Wednesday, April 16, 2014

a síndrome de Estocolmo do pobre de direita


"O tempo não volta, o que volta é a vontade de voltar no tempo. Então faça valer a pena".
A mensagem bonitinha me faz pensar na conversa ontem no busão com um dos meus professores favoritos do departamento de filosofia da USP, de volta do campus para a cidade não-universitária.. Falamos de tudo, desde Steve Jobs e Paulo Francis até a falsa sensação que dá de que a filosofia está na moda junto ao público leigo. Isso de ilustrar nossos preconceitos com uma citação erudita aqui e outra acolá vem de longe, pelo menos desde os milhões de exemplares de  "Os Pensadores" que forravam as estantes da classe média, nem que como suporte do abajur da sala, desde que bem à vista para causar a impressão de sofisticação intelectual em algum visitante ou no próprio morador. 
Falamos também da sensação frequente de que as coisas têm piorado, no sentido de qualidade de vida etc e tal. Os cabelos brancos dele não lhe tingiram a alma de rancor, ao contrário do meu amor à humanidade que talvez esteja se esvaindo com os meus cabelos ainda castanhos mas que já começam a rarear. Digo meu amor à humanidade, enquanto abstração; ainda consigo, graças a Deus, ter os sentidos despertos, os materiais e o espiritual, para a beleza de cada individualidade viva e pulsante que pode haver sob a casca de seres humanos que a sociedade e suas "autoridades" insistem em massacrar e reduzir a massa amorfa. 
Mas dizia que meu professor evita a rabujice de recriminar a vida atual à luz quimérica de alguma "idade de ouro" pretérita. Nada disso. Olhando em escala -e não para o próprio umbigo, coisa de idiotas, leia-se a etimologia desse termo ofensivo mas cada vez mais pertinente-, tudo está é melhorando. Seja no Brasil ou no mundo. Acesso à escola, alimentação. Até a violência, segundo recente livro, desses  que se sustentam em pé, do grande psicólogo cognitivo Steven Pinker. Ele mostra que, em escala global e ao longo da evolução histórica, temos nos comportado com cada vez menos violência, e não mais, embora a mídia do sangue venda a sensação do pânico e da escrotidão generalizadas. 
O que porém fechou com chave de ouro o diálogo, e se concatena com a frasezinha bonita de auto-ajuda com que comecei o texto, é o pensamento que o professor começou a formular e, na pausa que fez após a interrogação, me permitiu completar. Sabe a única coisa que piorou em relação aos "bons e velhos tempos"? É que nós éramos mais jovens...
O tempo não volta, o que volta é nossa vontade de voltar no tempo. Que triste é envelhecer! Que seja ao menos possível fazê-lo com altivez, com a serenidade que, em aula -antes de encontrar esse professor no ponto de ônibus-, um outro professor nos ensinava, ao falar do conceito de Schiller: séria é a vida, serena é a arte. Ao contrário de engajamentos raivosos, mas recusando também a alienação conformista, o artista vive à sombra. Aqui, em sentido positivo: sombra e água fresca, repouso do espírito sob a árvore da Vida, ao abrigo do Sol inclemente. Em geral valorizamos platonicamente a saída da sombra à luz. Mas luz sem sombra cansa, até as pálpebras precisam se hidratar com pequenos beijos da sombra, para que o olho siga vendo bem. Daí talvez a apologia de Hegel à coruja da sabedoria que lança voo somente após o cair da noite; uma metáfora também para o exercício pitagórico da revisão introspectiva que deveríamos fazer à noite dos acontecimentos e pensamentos do transcorrer do dia. 
Bom, descontadas essas derivas do meu espírito, volto ao diálogo com meu professor sábio no busão. Que um evento, um bom encontro, desses seja possível é o tipo de coisa que me conforta das agruras práticas de não estar em Wall Street e me reconfirma o acerto de escolhas como a de fazer filosofia, e não abrir mão do espírito público. Isso me aproxima de um tônus e de um ethos que não encontro na tropa reaça que vive de falar mal de filósofos e sociólogos uspianos, essa gente incômoda que provavelmente seria  convidada a "se retirar" do país em caso de nova ditadura militar. 
Uma amiga me conta que articulistas de direita têm já inspirado caça às bruxas em escolas públicas. O Zé-Ninguém, tão bem descrito por Wilhelm Reich como a massa de manobra de todos os fascismos,  desliga a TV, coça a orelha, tira o ranho do nariz e tem um insight: armado dos bordões e guardando no potinho os vômitos do reaça de plantão,  vai despejá-los na escola do filho, se queixando com o diretor, afinal por que raios meu filho tem que ler esse comunista do Milton Santos?! 
Eis um exemplo clássico, no drama histórico do Brasil profundo, da síndrome de Estocolmo que faz a vítima da violência estrutural da sociedade se apaixonar pelo algoz:  ser pobre e de direita. Logo esse lixo mental temos de importar de nossos irmãos nórdicos, exemplos da conjugação que tanto amo,  de pessimismo existencial teórico e de otimismo social-democrático na prática?
-Unzuhause-