Wednesday, April 30, 2014

a monstruosidade de Cristo


Acaba de sair no Brasil, em tradução da editora Três Estrelas (selo da Folha de São Paulo), um dos estudos teológicos mais impressionantes com que tive contato nos últimos anos: A Monstruosidade de Cristo, livro que traz dois artigos de Slavoj Zizek e um de John Milbank.  
Quando o li pela primeira vez, me senti alimentado de infinitos subsídios para pensar os nexos entre teologia e filosofia, e a problemática presença de Deus num contexto secular que, arrogante, o dava até pouco tempo atrás como "morto". É hora de reler.
A questão da morte de Deus está no centro da pauta. Aqui, explorada não da maneira mais habitual, nietzschiana. Foi o discípulo de Dionísio quem, como se sabe, fez a mais famosa declaração de óbito do Deus judaico-cristão, num fragmento de A Gaia Ciência:
Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – Gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? (…) Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais – quem nos limpará este sangue? 
Morte da Morte de Deus
Em A Monstruosidade de Cristo, porém a referência filosófica de que os dois autores partem é a "morte de Deus" na versão de Hegel, que é quem também definiu Cristo como um "monstro" ao se referir à sua constituição ontologicamente "anômala", híbrida entre o humano e o divino.
Zizek retoma a meditação hegeliana da morte de Deus de uma maneira bastante heterodoxa. Contra a "morte da morte de Deus", ou a ressurreição do fantasma divino em tempos de esgotamento de evangelhos profanos como o iluminismo e o marxismo clássico - o próprio Zizek é expoente de uma nova formulação da "hipótese comunista", como diz o amigo dele e também grande filósofo da nova esquerda, Alain Badiou.
Mas Zizek não se limita como um Richard Dawkins à liturgia previsível de contrapor à "superstição" religiosa as "verdades" da ciência. Ele é mais sutil que isso, pois sabe que a própria ciência se presta a todo tipo de usos e abusos como ideologia, falsa consciência, "religião". A sociedade que sempre se projeta a si mesma, em suas cisões, contradições e embustes, em suas crenças que se configuram como imagens de mundo que  cada época escolhe, impõe contra alternativas, e consagra como se fosse o mundo em si, e não uma imagem dele.
Qual um analista da escola de Lacan - para evocar o outro grande autor, ao lado de Hegel e Marx, que sustenta e tonifica a "ressurreição" do comunismo no evangelho zizekiano-, o pensador esloveno exercita uma espécie de escuta ativa da "travessia do fantasma" cristão da civilização ocidental. Não para meramente eliminá-lo (parem de acreditar, Deus está morto sim, ou melhor, nunca existiu), e sim "superá-lo" dialeticamente, e deixar aflorar a verdade, o núcleo traumático e valioso, que tal fantasia portava distorcidamente. 
 Jesus Cristo é "monstro", diz Zizek, não sem indisfarçável admiração, dessas que nos faz elogiar um grande esportista, por exemplo, como um monstro (termo menos banalizado hoje em dia do que, infelizmente, o que estão fazendo da sagrada palavra "gênio"). Filho de Deus, Filho do Homem, o Cristo zizekiano é  o Deus que ao se encarnar como homem e ao morrer na Cruz representou o apocalipse do próprio divino. 
Solidariedade e revolta
Apocalipse que deve ser saudado em seu potencial revolucionário: o que resta vivo do Deus morto (quiçá daí a expressão Novo "Testamento"?) é um Espírito Santo que não pode ser senão o amor comunitário entre nós, os órfãos de transcendência. 
Resta, e já seria muito, a aceitação do mundo imanente como ele é, e o afeto dos homens entre si, não porém em igrejas tradicionais mas no engajamento político radical, novamente em pauta nestes tempos de crise do capitalismo global, catástrofes ambientais, mal-estar e  revolta contaminando ou fertilizando as ruas de uma nova solidariedade entre cidadãos que estão fartos de um Estado que insiste em não nos representar e em gozar de nossa cara, como um demiurgo palhaço, cruel e impotente. Solidariedade, penso eu, que como tudo que provém das energias mais profundas da psique coletiva não tem um significado único, fixo, uma única ideologia. Uma energia que pode assumir a gramática de uma denúncia da farsa da Copa do Mundo ou descarregar-se na fúria que amarra ao poste criminosos que, combatidos não por quem de direito, se tornam os bodes expiatórios de nosso pânico.
Já John Milbank mobiliza um arsenal de referências como Chesterton -o autor de "Ortodoxia" é também muito comentado por Zizek-,  Tomás de Aquino e a mística de Mestre Eckhart, e sintetiza o que entende por uma "ortodoxia radical", de grande repercussão nos debates teológico-políticos da atualidade. Trata-se de uma valorização do eterno paradoxo das relações entre Criador e criaturas, sua consequência numa nova teoria da democracia e sua oposição à dialética histórica cuja linha direta iria das "Luzes" teocidas do Esclarecimento ao incêndio em massa de corpos humanos na pira sacrificial das ideologias de esquerda ou de direita.
UFC das ideias
"A Monstruosidade de Cristo – Paradoxo ou Dialética" é um verdadeiro "ultimate fighting" intelectual, como diz o organizador Creston Davis. Um debate filosófico, teológico e político de altíssimo nível, sobre o significado do aparentemente dócil Nazareno que "monstruosamente" transtornou a história e dividiu o tempo em a.C. e d.C. No corner à esquerda, Slavok Zizek, robustecido da habilidosa articulação que promove entre o materialismo hegeliano-marxista e a psicanálise de Lacan e do fervor de seu apostolado contra o capitalismo global e suas quimeras ideológicas, como o "multiculturalismo". Não por acaso resgatar aqui as dimensões religiosas universalistas –de tipo cristão- da humanidade ocidental, afirmando porém a morte de Deus como consumação lógica autêntica da Revelação de Jesus Cristo. À "direita", segundo sua provocação ao "fascismo light" do oponente, ele vê John Milbank e, mais que isso, as teologias pós-modernistas à la John Caputo e Derrida, e idealistas obscurantistas como Jung. Diz que seu ateísmo é "mais cristão" que a fé de Milbank, o qual por sua vez reclama um "Zizek católico" desde que purificado da canga niilista e posto no bom caminho do paradoxo, fora da dialética. Provocações não gratuitas, mas que atestam que, para ambos, o debate frutífero não é um morna e politicamente correta tolerância, "cada qual com seu cada qual" em posições irredutíveis, mas também incomodar a posição do outro, atritar e assim gerar uma nova luz.
O livro também ecoa debates cruciais como o da "teologia da morte de Deus" articulada sobretudo entre pensadores protestantes no século XX, e abre possibilidades infinitas para quem, como eu, vive a inquietação intelectual e o dilaceramento de consciência entre a crença e a dúvida, que muitas vezes me empurra para a solução "monstruosa" de me considerar um "(a) gnóstico", oscilando, como o poeta bipolar de Quintana, entre a suspeita moderna e a sede ancestral pelo sagrado:


- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! - Você é louco? - Não, sou poeta.
(Mario Quintana, "Simultaneidade")
O bipolar (a) gnóstico
 Invejo quem tem mais sucesso em acreditar cegamente seja em si mesmo ou em verdades absolutas sobre o mundo. Meu destino é ser recolhido ou forçado a uma humildade que me aproxima por temperamento mais dos agnósticos que dos ateus. E a uma sensibilidade atraída pelos gnósticos, ou seja, pelos que ao invés de acreditar em dogmas e instituições, procuram o divino dentro de si mesmos. Nada mais budista do que um cristianismo gnóstico. 
Gnósticos também são os adeptos da ideia de que, acima do demiurgo perverso que criou este mundo de brutalidade e injustiças (o javé judeu), há um pai silencioso, escondido, a quem é nosso destino regressar após nos purificarmos das poluições do mundo corrompido pelo pecado. Harold Bloom mostra bem a diferença entre fé e saber no âmbito religioso:  “Se você pode aceitar um Deus que coexiste com campos de extermínio, com a esquizofrenia e a AIDS, e, ainda assim, permanece todo-poderoso e de algum modo benigno, então você tem fé [...]. Se você tem afinidade com um Deus estranho ou estrangeiro, apartado desse mundo, então você é gnóstico”.Este texto é citado e criticado por Zizek, numa passagem em que ele martela seu repúdio ao gnosticismo, antigo ou moderno (Jung). Para Zizek, o gnosticismo é uma espécie de má-fé. Uma fuga envergonhada do fardo de acreditar. Quem crê, como diz São Paulo ainda vê em parte, mas não face a face, aquilo em que acredita.  Na crítica de Zizek -aqui curiosamente bastante cristão, à maneira tradicional-, a gnose é a fé que se esconde na soberba de um suposto "saber" (gnosis, em grego). 
Outra bipolaridade que este livro assedia em minha alma é o medo e o desejo por uma teologia de esquerda. Vejam bem, não se trata de petismo, lulismo, a esquerda é ideia nobre, arquetípica demais para se restringir a discussões partidárias. Juntamente com o livro de Eagleton, "Doce Violência", sobre ou para um marxismo trágico (cf.  minha resenha para a Folha em post recente), "A Monstruosidade de Cristo" aponta caminhos, não necessariamente os que os seus autores preferem, para uma nova teologia da libertação, mais cética, mais niilista, menos preocupada em agradar ou desagradar, sofrer e atacar no intramuros de instituições eclesiásticas. Uma teologia de filósofos, de livres pensadores, de homens de bem, de gnósticos, agnósticos, (a) gnósticos, ateus, enfim, de gente que entenda o peso que o simbolismo da fé tem como estímulo para a transformação de um mundo que geme agonias de parto ou de morte. Depende de nós.
-Unzuhause-