Saturday, April 19, 2014

Cristo, servo e soberano


"Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". Este Salmo responsorial é uma das músicas cuja gravidade, de voz e de olhar, faz o encanto da liturgia da Sexta-Feira da Paixão. Na missa de ontem, no meu berço para a fé, a Igreja da Salette, ela se combinou maravilhosamente bem com o clima de silêncio lutuoso que arrepia a medula desde a procissão de entrada dos coroinhas, sacerdotes e do celebrante principal do sacro-ofício pascal: toda missa é uma "páscoa" (passagem, transmutação) em três por quatro. Três como o Deus unitrino, quatro porque à Trindade, segundo Jung, se soma a sombra demoníaca não bem acolhida pelo discurso dogmático oficial . Pensando bem, como poderia sê-lo? 
Mas admitido ou não por nossa consciência, aceito como elemento constitutivo da realidade ou projetado em nossas inimizades - excedentes e hostis ao campo do sentido que gostaríamos que fosse sinônimo de mundo-,  o Mal está presente, nobre antagonista e co-protagonista nos meandros da existência humana retratada no drama mítico. Cristo passa pelas provações todas que configuram nossa antropologia: da traição de Judas à covardia de Pedro, da sanha assassina e invejosa das autoridades e burrice das massas à ironia cética com que Pilatos o interroga a modo de alienista interessado nos delírios de um pobre-diabo: "Quer dizer que você é o rei dos judeus?"; "o que é a verdade?". A solidão absurda das palavas na cruz: Por que me abandonaste? O coração dilacerado da Mãe que chora impotente pois o novo regaço de seu filho é o da realidade quintessencial deste mundo estúpido e indiferente aos corações mais sensíveis, exigindo-lhes a totalidade que advém do quatérnio da cruz, e do ouro, incenso e mirra que são os pregos e espinhos e vinagre para intensificar a sede. O silêncio omisso e cruel do Pai. Como diz mestre Olavo de Carvalho, tenhamos paciência ante os enigmas da vida, afinal nem o Deus encarnado escapou a uma pergunta sem resposta. Não, acrescento, a resposta que não deu a Pilatos sobre a verdade, mas a que não ouviu de Deus na sua agonia. 
Não serão no fundo uma só pergunta? Não terá Jesus, além de massacrado, cuspido, desfigurado como o Servo redentor predito por Isaías, sido também contaminado pela dúvida de Pilatos?  O silêncio do Pai porém é o ensejo a que o Filho encontre por si mesmo a resposta que aliás está não na certeza abstrata, mas na atitude de entrega. Não mais a de Abraão que aceitava matar o próprio filho; o sacrifício de Cristo, Deus introspectivo, já "moderno" neste sentido, é entregar-se a si mesmo. Diferença ética abissal entre a humildade da obediência radical a uma causa e a arrogância inflada que faz da causa pretexto para nossa própria vaidade esparramada no mundo externo. 

Mencionei Jung ao falar do drama do três e do quatro, crucial em suas especulações sobre a relação compensatória entre cristianismo trino e alquimia quádrupla, que inclui também o elemento material / maternal que falta na patriarcalidade quase exclusiva do dogma cristão, com exceção da Virgem Maria. Volto a ele via depoimento colhido por Marie-Louise von Franz, e que eu relia esta madrugada, depois das três da manhã, mas ainda antes de alcançar -no relógio, inclusive- o mágico quatro, e após orar o terço (este dínamo de energia desde que não repetido mecânica e melancolicamente). Jung se referia ao seu jardineiro, aos estudantes, à gente comum que festejou com ele seu octagésimo aniversário  na festa vespertina, depois da cansativo e mais formal homenagem que recebera de autoridades acadêmicas pela manhã:"Sim, essas são as pessoas que darão continuidade à minha obra, indivíduos isolados que sofrem e buscam, e que tentam seriamente aplicar minhas ideias à sua própria vida, e não aqueles que satisfazem sua vaidade pregando-as a outros".

Por "aplicar suas ideias" entenda-se refazer sua experiência, isto é, fazer nossa própria experiência, que é a de todos, que é a de Cristo, a da individuação, modo moderno de designar a autorrealização como a "bela individualidade" de que falava Hegel, a do homem que conjuga na sua singularidade a particularidade já não meramente particularista e a universalidade não mais abstrata, desencarnada. E que "vence" o mundo, seja pela agonia romântica (no sentido de que moderna, cindida, conflitual) de Cristo, seja pela serenidade clássica de Apolo de Belvedere, esse arquétipo para os idealistas alemães da virtude da altivez que faz o espírito fitar o horizonte para além da carestia profunda do mundo. 
São dois caminhos de universalidade concreta a que uma mesma vida nos envia. O próprio Cristo de tantas representações pictóricas medievais -tempo forte em que sua mensagem estava já com o cetro na mão no trono do mundo, não era mais a rebelião de pescadores e escravos à margem da História- é mais este Soberano cósmico  "grego" do que o Servo que carrega nossos fardos de fraqueza, incerteza e opróbrio. 

Mas que tenha passado, enquanto avatar mortal, pelo itinerário da servidão humana antes de retornar à realeza gloriosa do Logos joanino é um paradoxo  que deu muito trabalho aos cristãos para tentarem convencer os gregos de que não só o homem virtuoso, mas a própria divindade, nisto mais dionisíaca que apolínea, se co-move da embriaguez do sangue-vinho do amor pelos homens e que se sujeita à paixão (pathos de amor arrebatado e de enfermidade, patologia), se converte de Substância fora do tempo, espaço e causalidade em Sujeito porque submetido à individuação, homem das dores, ecce homo que vence na suprema derrota, conquistando e distribuindo pela morte a verdadeira vida. Ideia e experiência a serem buscadas no êxtase do silêncio e música, do combate heroico e entrega.

-Unzuhause-