Monday, April 14, 2014

na arca do Pondé


Escrevo sob o impacto da emoção de ler um artigo, na Folha de hoje, do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre o filme "Noé". Até rimou, o que é sugestivo, se pensarmos na persona profética, de pessimista à la Eclesiastes, de Pondé na Arca de Noé com que resiste bravamente a cada semana, na imprensa, às vagas do politicamente correto e do secularismo mundano da cena midiática atual. 
Quanto aos limites que o secularismo por vezes acarreta à crítica cultural, vide a diferença entre o tratamento ao filme de Darren Aronofsky, no artigo de hoje e em "gracinhas" que outros comentadores tentaram, ao falar em "a barca furada de Noé" ou outros clichês desmerecedores. Com o artigo do Pondé, entramos na Arca da salvação que consiste em trocar o achismo pelo insight, e o filme como artefato fútil da indústria cultural pela obra de arte que tem sim, contra o pessimismo de Benjamin, capacidade para a aura de avatar do mito eterno.
No caso de Noé, aliás, um mito que vai bem além das fronteiras hebraicas exploradas pelo artigo do Pondé. Os antropólogos enumeram  cerca de cem variações, no mínimo, da mesma história em lendas do mundo todo. 
Na Índia, por exemplo. era uma vez um homem chamado Manu, e ele estava se lavando. Quando colocou a mão na jarra da água para lavar as mãos, retirou um pequeno peixe.
O peixe falou com ele: "Se você tomar conta de mim e me proteger até que eu esteja totalmente crescido, irei salvá-lo das coisas terríveis que estão por vir". Manu perguntou ao peixe: "O que está dizendo? Que coisas terríveis? O peixe contou a Manu que logo haveria um grande dilúvio que destruiria todos os seres humanos na terra. Então, o peixe instruiu Manu para que o colocasse numa jarra de barro por segurança, e Manu obedeceu. À medida que o peixe crescia, Manu ia colocando-o em jarras de barro cada vez maiores, até que o peixe ficou totalmente crescido e pôde ser colocado no mar em segurança. Logo o peixe tornou-se um ghasha, um dos maiores peixes do mundo.
O peixe mandou Manu construir um grande barco, já que faltavam poucos meses para o dilúvio. Quando as águas começaram, Manu amarrou uma corda do seu barco ao ghasha, que guio-o em segurança enquanto as águas subia,. As águas subiram tanto que toda a terra foi coberta. Quando as águas baixaram, o ghasha guiou Manu ao topo de uma montanha.
Utnapishtim
Na Babilônia, então, a analogia com a história do Velho Testamento é tamanha que é inevitável pensar que a versão hebraica a copiou e "colou" (foi aceita pela posteridade como verdade literal e como exclusividade judaica). Gilgamesh, o herói do grande épico, encontrou o velho Utnapishtim, que havia se tornado um deus em virtude de sua bondade e obediência aos deuses, salvando a humanidade e os animais de um grande dilúvio. Utnapishtim relatou sua história a Gilgamesh.
Os deuses vieram a Utnapishtim para avisá-lo da chegada de um terrível dilúvio. Eles mandaram que parasse seu trabalho, derrubasse sua casa e começasse a trabalhar imediatamente na construção de um grande barco com cento e vinte cúbitos de comprimento e cento e vinte cúbitos de largura. Ele deveria vedar o barco com madeira e piche; devia levar animais de todas as raças, tanto machos como fêmeas, assim como sua família, provisões, ouro, prata e outras riquezas.
Depois que o barco ficou pronto, começou a chover torrencialmente. O dilúvio foi tão terrível que até mesmo os deuses ficaram assustados. Ea, o deus das águas que havia causado o dilúvio, viu que a catástrofe havia sido muito pior do que o planejado. Ishtar, a deusa da beleza, que havia falado de maneira maligna na assembleia dos deuses, causando o dilúvio, gemeu ao ver seus filhos "transformados em barro", como resultado dos seus atos.
Durante seis dias e noites, um vento soprou sobre o dilúvio, e o clima se acalmou. Enquanto as águas baixaram, ficou claro que a terra havia sido devastada, e todas as criaturas vivas haviam sido aniquiladas, Utnapishtim baixou sua cabeça e chorou. O barco finalmente pousou sobre o toipo do Monte Nirsir, ao norte. Sete dias depois, Utnapishtim soltou uma pomba. Como não havia terra onde a pomba pudesse pousar, ela voltou ao barco. Então ele enviou uma andorinha, mas ela também não retornou. Finalmente, ele enviou uma gralha, e ela nunca voltou, já que encontrou terra suficiente onde pudesse repousar. Utnapishtim então soube que podia deixar o barco.
Deucalião
Assim também entre havaianos, astecas, apaches, egípcios. Na Grécia, era uma vez uma humanidade que se corrompera, se tornara perversa e arrogante, a ponto de Zeus se decidir em limpar a Terra de tal miasma. Prometeu, o titã criador da humanidade, foi avisado dos divinos planos de um dilúvio genocida, e por sua vez avisou seu filho humano, Deucalião, e a esposa deste, Pirra. Prometeu colocou os dois numa grande arca de madeira. E choveu por nove dias e nove noites, até que o mundo inteiro estivesse inundado, exceto por dois picos de montanhas na Grécia, o Monte Parnaso e o Monte Olimpo, sendo este último o lar dos deuses.
Finalmente, a arca de madeira pousou no Monte Parnaso, e Deucalião e Pirra saíram, só para ver que o mundo inteiro havia sido destruído. Da arca, eles tiraram provisões suficientes para se alimentarem até que as águas baixasse,. Quando desceram da montanha, ficaram horrorizados. Ao seu redor estavam as carcaças de humanos e animais; tudo estava coberto por lodo, limo e algas. O casal ficou grato por ter sido poupado, e eles agradeceram aos deuses pela sua salvação;
Zeus falou com eles do céu. dizendo: "Velem suas cabeças e joguem para trás de vocês os os ossos da sua mãe". Pirra respondeu: "Não temos mãe alguma conosco, só estávamos na arca meu marido e eu". Mas Deucalião entendeu o que Zeus quis dizer, e jogou algumas pedras para trás dele. Pois as rochas são os ossos da Mãe Terra, a mãe de todos. Essas rochas foram transformadas em pessoas, que repovoaram a terra - aqui se faz um jogo de palavras que só se entende em grego:  "laos" significa gente (a origem de nossa palavra "leigo") e "laas" significa "pedras".
Esta breve amostra serve para ilustrar o quanto o tema do dilúvio se inscreve no repertório da imaginação universal, isso que Jung viria a chamar de inconsciente coletivo, cujo arquétipo central, o Selbst (Self, Si-mesmo) corresponderia aproximadamente ao núcleo psíquico em que humano e divino, a consciência e seu "outro lado" matriz, se tocam e se despedem, como os dedos das figuras de Javé e Adão na Capela Sistina. 

Tratar um filme como "Noé" com a superficialidade com que vinha sendo tratado na mídia é o mesmo que, ao analisar o mito do dilúvio, achar como o psicanalista Geza Roheim que sua universalidade arquetípica se deve a sonhos  em que o sonhador alucina tais enchentes porque estava com a bexiga cheia! Tais sonhos e situações de "aperto" devem também acontecer no mundo todo; eu mesmo hoje acordei de madrugada com a barriga cheia, acho que abusei de frutas cítricas tarde da noite. Mas graças ao bom Deus fui poupado de sonhos genocidas e tive tempo de evitar um dilúvio de urina na minha cama!

Com a humildade que lhe é peculiar, o Pondé arremata o texto sobre o Noé hebraico assim: "Quando você ouvir alguém dizer que a Bíblia é um livro bobo, saiba que você está diante de um ignorante. Boa semana." 
Graças a autores como ele temos mais chances de nos livrar de tal ignorância, ainda que sob o tratamento de choque de seus métodos de chamar a atenção não para si, claro, mas para a riqueza da visão de mundo de seu pessimismo tipo Eclesiastes (vaidade, tudo é vaidade!). Basta então ampliar essa visão, incorporando a percepção de que Eclesiastes, Noé, José e Javé são também imagens arquetípicas sem nenhuma superioridade sobre outros mitos em que os povos sonham também sua própria superioridade etnocêntrica, sua "eleição" divina, sua missão profética de limpar a Terra, e recomeçar tudo do zero conforme a vontade do deus ou ideia suprema não de Platão, mas de plantão.
 Inconsciente ecológico
No filme, o inconsciente coletivo pulsa um desejo eminentemente "ecológico"de restauração da vida na pureza que o egoísmo humano, sua brutalidade, sua ruindade, sua insaciedade. estão tornando inviáveis. Por duas vezes, uma delas é o pai, outra o próprio Noé, quem nos diz e a seus filhos: "Homens! Escondam-se!" Como na música em que Chico Buarque pede que os passarinhos fujam que o homem vem aí, satã da terra, para matar, roubar e destruir. Nas respectivas cenas do filme, essa frase adverte  sobre a ameaça dos predadores humanos figurados como descendentes da raça maldita de Caim, o assassino de seu irmão Abel. Noé e o seus são descendentes de Set e "defensores do que restou da Criação", segundo o texto inicial que Aronofsky faz-nos ler em recurso que lembra George Lucas recontando os precedentes de cada episódio da "Guerra nas Estrelas".
Guerra pela Terra
Aqui a Guerra é na Terra e pela Terra. É o conflito, para usar da analogia eleitoral, de dois projetos de "governo" humano da Terra, ou de interpretação do que Deus espera de nós como seres à sua imagem e semelhança e chamados ao domínio do planeta azul. Domínio como cuidado , no caso de Noé, vegetariano e ecologista, que repreende o filho Cam por arrancar do chão uma flor sem necessidade. O nome de Noé, aliás, remete ao verbo hebraico para "consolar", em consonância com sua missão salvífica, de proteção e não de destruição. Ou domínio como vontade de potência, arrogante, blasfema, nietzschiana, vide o discurso do grande antagonista que se defronta com o heroi vivido por um Russell Crowe meio pirado como o cientista maluco que encarnou em "Uma Mente Brilhante", filme em que também, como em "Noé",  tem sua loucura protegida de si mesma, e canalizada para o bem, pela candura da maravilhosa esposa Jennifer Connelly.
A "hybris" que ameaça transformar em tragédia o conto bíblico recontado -em imagens magníficas, em 3D- na telona é também a daqueles cuja paixão pela causa ecológica mal consegue esconder a hostilidade romântica ou misantrópica contra a civilização.   Como Noé, a compaixão ecológica que humaniza bichos e plantas e animaliza o humano parece nos exigir que se deixe fora da "arca" a espécie Homo sapiens e demens, sobretudo os semelhantes mais diferentes de nós, os que não suportamos, os que nos pareçam supérfluos ou maus, e são muitos, vide as muitas intolerâncias, não só a dos ecochatos, que se disseminam mundo afora.
Esse é o dilema que acomete o heroi sombrio de Aronofsky quando ele constata que a perfídia dos descendentes de Caim é dele também. Parece então se deixar contaminar, num diagnóstico que inventa sua doença, e como os guardiões (comovente acréscimo do filme em relação à lenda hebraica), tem a luz encapuslada no corpo de pedra, que vai se desfazer sob os suores do combate e do arrependimento. Mas antes, se petrificando, resolve não encontrar esposas para dois de seus filhos, sendo que a do primogênito era estéril -uma inovação perfeitamente justificável, desse ponto de vista, em relação ao original bíblico, em que os três filhos têm esposas e a questão da esterilidade não se põe. 
Belíssima alegoria da esterilidade a que toda utopia deságua (sem trocadilho) quando se resseca de um componente vital, a compaixão e a necessidade de aceitar que o "bem" sempre conviverá com o "mal", o senso e o contrassenso, antes e depois de todo e qualquer dilúvio, apocalipse ou revolução.
Deus no divã
Quanto à psicologia da divindade bíblica, chama a atenção o  "arrependimento" de Javé em ter criado os homens (como assim, um Ser perfeito que errou? Que se arrependeu?) e em sua decisão pelo holocausto (como assim, um Ser que criou por amor e viu que "tudo era bom" se torna de repente um assassino como Caim?). Foi preciso o embate com Jó para que essas contradições aflorassem à consciência de Javé e engendrassem em seu âmago a resposta que não é da arrogância dos últimos capítulos do Livro de Jó, mas a encarnação no misericordioso Filho de Deus e do Homem, o humilde Selbst todo-poderoso que nasce na estrebaria da Terra (o enraizamento no humus ecológico) e morre na cruz do mundo (o império dos homens) para poder então fazer o caminho de volta à liberdade do céu - uma trajetória simbólica desajeitamente reencenada na cultura do divã que privatizou e psicologizou essas verdades "arcanas",  da Arca da Salvação. Com Cristo, Deus vive na carne a sacramentação de uma Aliança que não precisará mais de sinais exteriores, como o arco-íris que ele desenha no céu, ao final do dilúvio, para "lembrar-se" da sua promessa de não nos exterminar, nas horas da ira que de fato apaga a memória e todas as demais faculdades intelectuais e afetivas benignas de deuses e humanos.
Egoísmo mítico
O mito tem sempre um componente egoísta em tensão com a universalidade potencial. Impressionante a indiferença de Noé ao sofrimento da multidão que grita de terror e se afoga fora da Arca, enquanto ele conta para os parentes a lenda, para ele verdadeira como História, do primeiro capítulo do Gênesis (livro de que ele próprio, sem saber, estava virando protagonista, cuja história podemos ler hoje dos capítulos 6 a 9). Reação similar me acomete ao ler outro episódio mítico, este da lenda cristã: o do massacre dos inocentes enquanto a  Sagrada Família foge advertida (como Noé) em sonhos (tradicional forma de comunicação de Deus com os homens, isto é, do inconsciente com a consciência).
Humano, demasiado humano, o mito é uma tentativa de equacionar aquilo que para sempre é incógnito em nossas equações. Não só o clichê "de onde vim/ para onde vou", mas outras perguntas igualmente abissais: o que é o Bem? o que é o Mal? O que ou quem me criou?  Quem sou eu? O que me faz diferente dos outros, e legitima que eu seja como sou? Por que tolerar o outro, eventual competidor pelo meu pão e pelo meu "espaço vital" e psicológico? Soluções pelo assassinato indiscriminado, quer apenas sonhados em mito, ou postos em prática (acting out, como o dos nazistas), são uma das vertentes, certamente a menos feliz, e infelizmente não muito rara, pelas quais nossa agonia por sentido se transmuta em afã de esmagar o não-sentido, ou o sentido contrário. Daí a beleza de, na viagem pelos mitos e diferenças culturais, dissolver num dilúvio benigno as quimeras de superioridade e botar a mão na massa pela preservação da vida com a Arca de Noé do coração e da responsabilidade individuais. 
Enfim, viajante perdido e confuso, náufrago na crítica cultural que gosto de fazer e de ler, peço licença para seguir a arca de Noé do Pondé. No meu barquinho de humilde pupilo, leio nesse momento seu seminal livro de bolso sobre a revolução conservadora do ex-papa Ratzinger, então ainda soberano no trono romano, mas que profeticamente aparece de costas na capa. E  nessa trilha pressinto com alegria a possibilidade de uma crítica cultural conservadora no melhor estilo: o de conservação das matrizes arquetípicas da alma e da sociedade ressecadas numa época de deserto, de racionamento de água, de indigência simbólica, afetiva e moral. 
-Unzuhause-