Wednesday, April 23, 2014

depois da Páscoa


Voltando com preguiça dos dias de reclusão a que o tempo forte da Páscoa, como liturgia interna, nos convida. Foram dias de intensa experiência de Jesus Cristo, como tenho escrito nos marcadores ao final de cada postagem. Adotei enfim esse recurso que o blog já oferecia faz tempo; pena não ter tempo agora para retroagir à massa de textos que publiquei e vivenciei nesses já longos anos de aventura virtual. Jesus Cristo não é apenas um nome e "sobrenome" banais, ainda que se refiram à pessoa mais célebre da história do mundo, depois de John Lennon, claro. Trata-se de um nome histórico e de um título eterno; a tensão do sagrado encarnado. Mas se Cristo é "o" caminho, Jesus é "um" caminho, na fórmula generosa e profunda do indiano Ravi Ravindra, mestre hindu e  PhD em física em seu maravilhoso estudo sobre a "Yoga do Cristo" no  Quarto Evangelho (quatro, símbolo mágico da totalidade), o atribuído ao apóstolo São João, que, em indecidível disputa com Paulo, é o autor bíblico que exerce sobre mim o máximo fascínio, entre todos os nomes a que são atribuídos livros do Velho e Novo Testamento.
Jesus, manifestação concreta do Cristo na conflitividade histórica da Palestina do século I, e que neste contexto exerceu o papel profético e messiânico que em nossos dias foi resgatado pela Teologia da Libertação; Cristo, símbolo do Si-Mesmo que acorre a todos nós, nas consciências dilaceradas de todas as eras, como o Inconsciente que nos chama à Libertação universal, mais que política, mas não apolítica. 
Esse aliás é um aspecto que "retorna", no tempo cíclico de minhas obsessões: a paixão pela teologia política que, herança de Rousseau, impregna de paixão os escritos de Boff, Betto e Gutiérrez. Textos que eu parecia forçado, pela depressão, a jogar na lata do lixo de minhas ilusões perdidas com a vitória esmagadora de Ratzinger na caça às bruxas alegres e na sua auto-entronização,  bruxo triste, seco e solitário, como Soberano no trono imperial de Roma. Ao "pedir pra sair", como diria o Capitão Nascimento, e ao abrir espaço para a ascensão de Francisco, Ratzinger objetivamente confessava as limitações de seu carisma pessoal e de seu projeto para a Igreja ante as complexidades do mundo moderno e as rachaduras internas do próprio Templo romano glorioso que, esquecido da humildade nazarena, da competência administrativa e de se abrir aos ventos do espírito do tempo, se expõe aos cupins e ao desastre.  
O novo "bispo de Roma", trazido das lonjuras do fim do mundo, e imbuído do espírito de transeunte dos metrôs e ônibus de Buenos Aires,  reacendeu em mim a chama do círculo sagrado ateada primeiramente pelo meu querido pároco da Virgem da Salette, e que me reúne e me integra no amor por figuras como "dom" Evaristo, "dom" Hélder , "dom" Pedro. Dons de Deus no tempo, por isso efêmeros:  a "era Francisco", o enxame de livros sobre o papa, o falatório da imprensa, tudo isso pode ficar para trás a qualquer instante. O que vale e o que fica é, nos dedos que indicam o Céu, desapegar dos dedos e atender o convite e de fato contemplar o Céu e fazê-lo na Terra, como é proposta arquitetônica, espiritual e moral de todos os templos: replicar na matéria perfeições que a transcendem. 
Dedos sem joias e gordura dos frangos imperiais, dedos sem gestos de ofender e humilhar, palmas não usadas para surrar com ideias e argumentos melhores, palmas estendidas de bênção e de paz. Dedos que tocamos como Tomé gnóstico nas chagas do Cristo ressuscitado, o Senhor que levantando do túmulo assim nos afeiçoa à cruz não como sinal de maldição mas de vitória. Assim nos tornamos "Amigos da Cruz" segundo afirma São Luís de Monfort -grande inspiração da devoção mariana do, esse sim, e como Francisco, muito carismático João Paulo II.
"O esplendor dum tal nome [Amigos da Cruz] enleva-me, ainda que depois venha a esmorece diante do seu peso de responsabilidade. Com efeito, quantas e difíceis obrigações ele comporta! É o próprio Espírito Santo a avisar: 'Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus'", diz São Luís, retomando a afirmação do também apaixonante são Pedro - que não vos inflameis, xará do meu primeiro e eterno pároco, que não cedais desta vez impulso irritado que não é difícil para vossa personalidade altamente inflamável e tempestuosa , ante meus elogios rasgados a vossos colegas de apostolado Paulo e João; também vos amo e já vos representei, como bem lembrais, numa missa de Páscoa muitos anos atrás.
A linda formulação de Pedro inspira uma canção evangélica de que gosto bastante, e que traz em si as virtudes de animação, alegria e "convocação" jovial que ajudam a entender por que nossos irmãos evangélicos crescem tanto no Brasil de hoje; são a seu modo dedos que apontam e convidam a que os católicos saiam da depressão, do marasmo, da falta de entusiasmo (portanto falta de espírito divino no peito) em comer e compartilhar do pão, em reconhecer como os discípulos de Emaús, o Cristo mesmo na partilha do pão, que energiza para as lutas assim na Terra como pelo Céu. 
 O episódio de Emaús é tema do Evangelho de hoje nas missas católicas mundo afora. Releiam (abaixo) com o frescor e atenção que o amoroso dedo indicador de Santo Agostinho lança para o mistério e loucura da vida que ressurge e nos liberta quando tudo parecia perdido, quando a ruína parecia certa, "castigo de Deus" da gente tirana e frustrada que, como canta Chico Buarque, prega o pecado mas esquece de aprender a libertação.
-Unzuhause



Evangelho segundo São Lucas, 24, 13-35
Dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 
e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 
Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 
os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. 
Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 
E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 
Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 
como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. 
Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada 
e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. 
Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» 
Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 
Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 
E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. 
Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 
Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 
E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 
Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. 
Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 
Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 
que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 
E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. 

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja 
Sermão 235; PL 38, 1117 
«Fica connosco»
Irmãos, quando é que o Senhor Se deu a conhecer? Quando partiu o pão. Fiquemos portanto tranquilos: quando partirmos o pão, reconheceremos o Senhor. Se Ele só quis ser reconhecido nesse instante, foi por nossa causa, foi para que não O víssemos na carne, comendo no entanto da sua carne. Portanto tu que crês nele, quem quer que sejas, tu que não tomas em vão o nome de cristão, tu que não entras numa igreja por acaso, tu que escutas a palavra de Deus no temor e na esperança, para ti o pão partido será uma consolação. A ausência do Senhor não é uma ausência verdadeira. Tem confiança, guarda a fé e Ele estará contigo, ainda que não O vejas. 
Quando o Senhor os abordou, os discípulos não tinham fé. Não acreditavam na sua ressurreição; nem sequer esperavam que Ele pudesse ressuscitar. Tinham perdido a fé; tinham perdido a esperança. Eram mortos que caminhavam ao lado de um vivo; caminhavam mortos juntamente com a vida. A vida caminhava com eles mas, no coração destes homens, a vida ainda não se tinha renovado.

E tu? Desejas a vida? Imita os discípulos e reconhecerás o Senhor. Eles ofereceram a sua hospitalidade; o Senhor parecia estar decidido a seguir o seu caminho, mas eles detiveram-no. […] Retém, também tu, o estrangeiro, se queres reconhecer o teu Salvador. […] Aprende onde podes procurar o Senhor, onde podes possuí-Lo, onde podes reconhecê-Lo: partilhando o pão com ele.