Friday, April 25, 2014

Nietzsche, Quintana e a filosofia do toque


Como disse o professor Renato Janine em post há pouco no facebook, eis no link a seguir -http://revistaglamour.globo.com/Na-Real/noticia/2014/04/luciana-vendramini-revela-detalhes-de-sua-historia-polemica-tomava-banho-de-ate-11-horas-de-duracao.html- um depoimento "tocante" . Luciana Vendramini falando de si, de sua trajetória "polêmica"  (adjetivo-fetiche, na boca do povo, para nossa indigência intelectual e afetiva carente de "polêmicas" para fugir de seu tédio). A bela comenta também como atravessou essa aflição anímica que é  das mais "gnósticas"  do catálogo psiquiátrico, o TOC, transtorno obsessivo-compulsivo. 
Tal sentido gnóstico, que conheço demasiado bem, na altura abstrata de filósofo e na miséria da aflição carnal que me fez filósofo, remete à antipatia com o mundo material, considerado armadilha, alçapão, lodo de perigos, reais ou imaginários, da matéria densa e poluída do mundo. Vontade de escape e transcendência. "Angelical" recriminação e autorecriminação por pertencer ao cárcere da resistência à res extensa, tentativa de contornar -dar contornos a e escapar- pela Ideia o desconforto com a Coisa. 
Essa abreviatura, TOC, não deixa de soar irônica, em português, para o mal-estar psíquico que justamente torna um inferno a singela experiência de tocar e ser tocado. Quiçá contenha a própria receita da cura, na forma imper-ativa do verbo: toque! e, também ativamente, isto é, com atenção e seletividade relativas, se deixe tocar.. vencendo o trauma pela exposição controlada ao risco. E, mais filosoficamente, abrindo mão da obsessão e compulsão de controlar pela razão pensante o que não tem juízo nem limpeza nem nunca terá, dentro ou fora de nós.
Tanto o homem ingênuo como a religião e metafísica "sérias" se marcam, diz Nietzsche em A Gaia Ciência ("alegre saber"), por uma vontade de saber que mal camufla, nas suas origens, o afeto elementar do medo. O mundo é estranho, indiferente, agressivo, causando medos e inseguranças agravadas pelo "dom" duvidoso de termos consciência de tudo isso. Não nos contentamos em chafurdar na felicidade de porcos, preferindo sermos Sócrates infeliz, ou a caminho dele  –tanto mais filosóficos quanto mais recusamos a massificação que tenta repor em nós, já como seres culturais, e que deveríamos por isso ser livres, a animalidade que a duras marretadas de libertação espiritual conseguimos descascar de nós mesmos.   
Mas esse espírito liberto da res extensa nos ameaça com outra forma de tirania, a do "angelismo" que repudia a materialidade irracional de nossas origens sujas e infectas. O desconforto "tocante", na sua aversão a tocar, é uma variante psicopatológica desse desequilíbrio do espiritualismo excessivo, a mesma desordem que nos faz querer ver "ordem" em tudo, vê-la ou criá-la, sob o risco da condenação ao inferno eterno. Evitar tocar a maçaneta do banheiro, cumprimentos e abraços, ritos de higiene mais longos que um discurso de Fidel Castro, levar seus talheres ao restaurante, pisar só na nas partes brancas da calçada, conferir 300 vezes se trancamos a porta, dispor copos e talheres daquela determinada maneira. Imaginar que se pensar tal coisa será catastroficamente castigado. Onipotências obsessivas do pensamento que Freud remete à infância mágica da civilização e dos indivíduos..
A "gaia" cura que nos resta, se ou enquanto não somos de fato anjos, apenas consciências divididas entre espírito e matéria, é aceitar tal condição, seja carnavalizando geral, como os nietzschianos de senso comum (maioria, ainda mais numa cultura como a nossa, que tem a "alma de feriado", como disse Nelson Rodrigues); seja aceitando o destino de um saber alegre porém trágico, como o Nietzsche profundo, doentio e torturado como um cristo por estigmas de toda sorte (?). Renunciando não à vida, como na ascese de Schopenhauer, mas a "conhecer" a vida sob a lógica do controle ilusório e repressor do conhecimento que traga o estranho no supostamente familiar.
Festejando a alegria e a dor pelo brinde do poema, como Quintana que mimetiza tão bem, ou quiçá se confessa também, a alma bipolar ao versejar, em "Simultaneidade":
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! - Você é louco? - Não, sou poeta.
Nessa simultaneidade do sim e do não, o bipolarismo poético exporta para os tocados pelo TOC uma lição preciosa: mundo sublime e sórdido, em que a vida é uma doença sexualmente transmissível, misturada em sangue, urina e fezes, processo de dolorosa evolução, e prognóstico final sempre frustrante - para os que se apeguem tão-somente à matéria, e para os que a amaldiçõem e se autocondenem pela pena de um espiritualismo confuso.


-Unzuhause-