domingo, abril 06, 2014

a ponte aérea franciscana


Prossigo minhas meditações franciscanas com Francisco de Roma sobre a questão da solidariedade. Elas têm sido de um enorme valor terapêutico na reforma íntima de meus gens egoístas, como diria o biólogo e divertido polemista ateu Richard Dawkins. 
Não me torno necessariamente menos egoísta,  até porque não deixo nunca de ter ego (o individualismo é, além de vontade natural, uma barreira cultural dificílima para uma real vivência do nirvana para ocidentais). Mas abro pontes para o além-ego com pontífices como Francisco de Roma, ou o de Assis, sobretudo com o Mestre de ambos,  o Mestre interior da Nazaré que há em todos nós.  
Faço-me eu próprio meu pontífice para o além-ego, tripulante nos oceanos do transpessoal, me descobrindo  a pessoa pulsante, passante, dinâmica, em trânsito,  que posso ser para mim e para o outro, entre ambos, além dos dois, no furo lógico, terceiro incluído, no nível de humildade em que a solidez solitária é também solidez solidária. 
Francisco mostra que não são ideologias, liberalismo, esquerdismo, terapeutismo, ismos quaisquer,  que vão permitir tais proezas existenciais. O homem secular, ideologizado, não é sem fé, não lhe faltam crenças, elas são é demasiadas e ruins, seu problema é a fé que fede a mofo, a mentira, a (auto-) enganação. Superstições antropocêntricas com verniz de uma racionalidade que a vida não tem, que o amor não tem, falácias estéreis que aprisionam o homem na pedra-crânio de  certezas abstratas, pedra de sísifo (em) que o homem rola pra cima e pra baixo no hades do seu absurdo. Trabalhador da monotonia, Sísifo é o simbolo ao avesso do trabalho que dignifica o homem e que o aproxima dos outros, nas alegrias e dores, nos frutos e nas cãibras. 
-Unzuhause-

"Lembro o caso de uma família portenha de ascendência vasca. Corriam os anos 1970, e o filho estava muito enfronhado no protesto social. O pai era um pecuarista daqueles. Havia problemas ideológicos sérios entre ambos. Como os dois respeitavam muito um sacerdote idoso, convidaram-no para almoçar para que os ajudasse a resolver o conflito. O sacerdote foi, escutou-os pacientemente e, por fim, como velho sábio que era, disse: 'O problema é que vocês se esqueceram das cãibras'. Pai e filho, desconcertados, perguntaram: 'Que cãibras?' E o sacerdote respondeu, enquanto apontava para eles: 'Das cãibras de seu pai e de seu avô, por se levantar todos os dias às quatro da madrugada para ordenhar as vacas!'
-Realmente o sacrifício faz ver as coisas de outra maneira.
-Primeiramente, nos afasta das teorizações estéreis. O pai havia se entregado, digamos, ao establishment e o filho havia abraçado com força outra ideologia, porque ambos esqueceram o trabalho. O trabalho abre uma porta de realismo e constitui um claro preceito de Deus: 'Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a'. Ou seja, sejam senhores da terra: trabalhem".
-O Papa Francisco: Conversas com Jorge Bergoglio-