Friday, April 11, 2014

porcos e querubins


Retomo, das minhas breves palavras desta semana, umas em especial que ficam me zunindo dentro com a matraca metálica dos vizinhos que se decidiram por uma nova "reforma" no apartamento ao lado e que assim botaram fim infernal às manhãs silenciosas de que necessito após as lutas insones de cada madrugada. 
O barulho alheio, essa melodia uníssona em todo o dial, AM e FM, cadeia nacional do homo faber que desaprendeu, ou prefere ignorar, os prazeres e perigos do silêncio que contempla dor. 
Venho sendo assediado por percepções aflitivas (cf. o texto recente "Exu na internet") sobre o grau de intolerância e burrice no grosso trato entre as pessoas possessas por ideias que as pensam ao invés de serem pensadas. 
Consegui recentemente me indispor, vejam vocês, com um junguiano, pelo mero fato das elocuções intelectuais terem uma irresistível propensão ao envaidecimento, essa praga de contaminação emocional em que a questão da afinidade entre nossos autores de referência, ou a logicidade interna dos argumentos,  pertinência à realidade etc. pouco importam; a cena verdadeira é a da conflagração de pulsões de auto-afirmação, que comprimem a realidade, ou melhor, nossas parcas condições de acesso a ela, tanto piores quanto mais supomos identidade entre a verdade e nossas representações da verdade. 
Já passei por isso noutros carnavais. Me vejo radicalizando em hostilidades contra ideias que, a juízo mais frio, seriam perfeitamente palatáveis. Particularmente no caso do debate ideológico direita x esquerda, seja na política ou na religião (venho de um período de severo debate com o conservadorismo católico à la Ratzinger, que afinal se me revelou frutuoso à luz da tensão dialética com o progressismo de Boff e Frei Betto, redundando na síntese no papa Francisco). 
Claro que há valores e caminhos práticos válidos num lado e noutro da cizânia entre conservadores e progressistas. Contra as caricaturas, o conservadorismo não é sinônimo de Hitler, nem o progressismo sinônimo de Stálin. Entra ambas as monstruosidades, sintomáticas do grau máximo de degradação a que a Ideia é sujeita em sua encarnação sublunar na imbecilidade humana, há um sem-número de insights a serem colhidos à leitura dos clássicos (de Tocqueville a Rousseau, de Burke a Marx) e à inspeção franca das ambiguidades da existência. Me incomoda, bem verdade, que o campo esquerdista se pretenda instalado numa legitimidade superior, a priori e incontestàvel, como se para ela tivesse menos problema ser confundida com o fascismo de esquerda praticado em todas as experiências de socialismo real. O risco da deriva autoritária é simetricamente o mesmo para ela  que o para o conservadorismo, senão mais grave, pelo índice inflacionário ser tanto pior quanto maior a ambição da reinvenção do humano e melhoramento do mundo via ideologia.  Mas são visões de mundo legítimas, que o buscador espiritual precisa estudar com afinco e generosidade, para se nutrir dos bons estímulos que venham de todos os lados, ao invés de se assujeitar a fanatismos, pró ou contra, sempre  unilaterais, adjetivo com que Jung define o pecado mortal da consciência desenraizada do seu "outro lado" que pulsa na sombra como o Exu dos evangélicos. 
Mas  ponderações dessa ordem ficam impossíveis na espiral de violência a que os epígonos de diferentes "escolas" nos empurram. 
 A náusea que esses jogos logo me acarretam se deve à maldição, talvez, de que "Unzuhause" como sou no desabrigo do mundo, não confio exageradamente em ninguém, sobretudo em quem ponha questões de caráter em segundo plano em relação ao fetichismo intelectual. Para mim, nisto também de um temperamento schopenhaueriano,  o caráter vem antes. É inato, enquanto caráter inteligível, se desdobrando como caráter empírico no varejo das decisões e situações aparentemente fortuitas do corriqueiro. E as ideias querem dar lustre e preenchimento de sentido ao que a princípio é essa força obscura, cuja transformação só pode vir de si mesma, e de nosso seguimento a seus sonhos com o mesmo ardor de A Imitação de Cristo.
 Sou do princípio de que a razão é uma faculdade da Vontade, e não o contrário.  Sou como o "quinto cavalheiro" na casa do morro de Santa Teresa no conto "O Espelho", de Machado de Assis. Segundo o narrador, ele não discutia nunca; "e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem como um instinto bestial, e os serafins e o querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna". 
Isso não faz de mim serafim ou querubim, mas é que o que contempla dor, a sua própria dor, se põe também no caminho de contemplar sua beatitude e libertação metafísica, de que os anjos são símbolo antecipatório. Cretino, ante a nossa distância dos anjos,  é renunciar ao ideal e se aceitar como porco, impor sua pròpria imundìcie assentida como regra universal e chafurdar no charco por razões de realismo suíno. Nada contra os porcos em si, ou contra baratas ou ratos, que subjetivamente também detesto, apenas que "para nós" os porcos são representações habituais do repugnante; daí o bias cultural subjacente ao episódio em que Cristo, nisto ecologicamente incorreto, foi algo inclemente ao transferir para eles os espíritos malignos que ele tirou do possesso, e lançá-los ao abismo. Nosso Self age assim quando sente que a intoxicação psíquica e moral do ego chegou a algum ponto de saturação insuportável pela realidade imediatamente dada. É a operação que nos liberta do realismo suíno e nos devolve ao ideal, dínamo verdadeiro da personalidade em combate consigo mesma pela abolição em si da mediocridade brutal e congênita do mundo desde o tempo das cavernas. 
Isso tudo para enfim passar à reprodução propriamente dita das tais palavras na minha rede social predileta:
Tem dias que facebook me soa a facebrocha, ou é o antigo vício que cobra um preço na forma da ressaca diante do espelho indiferente do day after. Daí meu lema de ontem pra hoje: redimensionar tudo, a começar do número de amigos, bem como a expectativa de intervenção direta no mundo pela confortável e enganosa via virtual. Melhor plantar uma árvore, escrever um livro, entrar para uma ONG, algum partido menos ruim, cuidar de carentes, da nossa carência, dizer um te amo. Em suma, assentir aos estorvos e arautos que, qual no caminho da carruagem palacial de Sidarta, interrompem a zona de conforto e revelam a precariedade do mundo, que só por covardia, ingenuidade ou autoengano a gente insiste em ignorar e não ver que é nossa culpa também. Atenção aos arautos míticos de vossas jornadas pessoais: são as pessoas e eventos, signos agradáveis ou desagradáveis, que vos exigem a saída de vós mesmos, a viagem da transformação, que é sempre para dentro quanto mais para fora. Mas que seja leve a bagagem que se leve. pois nesse nível também, menos (ilusão) é mais (experiência) !
-Unzuhause-