quinta-feira, abril 17, 2014

aos pés do mundo


«Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22,27)
«Jesus levantou-Se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos». Lemos no Génesis uma narração do mesmo género. Abraão diz aos mensageiros, aos três anjos que o visitam: «Trarei um pouco de água para vos lavar os pés. Descansai debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão e quando as vossas forças estiverem restauradas…» (18,4-5). O que Abraão fez aos três anjos, Cristo fê-lo aos seus apóstolos, os mensageiros da verdade que iriam anunciar ao mundo inteiro a fé na Santíssima Trindade. 
Ele inclina-Se perante eles como uma criança; inclina-Se e lava-lhes os pés. Que humildade incompreensível, que bondade inexprimível! Aquele que os anjos do céu adoram está aos pés destes pescadores! Esta face que faz tremer os anjos inclina-Se sobre os pés destes pobres! É por isso que Pedro é tomado de temor. […] Após ter-lhes lavado os pés, fá-los «descansarem debaixo da árvore», como está dito no Cântico dos Cânticos: «Anelo sentar-me à sua sombra, e o seu fruto é doce à minha boca» (2,3). Este fruto é o seu Corpo e o seu Sangue, que Ele lhes deu nesse dia. É o «bocado de pão» que colocou à frente deles e que os reconfortou para os trabalhos que haveriam de realizar. […] 
Eis «o banquete de viandas gordas e tenras que o Senhor do universo prepara para todos os povos sobre este monte» (Is 25,6). […] Na sala alta, onde os apóstolos receberão o Espírito Santo no dia de Pentecostes, hoje o Senhor do universo prepara um festim para todos os povos que creem nele. […] É isso que a Igreja faz hoje no mundo inteiro. Foi para ela que Cristo preparou este festim no monte Sião, este alimento que nos restaura, o seu verdadeiro Corpo, rico em todas as virtudes espirituais e em toda a caridade. Ele deu-o aos seus apóstolos e ordenou-lhes que o dessem àqueles que acreditam nele.
Santo António de Lisboa (c. 1195-1231), franciscano, doutor da Igreja 
Sermões para o Domingo e as festas, Quinta-feira Santa 




"Já não os chamo servos. Eu os chamo amigos porque lhes dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai".

O dom de si mesmo na refeição ritual é essencialmente o mesmo que a oferta que ele faz da sua morte na Cruz. O contexto da refeição é comunitário e íntimo, uma ocasião familiar. Somente aqueles que se sentiam seus discípulos iriam querer compartilhar dessa refeição – embora ele dificilmente fosse rejeitar qualquer pessoa com fome que estivesse por lá. No Calvário, o mesmo dom de si se expande até adquirir proporções globais, até mesmo cósmicas. A Cruz é uma intensificação da Última Ceia, mas ambos são essencial e autenticamente pessoais. Não pensamos na intimidade como algo que acontece em uma escala cósmica, mas neste caso devemos tentar imaginá-lo. O significado completo depende de esse dom de si mesmo ser ilimitado e romper todos as amarras.

O dom da amizade redefine a experiência humana de Deus de forma muito diferente daquela dos adoradores de um monarca absolutista ou empregados de um magnata. Se uma figura poderosa de repente põe o braço em volta do seu ombro e o chama de seu amigo, você pode se sentir lisonjeado, mas também desconfiar que essa pessoa só esteja te usando. Mas se a pessoa que faz isso está no ponto em que seu poder está mais baixo que nunca e abre a intimidade a partir deste lugar da mais absoluta vulnerabilidade, a opção de aceitá-lo ou não define você tão bem quanto a ele.

Esta é uma abordagem psicológica para a Quinta-feira Santa. A mística é mais profunda e verdadeira. Como podem um ritual e os elementos de uma refeição de repente se tornar a energia da matéria espiritualizada que nutre a alma, alimenta o desejo de amor do coração e faz de estranhos uma comunidade? Ninguém tem que provar isso – exceto no campo de sua própria experiência. A realidade da Eucaristia dissolve as minúcias intelectuais e a regulação legalista numa corredeira de gratidão que é liberada entre aqueles que simplesmente partilham o pão e o vinho.
Dom Lawrence Freeman,
monge beneditino e líder da Comunidade Mundial de Meditação Cristã