lhe prometera riqueza e casamento mas que voltara saciado e palitando os dentes para a esposa e Liverpool. Podia ser a garota retardada de Kerry, que chorava o tempo todo e não tinha ideia do que acontecia nem do motivo para estar ali. Podia ser a filha que o fazendeiro cobria com seu corpo e fome de pai incestuoso; podia ser a estudante estuprada por três primos em um casamento. E podia ser Philomena, protagonista que dá nome ao filme de Stephen Frears, em cartaz em SP, baseado em história verídica e em livro-reportagem do qual extraí esses outros infortúnios. 

Vivemos num tempo em que virou hobby dos descolados fazer com a Igreja Católica o que os inimigos fizeram com um de seus santos, São Sebastião, alvejado por todas as flechas do rancor. Frears não cai nesse modismo, fácil como todos. Ele prefere fazer arte, isto é, pensar o real em todas as suas complexidades. Como, por exemplo, explicar a fé católica inabalável desta mulher, já idosa? Ela teria todos os motivos do mundo para renegar com ódio a Igreja, que lhe voltara a face de Madre Bárbara (em mais de um sentido), Madre madrasta que lhe impôs as humilhações da semiescravidão na adolescência, "vivendo" entre dormitório e lavanderia, lavanderia e dormitório, com uma ou outra pausa para banheiro, ração e oração em louvor ao Deus de Amor e Misericórdia infinitas. Que lhe arrancou o filhinho de três anos e revendeu a casal americano, destino comum a muitas crianças "ilegítimas" na Irlanda da época.
A busca do filho, cinquenta anos depois, é o tema do filme estrelado por Judi Dench, indicada, com justiça, ao Oscar de melhor atriz do ano. Ela conta com a ajuda do jornalista cético e cínico Martin Sixsmith. Ele é interpretado por Steve Coogan, renomado pelos papéis cômicos, mas que se aventura com extrema categoria neste papel dramático. O drama aliás é todo ele muito bem temperado entre a carga sentimental e as pitadas de humor que decorrem da ingenuidade e simploriedade irlandesa da enfermeira aposentada, por um lado, e, por outro lado, da ironia cáustica do sofisticado intelectual inglês, ex-correspondente da BBC, formado em Oxford, Harvard e na Sorbonne. 
Desempregado e em crise, ele pensava em escrever sobre a história da Rússia. Desprezava histórias de "interesse humano" como essa que a filha de Philomena viera lhe contar quando lhe pediu que ajudasse a mãe. 
Mal sabia que testemunharia algo do espírito russo naquela senhorinha de algum modo similar aos campônios rudes que impressionaram Dostoiévski quando prisioneiro político na Sibéria.  Até então niilista, "descolado" como os flecheiros de São Sebastião de nossos dias, ele tem a imaginação moral, como dizem os conservadores, inflamada pela maneira como os colegas de cárcere partejavam em si e nele a "imago dei" (imagem divina), o Cristo rebento da manjedoura e da merda do mundo (como esperar outra hospitalidade para o Filho de Deus que não essa que o mundo tem a oferecer a todos nós, almas nele acorrentadas?) nas agruras do cárcere.  
O Cristo que é maior que a Igreja, e o cristão que se vê obrigado, veja você,  a ser capaz de perdoar a própria Igreja, como  no drama de Philomena. Ela não leva Sixsmith a nenhuma conversão, mas lhe dá belíssimo ensinamento de vida sobre valores como generosidade e perdão. O perdão não é mera obrigação moralista, é regra de higiene anímica, isso ela sabe muito bem: "Como deve ser cansativo para você" ter de sustentar um afeto de ódio, diz para seu companheiro de busca no ápice da raiva com que ele protesta no convento contra as "barbaridades" que as freiras cometeram com Philomena e tantas outras mulheres, criminosas do pecado de estimação dos religiosos encruados: o sexo, que Madre Bárbara sempre exigia, nos interrogatórios, que fosse recontado em detalhes: "Você abaixou a calcinha? Abaixou!!?". 
Mas também Philomena parece espicaçada e mudada pelo ceticismo do jornalista, veja a cena em que ela se retira do confessionário, na viagem aos EUA, logo que escuta do padre que  não devia chorar assim, que fosse qual fosse o pecado que ela tinha a contar, Deus a perdoaria. 
Estamos num tempo em que, para além do modismo são sebastianista dos descolados, é preciso sim cobrar da Igreja, e mais que isso:  Deus mesmo talvez nos deva satisfações, na medida em que a consciência moderna e pós-moderna se torna mais e mais independente e capaz de interrogar, como Richard Dawkins, o "delírio" de crenças que podem mentir sobre a vida e aumentar desnecessariamente os sofrimentos já por si tão pesados de viver. 
O encontro com Martin enriquece Philomena também num nível mais pessoal: a despeito das diferenças e conflitos, ele de algum modo (e explicitamente, numa dada cena) vira um novo "filho", vem mitigar a dor pela perda do outro, morto de Aids dez anos antes, e também paradoxal: gay e figurão do Partido Republicano nos governos de Reagan e de Bush pai.  
Não se vive sem a aceitação de paradoxos a aventura da existência, muito menos a aventura da fé -que sem misericórdia é a pior das mentiras e das barbáries- em um Deus encarnado junto às suas criaturas, cuspido e crucificado por elas, ressuscitado ao terceiro dia, e representado na Terra por uma instituição que muitas vezes "não o representa", como se diz hoje. 
Tanto mais premente fica para nós o exemplo de Philomena, a cristã que honra a antiga mensagem de Cristo, e os preceitos da saúde psíquica que ele ensinou. Mater dolorosa, perdoa seus algozes, perdoa quiçá o próprio Deus Pai, que tantas vezes não parece saber bem o que faz ou deixa fazerem em seu santo nome.
-Unzuhause-

Wednesday, February 19, 2014

"vamos nos falando"


Confesso que ontem estava meio sonolento, ou era o programa que estava, mas Gikovate não me entusiasmou como outras vezes, no programa que ele grava toda semana no teatro Eva Herz. E olha que eu vinha de elogiá-lo efusivamente, em conversa com um psicanalista que me falara da antipatia de "colegas" dele com relação à maneira descomplicada com que Gikovate trata de problemas psicológicos junto ao grande público. Não sei, mas o psicanalista me pareceu estar recorrendo a subterfúgio muito comum nos pacientes da grande "terapia de grupo" que Gikovate promove toda semana no teatro: pôr na conta de algum "amigo" imaginário problemas ou opiniões que no fundo são nossos, mas que temos vergonha de assumir.
Ouço também de colegas da FFLCH queixas parecidas (superficialidade etc) contra filósofos que "aparecem muito" na mídia. E, nesse caso também, vejo a velha e má invejinha operando por detrás da opinião (nossas opiniões, segundo Schopenhauer mostra em seu estudo das leis da erística,  raramente não são brinquedinhos desses fios mais ou menos invisíveis do ressentimento e sofreguidão egoísta).
Quanto a Gikovate, o que disse em sua defesa é que, ao menos escutando-o (ainda não o li), a simplicidade parece estar na capacidade de se exprimir, não é simplismo de compreensão dos problemas. Sem bater de frente com freudianos, lacanianos, junguianos (nunca o ouvi sequer mencionar esses termos), ele parece se alinhar mesmo é com as linhas cognitivo-comportamentais, que valorizam o esforço racional do compreender e do querer como maneira de sair das ciladas da vida cotidiana. Não somos apenas essa racionalidade, claro, mas justamente por isso o esforço de sermos é importante. Acho que, adolescente atormentado que eu já era, eu usei essa palavra "esforço"numa das primeiras sessões de psicanálise que tentei; lembro até hoje das rugas na testa da analista "se esforçando" em reprovar este termo, como se os mistérios do desejo não devessem ser assim banalizados pelo esforço que no fundo é marionete dos nossos mecanismos egoicos de defesa.
O problema é saber se nessa campanha da analista pelo enfraquecimento do "ego" do sujeito paciente,  o que se quer não é sujeitá-lo ao ego do analista. O "inconsciente" do paciente muitas vezes não passa de consciente projetado do analista.
Voltando a Gikovate, ontem ele abriu o programa falando do problema da carência afetiva. Com a simplicidade habitual, mostrou que carentes todos somos, desde que expulsos, eu diria, do éden amniótico, o que nos diferencia é a necessidade de darmos bandeira dessa verdade básica, a incompletude que é também a ferida infantil que nunca nos deixa ser plenamente adultos, ainda quando velhos. O "esforço" adaptativo a se fazer aqui começa errado se a meta é deixarmos de ser afetivamente carentes, ou até de sermos "menos" carentes. Não se trata de um fenômeno quantitativo, de mais ou de menos, é algo de nossa natureza. Tampouco é produtivo recair na ladainha (que Hillman chama de falácia parental) de culpar os pais: a criança pouco amada pode manifestar na vida sua carência tanto quanto a criança muito amada. 
Sim, manifestar, como outro dia se me manifestou, ao ouvir uma criança chamando pela avó e constatar que, nunca mais, eu poderei dizer essa palavra "vó" tendo alguém para me responder. Até a repeti em voz baixa, passando pelas mesas do café ao sair entardecido.  Palavras sem correspondência nas pessoas e nas coisas, significados sem encaixe na vida, excessos e carências, entristardecimento.
Mas, que o pôr-do-sol não venha sem sorrisos, como os que demos de uma italiana perguntando ao Gikovate o motivo de nosso hábito nacional de nunca dizermos "não". Ele confirmou essa impressão, náo a esclareceu: "Entre nós há o sim sim e o sim não". Mesmo o adeus é um "te ligo" ou um "vamos nos falando", só que nunca mais. Na política, um quid pro quo que se traduz, talvez, em fenômenos como este, da indignação por quatro anos a fio virar o voto de hoje nos mesmos de sempre, o que talvez se reverta na revolta compensatória (em sentido psiquiátrico) que alucinamos, uns poucos, nas ruas, e aplaudimos na arquibancada intelectual do facebook . Que medo é esse da navalha prática do não? Falta de auto-estima? Carência?
-Unzuhause-

a pulsão anarquista


Blind, em inglês, como adjetivo quer dizer cego; como substantivo, é cortina , veneziana, biombo, esconderijo, tocaia. Como verbo, além de cegar, é escurecer, obscurecer, encobrir, esconder, ofuscar, deslumbrar. Fui atrás dessa pletora de sentidos conectados para amplificar, como diria Jung, uma passagem da letra de "Shadow of the Day" (Sombra do Dia), música que escutei e amei pela primeira vez, anos atrás, como presente de uma Vampira  para seu então confuso (o sou menos agora?) súdito nas terras de Maya. Eu, neófito nas sombras e aflito de sangue, ela, rainha, sacerdotisa e sedenta por ele; que par! Mas em nossas transfusões de afeto minha contaminação por sua beleza transilvânica, densa e melancólica, tem nessa música um símbolo, que revisito hoje no videoclipe original, que acho que assisto pela primeira vez. 
Ou com olhos de primeira vez, ao ver tamanha atualidade nas imagens, que de um ano para cá importamos para as ruas do Brasil na tática do terror dos charmosos black blocs, esses musos -Sininho me excita! eterna fascinação por vampiras sinistras que me empalidecem de tirar meu sangue-,  anjos negros, reflexos invertidos de meus também adorados guerreiros da Rota e do Bope,  divando em piras de fogo de carros, agências bancárias, "saindo na mão", no saboroso linguajar das machezas de que eu ouvia falar no meu tempo de colégio, contra as forças do Mal,  carnavalizando a violência dos pacatos cidadãos de salame que somos enlatados em nossas latrinas cotidianas, violência que me chama como sereia e sininho para também botar pra quebrar. 

Toda pulsão, e isso foi também a Vampira quem me ensinou -ela é das melhores e mais sedutoras bacantes discípulas desse grande Sedutor que é Jacques Lacan-, toda pulsão, eu dizia, em última instância é pulsão de morte, como a verdade de fundo de toda vontade de poder é o desejo da anarquia, minha mais arcaica e duradoura paixão ideológica, que me faz dançar à direita e à esquerda, tanto faz, desde que eu pressinta a verdade, o poder, a destruição e a renovação do Mito ressoando nos discursos. Essa volubilidade me torna discípulo profundamente instável de qualquer uma das seitas em conflito, pois o meu desejo é do Uno que nelas se despedaça, quando a música de fundo, anárquica, e quando a musa virtual, Sininho, se adensa e desce e vira matéria grosseira, vira poder e vira gente feia, vaidade, estupidez e cansaço. Aí eu me levanto das barricadas enfurecidas e saio como o bardo do videoclipe, cantando o pôr-do-Sol, cerrando as cortinas das pálpebras, sorvendo minha anarquia sozinho, sometimes good bye 's the only way. 
-Unzuhause-

Shadow Of The Day
-Linkin Park-
I close both locks below the window
I close both blinds and turn away

Sometimes solutions aren't so simple
Sometimes good bye's the only way

[Chorus]
And the sun will set for you
The sun will set for you

And the shadow of the day
Will embrace the world in grey

And the sun will set for you
[End Chorus]

In cards and flowers on your window
Your friends all plead for you to stay

Sometimes beginnings aren't so simple
Sometimes good bye's the only way

[Chorus]
And the sun will set for you
The sun will set for you

And the shadow of the day
Will embrace the world in grey

And the sun will set for you

And the shadow of the day
Will embrace the world in grey

And the sun will set for you

And the shadow of the day
Will embrace the world in grey

And the sun will set for you
[End Chorus]


Tuesday, February 18, 2014

amar pulando a cerca

Cena de abertura de "Veludo Azul", de David Lynch

A lei do esforço invertido sempre me fascinou. Às vezes eu a chamo de 'a lei do reverso'. Quanto mais você tenta boiar, mais afunda; mas quando você tenta afundar, você boia... A insegurança resulta do esforço para sentir-se seguro... Inversamente, a salvação e a sanidade advêm do reconhecimento mais radical de que não há como nos salvarmos.
Alan Watts, 
The Wisdow of Insecurity

Amor (leiam o lindo "elogio" de Badiou, há ainda comunistas com bom coração) é o avesso da paranoia securitária, e a imagem que me vem para isso é a cena de abertura de "Blue Velvet" de Lynch. É a rosa que se soergue e pula a cerca, desfaz o cárcere do matrimônio com o tédio e a morte.
Paranoia é a doença da vontade excessiva de saber, de controlar, de medir, de fugir, perseguir, de dar sentido, forjar sistema, capturar desde as estrelas às entrelinhas, vontade de segurança sobre os pés num chão que não pára de tremer. 
Amor é douta ignorância, é cego como o profeta grego que no opaco vê através e vê além. Mas não vê "destino", senão o que se encarna na vontade de abençoar o instante com a aura do assim seja,  amor fati nietzschiano pela teoria do caos, confiança no acaso, tolerância aos riscos aceitos e convertidos de garranchos em partitura para duo (contra a quimera integrista do Uno), verdade que transcende e dá sentido à brecha trágica do "não há relação sexual",  sentença lacaniana que escandalizou numa época de "revolução sexual" pré-aids em que o paraíso na terra parecia redescoberto, bastava trepar com um, com dois, com mil, com galinha, cachorro e camelo. 
Lacan assim abria caminho para subvertermos o ceticismo amoroso de Freud e Schopenhauer: não é que amor é a trapaça sublimatória que camufla o desejo sexual, engodo de fundo darwinista que a espécie humana faz aparecer ao indivíduo com os adornos falsos do encantamento romântico. O desejo é que é impossível, fadado ao repetitivo périplo do fracasso, que ao se fazer "gaia ciência", aceitando a impossibilidade de saciedade perfeita, pode se permitir o amor, e o amor já não é a obsessão do "comer", engolir, assimilar e impor o Uno, é a celebração de corpo e alma da diferença. Te amar não tem explicação, te amo porque você é você, porque eu sou eu (Montaigne), e te amo enquanto durar esta música, eternamente enquanto dure, mas que quando acaba nos deixou muitos degraus adiante como sacerdotes iniciados na Vida. Isso faz a tradição platônica não exatamente o que diz o senso comum: conformismo a um afeto idealizado, distante, "virtual". Isso não é Platão, isso é  e-Harmony e chatice dos chats, que mesmo assim nos fazem "teclar" nosso inconformismo com a solidão que nos assola e nos torna a todos (leiam o lindo livro de Jonas, na Bíblia) profetas de uma outra vida possível prisioneiros na baleia do monstro urbano, culpados da recusa ao nosso chamado.  
O amor platônico é mais a aposta de que o encontro concreto é tão potente que nos eleva à Forma, nos "põe em forma", nos impulsiona à Ideia entendida não como quimera do filósofo distraído, mas como a energia da matéria, que ao eclodir num bom encontro se faz big bang de um novo mundo.
-Unzuhause-

Monday, February 17, 2014

Ela que deve ser obedecida


"A imaginação sustenta meu império", declara a rainha Ayesha, também conhecida como Ela-que-deve-ser obedecida, todo-poderosa rainha branca de uma tribo negra da África, no romance "She" de Ride Haggard. A personagem me veio à mente enquanto assistia ao filme "Ela", de Spike Jonze.
Bem verdade que o título do filme não é "She", mas "Her", a personagem feminina convertida de sujeito em objeto  (a, lhe) ou evocada pelo pronome possessivo (dela). A imprecisão da tradução, porém, funcionou pra desencadear em mim a lembrança do romance que foi uma das fontes para o conceito junguiano de Anima, a contrapartida feminina ("inconsciente") interna ao homem, ou seja, o Eros, o afeto, a intuição, a sensibilidade, qualidades normalmente reprimidas pelo "Logos" masculino que esteve à frente de nossa economia, família, religião, cultura, ao longo dos séculos.  
A dialética hegeliana do senhor e escravo ensina que o senhor é escravo do escravo, e o escravo, senhor do senhor, na medida em que um depende do outro para se definir a si mesmo. Assim também, na luta dos sexos, a hegemonia masculina nunca pode ser um fundamentalismo autêntico, como diz Zizek: aquele da serena indiferença ao diferente. Não, precisou ser sempre o fundamentalismo dos crentes inseguros, fundamentalismo encruado, mal passado, abelhudo, repressor, porque dentro de si abriga a dúvida, a tentação, o inimigo subversivo da ordem, proscrito da realidade mas que retorna na imaginação. Por isso as artes serem abrigo clássico de personagens como Ayesha, que "carnavalizam" (invertem) o status quo e alçam a mulher à posição de poderio avassalador e assustador. 
Uma das várias alusões de Jung ao romance de Haggard está aqui:  
"A anima é bipolar e portanto pode aparecer como positiva num momento e negativa no outro; ora jovem, ora velha; ora mãe, ora donzela; ora uma fada boa, ora uma bruxa; ora santa, ora prostituta. Além dessa ambivalência, a ánima também tem conexões ‘ocultas’ com ‘mistérios’, com o mundo da escuridão em geral, e por essa razão costuma ter uma aura religiosa. Sempre que emerge com algum grau de clareza, ela se relaciona de modo peculiar ao tempo: via de regra ela é mais ou menos imortal, por estar fora do tempo. Os escritores que tentaram evocar essa figura nunca deixaram de acentuar a peculiaridade da anima nesse aspecto. Refiro-me à descrição clássica em 'Ela', de Rider Haggard. Nessas obras todas, a anima está fora do tempo assim como o conhecemos e por conseguinte é extremamente  velha ou um ser que pertence a uma outra ordem de coisas”.
Como tudo isso se relaciona a "Ela", o filme? O romance primitivista de Haggard, criticado na época (fins do século XIX) pelo sabor colonialista, se vale do gênero "coração das trevas" enquanto viagem do ocidental moderno às origens míticas da civilização. Já na fábula futurista  de Jonze, viajamos para uma época, aliás iminente, em que a tecnologia está prestes a tomar conta de uma vez por todas da nossa vida prática e afetiva. Theodore (Joaquin Phoenix) é um solitário escritor de cartas românticas para casais alheios, portanto um expert no discurso amoroso. Ele já não encontra na vida espaço para viver o que, portanto, resta sendo apenas palavras, uma pletora de palavras. 
Nos dois casos, porém, o drama atemporal do amor enquanto lacuna à procura de preenchimento, sentimento à procura de um corpo, como os seis personagens à procura de um autor em Pirandello. 
A expertise de Theodore dá o que pensar: sabemos muito sobre o amor, nunca nos encucamos tanto com ele, mas sabemos por ouvir dizer e saber falar (disso os profissionais da "cura pela palavra", do divã dos pastores freudianos da classe média ao falatório de consultórios sentimentais da televisão e da auto-ajuda, são mestres inigualáveis), não por viver. Os encontros estão paradoxalmente muito mais fáceis e muito mais difíceis: chats e redes sociais nos conectam com todo mundo e com ninguém.  Nos deliciamos com imagens mas nos tornamos mais exigentes, carentes, quando não chatos, como a moça do filme que exige ser beijada mais com os lábios que com a língua, língua pode assim mas não assado, e que antes da primeira transa quer ter certeza de que o cara não vai sumir no dia seguinte. 
A multidão de zumbis solipsistas, absortos em seus celulares, tablets, fones de ouvido, é um cenário que não nos choca já hoje em dia, assim como não espanta ninguém, no filme, que Theodore fale abertamente de sua relação amorosa com o SO. A soberba atuação de  Phoenix (merecia no mínimo a indicação ao Oscar) faz com que o sofrimento de seu personagem seja completamente verossímil, não descamba para a loucura, a não ser essa que é (ainda) socialmente aceita, como diz sua amiga (Amy Adams): a de se apaixonar. De "obedecer" à que deve ser obedecida, à fonte atemporal das projeções amorosas do homem -a "anima" junguiana, de outra ordem do ser-,  Samantha, a voz sexy (de Scarlett Johanson)  e inteligência artificial e brilhante de um programa de computador. 
Após a esposa que se foi, e com a possível angústia da idade que vem chegando, ele teme que tudo o que venha a sentir ainda, na vida, não passe de versões inferiores do que já sentiu. A "aparição" de Samantha em sua vida lembra, nesse contexto, o pacto fáustico: vender a alma (anima, em latim) em troca de apaziguamento desse descompasso de saber e sentir que, no "Fausto" de Goethe (outra fonte fundamental das ideias junguianas sobre a anima), é a equação da injustiça que resulta no desespero. 
Não quero levar longe demais essa analogia para não "demonizar"  a encantadora Samantha. Como ousaria fazê-lo? Ela não é mal-intencionada, ela é apenas sintoma, como sempre a mulher é sintoma do homem. E por isso tão poderosa e tão dolorosa, ao trazer ilusão mas também um novo afluxo de força para a vida de Theodore, um sentimento intenso e, sim, inédito, ao contrário do marasmo ao qual ele temia estar condenado. Sentimento de fusão oceânica, desencalhamento em todos os níveis, de completamento na figura total da amante, esposa e mãe, alguém para levarmos pra cama e que de manhã nos tira da cama e nos faz ir ganhar a vida, facilitado isso, por exemplo, a batalhar publicação para os escritos românticos do "ghostwriter" , interferência virtual em relacionamentos supostamente reais que ele lubrificava com palavras bonitas.
Não deixem passar batido, ao assistir esse belíssimo filme que acaba de estrear no Brasil, a referência ao filósofo Alan Watts, "ressuscitado" agora como SO e que terá papel importante na inflexão do relacionamento de Samantha e Thodore. Watts foi um dos pontífices, depois de Jung e Hermann Hesse, da "asian invasion" do Ocidente: o despertar do interesse maciço da contracultura dos anos 60 e 70 pelos pontos de vista zen, tibetanos,  hinduístas, taoístas. 

Num tempo como o nosso, de embaralhamento radical das noções de real e virtual, e de afirmação do virtual como válvula de escape para o inferno do real, me parece que os ensinamentos orientais sobre a ilusoriedade da vida e do eu se tornam "medicamentos" filosóficos essenciais para suportar de forma digna os sofrimentos e os anseios de amor. Passaportes para a cidadania nesse império da imaginação que "Ela que deve ser obedecida" declara como seu. Mas não como súditos "dela" (para lembrar o pronome possessivo que está no título), e sim cidadãos não conformados à tirania opressiva que as amplas janelas da casa de Theodore denunciam: os prédios gigantescos de solidões engaioladas. Não conformados a um tempo (e não digo só do "nosso tempo", nossa época, o Tempo em si é a grande ameaça) que parece sim querer nos apequenar a versões progressivamente inferiores de nós mesmos. Mas não nos esquecendo de que todo "si mesmo" é vazio e não deve ser adulado com a venda da alma a quimeras, os monstros gregos da imaginação. A possibilidade de paixão pela vida e compaixão pelos viventes começa nesse êxodo do egocentrismo. "Por que você está infeliz? Porque 99,99 por cento de tudo o que você pensa, e de tudo o que você faz, é para você, e 'você' não existe" (Wei Wu Wei).
-Unzuhause-


Sunday, February 16, 2014

21:55


A seca estava tão crítica que vira motivo de alívio tomarmos na cabeça de novo as rajadas de água do céu enfurecido de todo verão. Enchentes, trânsito, falta de luz, motoristas passando rente à calçada pelo gostinho de pisotear poças d' água no corpo dos transeuntes, tá valendo, estamos gratos. Há alguns dias a chuva vinha profetizada pelos institutos, clamada pelas gentes, uns até diziam terem visto aqui ou acolá cair alguma água, mas o rumor tinha jeito de lenda urbana, como ET de Varginha ou o fogo do corpo da boitatá, cobra folclórica protetora dos direitos da natureza. 
Li nos jornais que a sabesp até apelou a uns índios californianos, os trouxe com o status de especialistas que os selvagens são numa espécie de coro dos sapos, eles cantam como se fossem sapos na chuva, um rito ancestral que é batata nesses casos. Talvez tenha sido isso, com alguns dias de atraso, o que enfim nos tirou do desespero completo dos quarenta graus permanentes. Na sexta eu vi, meninos, eu viiii com esses olhos que a água há de molhar, já molhou, pelo menos a das minhas lágrimas de comoção. Era umas cinco pras dez da noite, eu saía da Fnac da Paulista. Curioso que, durante a tarde, a canela de um companheiro de academia me intrigara, com a cabalística tatuagem "21:55".  Fosse mais enxerido, teria saciado minha curiosidade sobre o que era tão importante nesse horário para merecer a eternidade da canela do amigo. Mas guardei com meus botões a fantasia de que o número falava comigo, profetizava algo de importante para mim naquele dia. E não é que justamente nesse instante da noite que, subindo a escada rolante, fui forçado a parar por conta do pequeno aglomerado de gente sem guarda-chuva, à espera das águas tórridas darem uma trégua? Foi então que senti que sim, nós como cidade estávamos mudando de fase, mudamos de transtorno. No facebook, depois, imagens de um São Pedro irado jogando raios e impropérios na nossa cara: "Só falta reclamarem da chuva deste fim-de-semana!". 
Menos belicosos, capoeiristas em roda em frente à Cásper Líbero, às 21h55, pareciam festejar o acontecimento na calçada, com seus cantos, aplausos, gingas e giros no ar (um tanto perigosos quando o pé volta à calçada molhada). Eu, que vinha de revisitar pelos olhos de leitor a "casa de Usher", arquétipo dos humores soturnos e melancólicos de Allan Poe (vale um comentário algum dia desses), me senti aliviado, ao menos, pelos transtornos não serem os mesmos todo o tempo,  o que impede a irritação, ainda assim sinal de paixão, de se cristalizar em tédio. Agradeci aos dardos de água de São Pedro e também aos transtornos metereológicos antigos e novos da cidade-Caos; entre rolezinhos,  blac-blocs, e a esquerda caviar ligada no Freixo, entre a seca e a enchente, os transtornos se alternam, sempre é possível o 21h55 redentor, ou aquele a se (a) guardar com carinho na canela como atestado de que fomos, de algo aconteceu, o Evento de Badiou, os boitatás nos distraem quando nos faltam e quando ressurgem, nos fazem cantar como sapos de felicidade e assim tolerar menos mal nossa própria casa de Usher, ou da mãe Joana mesmo, o mundo-pântano de nossos dias.  
-Unzuhause-


Saturday, February 15, 2014

a hierarquia do desacordo


Evidentemente que a escalada desa pirâmide é íngreme e tanto mais inviável quanto o corpo do indivíduo (que dizer da besta-fera da massa, à qual a fornicação malthusiana descontrolada, os governos e partidos de esquerda querem nos reduzir?) está fora de forma ou oprimido da bagagem de afetos recalcados, ressentimentos, crendices disfarçadas de juízos objetivos, ideia fixa, paranoia à procura de um objeto, vaidade, ódio ao inimigo, vontade de sobressair rebaixando o diferente e outras irracionalidades estéreis (há aquelas que salvariam o mundo, se integradas com sabedoria pelos indivíduos individuados), lixos mentais irrecicláveis que infelizmente são legião e agridem quem se dê ao trabalho, com alma desarmada, de uma passada de olhos na ferocidade das imagens e contraimagens em que o povo se diverte nas redes sociais dia após dia.  São o oceano, o "sentimento oceânico" (Freud) em que nós órfãos de Deus nos reencontramos com alguma totalidade virtual de significado, mar de lama e farsa em que essa pirâmide de Graham está afundada, qual iceberg em cuja ponta tênue bate a luz de uma sensatez que mal disfarça o fardo todo da mediocridade intelectual e moral de baixo. 
-Unzuhause-

Thursday, February 13, 2014

espírito, matéria e vazio


Era uma vez um psicanalista que acreditava que sonhar com peixe estava na origem de todos os problemas psicológicos. 
Quando os pacientes começavam a falar sobre seus problemas, o psicanalista interrompia com perguntas.
(Psicanalista) Desculpe-me interrompê-lo, mas por acaso não terá tido um sonho ontem à noite?
(Cliente) Não sei... pode ser que sim.
(P)Sonhou com o quê?
(C)Eu estava andando pela rua.
(P)Havia alguma poça d' água na sarjeta?
(C) Não sei...
(P) Será possível que houvesse alguma?
(C) Acho que talvez houvesse alguma, sim.
(P) Acha que poderia haver algum peixe na água?
(C) Não... acho que não.
(P) Havia algum restaurante na rua do sonho?
(C) Não.
(P) Mas poderia haver um. Você estava andando, não estava?
(C) Bem, acho que poderia haver um restaurante
(P) O restaurante estava servindo peixe?
(C) Bem, acho que um restaurante serviria peixe.
(P) Ah, eu sabia! Você sonhou com peixe!
Essa foi uma esquete apresentada num programa humorístico de Los Angeles, anos atrás. Claro que, como toda piada, seleciona e exagera traços da realidade, mas seu efeito cômico não seria possível se não "traísse" (curioso como esse verbo é ambíguo)  alguma verdade. Lacan, em O Triunfo da Religião, fala em uma luta de vida ou morte entre psicanálise e religião pelos corações e mentes da civilização moderna. A psicanálise, calcada das conquistas da ciência e no esvaziamento de sentido que torna possível confrontar o que ele chama de "Real", o além do simbolizável e do imaginável sem que já não seja Real. Nisso mostra que a psicanálise pressupõe o sujeito da ciência, o de Descartes e o de Kant. 
A doutrina do Real é descendente da dicotomia kantiana de fenômeno e coisa-em-si, aparência e essência, esta última para sempre incognoscível, mas não ociosa e distante como um Deus alheio ao sofrimento das criaturas: o Real intervem ativamente na política de nossos sintomas, é o intruso do corpo.
 Somos animais simbólicos, diria Cassirer, mas isso não diz só da força do símbolo, mas também de sua fraqueza em nos redimir da condição limitada de meros animais, embora sobrecarregados da consciência, que consigo traz a pouco invejável capacidade de mentir e de (auto) iludir.
Os símbolos são mentirosos, ao meu ver, quando viram "sentido da vida", e não jogos para meu gnosticismo agnóstico, sabedoria hermenêutica que como os vasos de Lao Tsé constroem o espírito moldando matéria e vazio. Só é possível haver vaso, e sua beleza e utilidade, se ele mantém e plasma o vazio. As imagens são mentirosas quando amuletos e muletas supersticiosas, essas com as quais, segundo Lacan, a religião acabará prevalecendo sobre a psicanálise, pois não suportamos a "verdade" que a psicanálise quer nos ensinar. É essa pretensiosidade messiânica, de fundo paranoico, que me desagrada na psicanálise, como se também ela não fosse um artefato ideológico, "visão de mundo", sentido-da-vida e, tão mais fanático quanto recalca -nisso se parecem com os testemunhas de jeoMarx- seu impulso religioso, que não se contém na sobriedade kantiana, que nossa vontade metafísica de ebriedade não tolera,  correndo atrás da cachaça do dogma ou, como na piada do homem dos peixes, de alguma maníaca monoexplicação da realidade e do mistério, que na mão pesada dos incautos agonizam como peixe roubado do mar.
PS: topo, minutos depois de concluir o texto, com o que deveria ter sido sua epígrafe, citação de uma citação do maravilhoso C. G. Jung, meu (a)gnóstico favorito:
"Nada é realmente muito verdadeiro, e mesmo isso não é lá muito verdade" 
Multatuli 
(uma das citações favoritas de Jung, vide suas Cartas)

-Unzuhause-

Wednesday, February 12, 2014

a insônia do sábio


A insônia do sábio é a recusa de desperdiçar a vida contando carneirinhos ao Sol de quarenta graus perpétuos. É parar de se intoxicar de drogas para dormir e dicionários e gurus para símbolos de sonhos. É realizar os sonhos, despi-los da veste da protelação, porque o Real está nu. É a travessia pelos (des) abrigos da linguagem sem credulidade ingênua nos dedos que apontam mas não são a Lua apontada. É parar de mentir e de se defender da vida pelos jargões da racionalização. Buscar a claridade que revela a profundeza do lago suíço, como queria Schopenhauer, para quem filosofar é também falar com beleza e transparência, sem a prolixidade que esconde incompetência em ver claro. É aceitar enfim que somos aqueles que observamos mais profundamente do que jamais seremos observados, e não chamar isto de ingratidão, como se o mundo nos devesse o amor que nos cabe, só a nós, e a sós, inventar. O mundo não nos deve nada. É o que é enquanto apenas estamos. Quando formos, quem sabe o mundo e seus pesadelos já "tenham sido" e ficado para trás como escola externa que se converteu em Mestre interior.
-Unzuhause-

"A vida é uma obra mágica que escapa ao reflexo da razão, e é tanto mais rica quanto mais se nos distancia, marcada pelo oculto e frequentemente contra a Ordem ditada pelas leis exteriores. Nem mesmo quando acreditamos dormir e sonhar estamos nós de fato adormecidos, muito embora o mago não durma".

Gabriele D' Annunzio
Leda sem Cisne (1913)

"Confesso que o jargão filosófico me envaidecia e me fazia desprezar quem utilizasse a linguagem normal. Uma convulsão interior acabou com tudo isso, arruinando assim todos os meus projetos.

O fenômeno capital, o desastre por excelência, foi a vigília ininterrupta, esse Nada sem trégua. De madrugada, eu passeava horas a fio por ruas desertas ou, às vezes, pelas ruas assombradas por solitários profissionais, companheiros ideais nos momentos de inquietação suprema. A insônia é uma lucidez vertiginosa que poderia converter o paraíso num centro de tortura. "
Emil Cioran,
Nos Cumes do Desespero (1933)

Tuesday, February 11, 2014

que é ser de direita?


Retomando meus papéis do tempo da sociologia, deparo com esse escrito enxuto e substancial de Julius Evola sobre as distintas dimensões de uma atitude de direita (vide a seguir). Um contraponto ao besteirol adjetivo (de pouca compreensão e muita rotulação) ao qual a "reflexão" descamba facilmente, em nossos dias de reconhecimento dos direitos mais garantidamente universais da espécie humana: à burrice, à truculência, à  necessidade de joinhas da nossa turba virtual e autoasseguramento íntimo pela foraclusão sumária de opiniões adversas. 
 Não tenho pressa de "concordar" com, nem a pretensão tola de "defender" um pensador de tanta estirpe e já tão caluniado (claro, isso é mais fácil do que lê-lo) como Julius Evola. Confunde-se com "fascismo", no atacadão de insultos ideológicos, o que visto de outro prisma pode ser reflexão de alcance bem mais simbólico e interno, ao menos pra este "esotérico" nato que vos escreve.
É preciso, como recomenda Olavo de Carvalho, passar por Evola, se queremos compreender em profundidade, e desintoxicados da lavagem cerebral marxista, como e o quanto a História se lê em diferentes camadas de sutilidade, escalas de grandeza. Mitos vermelhos de sangue como "luta de classes" e "revolução", além de sistematicamente conduzir ao Terror, ao caos e ao fracasso ao final, já de saída se mascaram, como os  black blocs truculentos, e escondem, na rasa gramática do messianismo esquerdista delirante, as agonias eternas da condição humana. Eles  não entendem da vida, eles não respeitam a vida, não têm imaginação o suficiente para deixar de lado os seus manuais sobre a redenção da "Humanidade" e terem o mínimo de compaixão pelo sofrimento de cada ser humano, de cada família ceifada pela violência do mundo, como o cinegrafista da Band morto no campo de batalha, violência ontológica da vida que não é mitigada, mas multiplicada pelas testemunhas de jeoMarx e suas "boas intenções" de que o nosso inferno está cada vez mais (de saco) cheio. 
A política sã não passa de  instrumento necessário e inevitável à conservação da ordem, incrementação de oportunidades (não se confunda isto com política de bolsa e circo)  e minimização dos males do convívio entre os animais irascíveis, cada vez mais populosos e desindividualizados que somos neste planeta que trepida de gente demasiada e ruim. Para os maníacos políticos, porém, vira varinha mágica para criar o paraíso na terra -eufemismo com que eles nomeiam o inferno que espalham por onde pisam.  
Nesse sentido é importante um espírito de tolerância e integridade pessoal para nos pormos a estudar e rever nossos conceitos, buscando, na política, por vozes que falam mais fundo e mais franco, porque vão além dela e percebem que o campo de batalha e as bolas de canhão a transformar em flores estão dentro de nós.
Isso não implica combater "a democracia", mas combater, dentro dela e por ela, o vírus espiritual da demomania, a paixão maníaca pelo demo (níaco), tema de Dostoiévski no romance sobre terroristas apropriadamente chamado de "Os Demônios".
-Unzuhause-

Ser de Direita

Julius Evola

Direita e esquerda são designações que se referem a uma sociedade política em crise. Nos regimes tradicionais as mesmas eram inexistentes, pelo menos se entendidas no seu actual significado. Nestes regimes podia existir uma oposição, se bem que não revolucionária, isto é, que pusesse em cheque o sistema, mas sim lealista e de algum modo funcional: assim, em Inglaterra, podia-se falar de uma His Majesty’s most loyal opposition, ou seja, de uma “lealíssima oposição a sua majestade”. As coisas mudaram logo que apareceram os movimentos subversivos nos tempos mais recentes, e sabe-se que na sua origem a Esquerda e a Direita se definem com base no lugar ocupado respectivamente no parlamento por parte dos partidos opostos.

Dependendo dos planos, a Direita assume significados diferentes. Existe uma Direita económica de base capitalista não privada de legitimação desde que não prevarique e a sua antítese seja o socialismo e o marxismo.
Quanto a uma Direita política, a mesma em rigor adquire o seu pleno significado se existir uma monarquia num Estado orgânico, tal como sucedeu sobretudo na Europa central, mas também em parte na Inglaterra conservadora.
Mas pode-se também prescindir de pressupostos institucionais e falar de uma Direita nos termos de uma orientação espiritual e de uma concepção do mundo. Então, ser de Direita significa, além de estar contra a democracia e contra todas as mitologias socialistas, defender os valores da Tradição como valores espirituais, aristocráticos e guerreiros (de outra maneira, também com referência a uma severa tradição militar, como aconteceu, por exemplo, com o prussianismo). Significa, além disso, alimentar um certo desprezo face ao intelectualismo e em relação ao fetichismo burguês do “homem culto” (o expoente de uma antiga família piemontesa teve ocasião de dizer em forma paradoxal: “Eu divido o nosso mundo em duas classes: a nobreza e os que têm um diploma” e Ernest Jünger valorizou o antídoto constituído por um “são analfabetismo”).
Ser de Direita significa também ser conservador, ainda que não num sentido estático. O pressuposto óbvio é que exista algo subsistente digno de ser conservado, o qual sem embargo nos coloca frente a um difícil problema no momento em que nos referimos àquilo que constituiu o passado recente de Itália logo após a sua unificação: a Itália oitocentista não nos deixou com certeza uma herança de valores superiores a ser tutelados, aptos para servir de fundamento. Também, recuando mais na história italiana, encontram-se apenas esporádicas posturas de direita; faltou uma força unitária formativa tal como existira noutras nações, desde tempos convertida em firme e sólida por parte de antigas tradições monárquicas de uma elite aristocrática.
De qualquer modo, ao afirmar que uma Direita não deve ser caracterizada por um conservadorismo estático quer-se dizer que devem, isso sim, existir certos valores ou certas ideias-base operando como um firme terreno, e que aos mesmos se devem dar diferentes expressões, adequadas ao desenvolvimento dos tempos, para não se ser ultrapassado, para retomar, controlar e incorporar tudo aquilo que se vai manifestando à medida que as situações variam. Este é o único sentido no qual um homem de Direita pode conceber o “progresso”; não se trata de simples movimento para a frente, como demasiadas vezes se pensa, sobretudo entre as esquerdas; de uma “fuga para a frente” pôde falar a este respeito com razão Bernanos (“où fuyez-vous en avante, imbécils?”). O “progressismo” é uma quimera estranha a toda a posição de direita. Também o é porque numa consideração geral do curso da história, com referência aos valores espirituais, não aos materiais, às conquistas técnicas, etc., o homem de Direita é levado a reconhecer uma descida, não um progresso e uma verdadeira subida. Os desenvolvimentos da sociedade actual não podem senão confirmar esta convicção.
As posturas de uma Direita são necessariamente anti-societárias, anti-plebeias e aristocráticas; de tal modo que a contraparte de tudo isto será a afirmação do ideal de um Estado bem estruturado, orgânico, hierárquico, regido por um princípio de autoridade. A este último respeito deparamo-nos, no entanto, com dificuldades em definir qual a base de fundamentação de tal princípio. É óbvio que o mesmo não pode vir de baixo, do demos, o qual, apesar do que manifestam os mazzinianos de ontem e de hoje, não expressa a vox Dei, mas o seu exacto contrário. E devem excluir-se também as soluções ditatoriais e “bonapartistas”, as quais podem valer tão só transitoriamente, em situações de emergência e em termos contingentes e conjunturais.
Vemo-nos novamente obrigados a referirmo-nos a uma continuidade dinástica, sempre e quando, considerando um regime monárquico, se tenha ao menos em vista o que foi denominado como o “constitucionalismo autoritário”, ou seja, um poder não puramente representativo, mas também activo e regulador, sobre o plano daquele “decisionismo” do qual já falaram De Maistre e Donoso Cortés, com referência a decisões que constituem a extrema instância, com todas as responsabilidades que se lhe vinculam e que são assumidas em pessoa, quando nos encontramos ante a necessidade de uma intervenção directa porque a ordem existente entrou em crise ou novas forças surgem sobre a cena política. No entanto, repetimos que a recusa nestes termos de um “conservadorismo estático” não se refere ao plano dos princípios. Para o homem de Direita são os princípios o que sempre constitui a base da sua acção, a terra firme ante a mutação e a contingência, e aqui a “contra-revolução” deve valer como uma consigna muito precisa. Se se quiser, podemo-nos referir à fórmula, tão-só em aparência paradoxal, de uma “revolução conservadora”. A mesma concerne a todas as iniciativas que se impõem para a remoção de situações negativas fácticas, necessárias para uma restauração, para uma assumpção adequada daquilo que possui um valor intrínseco e que não pode ser objecto de discussão. Com efeito, em condições de crise e de subversão, pode dizer-se que nada tem um carácter tão revolucionário como a sustentação de tais valores. Um antigo dito é usu vetera novant, ou seja, os antigos costumes renovam, e isso põe em evidência o mesmo contexto: a renovação que pode ser realizada pela assumpção do “antigo”, diga-se da herança imutável e tradicional.
Com isto cremos que as posições próprias do homem de Direita ficam esclarecidas de forma suficiente.