segunda-feira, abril 14, 2014

pedra e luz


Recebi um interessante comentário sobre o post anterior. É precioso pelo acerto das palavras e por ser de quem é, uma amiga particularmente cara e semelhante a ponto de eu contar entre minhas irmãs espirituais, numa geminidade assexuada como a que Sartre nutria por Simone de Beauvoir. Curioso como os dois, no pacto libertino que adotaram por mais de 50 anos,  reservavam para o amor "essencial" que era o deles a austeridade ascética, angelical,  em troca da festa sexual com requintes de perversidade ao fruir e partilhar e descartar seus "amores contingentes" com os rapazes (ela) e moças (ele e ela) que abocanhavam. Existencialistas ateus que assim confirmavam, das maneiras tortas que os modernos  têm para honrar sua vocação espiritual ancestral, a lógica ascensional e hierárquica do amor, dividido, ou melhor, multiplicado em Vênus popularesca (sexual, "venérea") e  Vênus celestial no mito do Banquete de Platão. Mas vamos às palavras da minha soror mística!
Faço minhas as suas palavras: vivemos mesmo "numa época de indigência simbólica, afetiva e moral." Assisti na pré-estréia e também gostei, apesar dos críticos raivosos, muitos dos quais não enxergam um palmo à frente, encapsulados no fácil esquema dos preconceitos religiosos e culturais, ignorando a dimensão mítica universal da velha necessidade humana de expurgar a chaga fétida, para que um novo tecido se forme no corpo doente e moribundo (hoje a solução para muitos seria o impacto de um asteróide para varrer toda a podridão). A grande sacada do filme é justamente mostrar a história de forma muito atemporal - fiquei mesmo com a impressão de se passar no futuro... tão presente!!! Fora os dilemas morais, tão bem retratados"
(by Roberta Leal)
Concordo com Bertha, o filme de Aronofsky (diretor que que vem do também estupendo "Cisne Negro") foi alvo de esquematismos culturais ou religiosos que são normalmente causadores de injustiça, isto é, do discernimento equivocado, que nega atributos merecidos ou impõe atributos imerecidos ao objeto em questão.
Aqui penso em especial na saraivada de críticas fundamentalistas, por parte de setores evangélicos e católicos, contra as licenças poéticas do filme: o tom ecológico e "new age", a incipiente loucura autoritária de Noé, sua decisão de estender à própria família o extermínio que o Criador arrependido da Criação ordenara cair sobre o restante das criaturas, os guardiões que por amor aos homens compraram briga com o tirano divino e terminaram traídos também pela maldade humana. Me senti tocado por essa parábola dentro da parábola, em que anjos viram monstros quando traem e são traídos, despencam à Terra, assumem uma couraça de pedra que esconde de si mesmos, na mineralização típica da alma rancorosa, a luz que volta, aos poucos,  a literalmente "rachar" o peito pétreo, como quem paga a conta com um amigo, quebrando a casca enquanto os guardiões lutam e se sacrificam pela Arca contra os invasores malignos.
O que é preciso realçar é que, com ou sem acréscimos dessa ordem,  toda interpretação do mito é em si mesma mítica, reconta a história "original". Faz mais justiça pela invenção do que pela repetição servil. isso se, luz de ascensão, não quiser se  condenar à seca esterilidade que afunda qual pedra. 
Grandes filmes bíblicos não deixaram de pagar tributo à revolta icocnoclástica, caso de "A Última Tentação de Cristo"; mesmo quando "fidedignos" a ponto de serem falados em aramaico, como "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson, eles são plasmados no fogo e na cerâmica da paixão individual daquele que reconta a "história" herdada dentro de um novo viés psicológico, ideológico e histórico, de cada época e, na nossa época, de cada individualidade que refaz dentro de si o que a cultura tradicional oferecia e impunha de forma mais homogênea. O mito é obra aberta. Ainda mais em nossa vida líquida, fluida, incerta, numa modernidade desencantada, massificada, em que o espírito criador paira de novo sobre águas de caos primordial.
 Daí me sentir muito mais próximo das fontes originárias na reinvenção artística de "Noé" do que ontem, na missa de Ramos, obrigado como todo mundo a escutar em pé por quase meia hora  a leitura tediosa de toda a história da Paixão de Cristo, da traição de Judas  aos cuidados com o enterro. Isso depois daquela entrada meio sem sentido do povo com a planta na mão e antes da homilia chocha e demagógica sobre Jesus enquanto pobrezinho que só fez o bem e afrontou os malvados. A missa precisa com urgência reaver sua potência arquetípica de insuflar autênticas experiências espirituais do crente com seu Deus. Não por "modernizações"constrangedoras como a do padre de ontem puxando o bater de palmas do povo durante o canto do Hosana . Mesmo para um católico gnóstico como eu, faz falta a fé vivida em rituais!
Bertha também é muito feliz ao falar na demanda apocalíptica que hoje circula entre nós. Vide o  "Apocalipse"de Von Trier. Basta meia hora de caminhada numa cidade grande como a São Paulo atual, ainda mais se estivermos com a bexiga apertada (para homenagear a engenhosa "explicação" psicanalítica dos mitos diluvianos), para nossa paciência com os outros ir rapidamente para o saco, e desejarmos que tudo se exploda e a gente possa readquirir a liberdade de ir e vir sem medo de violência, e sem a violência corriqueira e generalizada da sufocação de sentir nosso espírito esmagado pelos corpos que se amontoam sobre o nosso, todos ainda "viventes", nos esquifes individuais e navios negreiros em roda e em trilhos de nossa necrópole alucinada. 
O desastre é não apenas temido, mas também desejado, por nossas pulsões amorais. Deus é parte disso tudo, enquanto criado a nosso serviço e em nome de nossos egoísmos genocidas, fantasias de "povo eleito", preconceito contra o outro. Mas isso não é tudo, pois a mesma alma que odeia também é capaz de amar. De forjar imagens divinas de reconciliação, como o arco-íris que, nas águas do céu (conforme a representação cosmológica tradicional dos judeus) , completa o ovo cósmico que a Arca desenha nas águas de baixo.  O nosso dilema é como conjugar o egoísmo mítico das pulsões arcaicas com a a generosidade igualmente imaginária, mas nem por isso "falsa", que faz de cada um de nós, hoje, um Noé chamado por Deus a decidir, como o Abraão do retrato existencialista de Kierkegaard,  de faca na mão, no temor e tremor do impasse sem garantias e do salto da fé, abismal entre abater de vez a inocência fora como dentro de si ou refazer o pacto com a vida restaurada, abundante e para todos. 
-Unzuhause-