Wednesday, April 23, 2014

São Jorge no subsolo


Devotos de São Jorge, 23 de abril é também data importante de outro padroeiro fundamental para a consciência moderna: foi numa madrugada de 23 de abril que Fiódor Dostoiévski foi tomado como prisioneiro político pelas forças do czar Nicolau I; começava um drama que o arrastou ao "paredão de fuzilamento" de sua época. Drama que na verdade era uma farsa, pegadinha macabra montada pelo czar para pregar um bom susto nos revolucionários do círculo de Petrachévski,  que naquele ano de 1849 fez circular uma petição para que os camponeses fossem libertos do regime servil. Num regime fechado como o da Rússia pré-comunista -triste sina de pobreza e autoritarismo que o regime de Lênin e Stálin viria apenas a mudar de roupa-, bastava essa ousadia para incriminar intelectuais como o jovem Dostoiévski de então, sensível a um ideário de socialismo utópico diferente da sanha assassina dos baderneiros niilistas que o escritor maduro atacaria de frente em romances como Os Demônios (1871).
Ao invés da pena de morte, o Estado o condenou ao exílio na Sibéria, por longos oito anos, o que ele só descobriu a centímetros dos fuzis apontados para ele.
 Volta do cárcere externo porém não como um cativo de amarguras, e sim renovado pela nekya (descida aos infernos, à "casa dos mortos" a que se refere o título de seu primeiro romance, documental, sobre o tempo de prisão) em que descobriu a profundidade da fé cristã-ortodoxa do povo, tão desprezada ou mal-compreendida pela elite intelectual socialista, niilista, baba-botas do Ocidente secularizado. 
Essa guinada vai se refletir no escárnio com que destrata o "palácio de cristal" das utopias de reengenharia racional e política da sociedade e da vida -como se o absurdo fosse passível de erradicação por decreto e boas intenções- em Memórias do Subsolo (1864). Essa novela, de impacto incalculável na psicanálise e na literatura do século XX, de Camus a Clarice Lispector, passando por Kafka e Beckett,  marca o início do ciclo miraculoso das obras-primas do mestre de Petersburgo, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. 
Dostoiévski trocava, descendo aos tormentos do subsolo (do "inconsciente" não meramente psicológico),  o registro chamado "fisiológico", de denúncia social simplista, pelo  "realismo da alma humana"   (cf. Manuel da Costa Pinto, Paisagens Interiores e Outros Ensaios), em que, por exemplo, as classes populares são retratadas não como massa inerte e medíocre, nem como vítima indefesa do sistema social injusto, mas como afrescos da miséria humana universal, em tensão com certa pureza moral latente e com sinais escatológicos -não no sentido chulo do termo, embora esse também não esteja distante, se tomarmos o caminho de alto para baixo; mas a escatologia no universo dostoieviskiano é, de baixo para o alto, da merda para o lótus, a visão religiosa das síndromes e catástrofes do final do mundo - apocalipse perpétuo que é típico da marcha cega da vida moderna, em  que tudo o que é sólido desmancha no ar, diria o grande sociólogo Marshall Berman em livro que, não por acaso, confere a Dostoiévski papel de protagonista entre os grandes investigadores da era burguesa, em suas contradições com um passado arcaico que não acaba de passar. 
Sem aquele 23 de abril de 1849, nada disso teria provavelmente acontecido. Teríamos mais um bom escritor, mas não um gênio manifesto. Mais um intelectual engajado, mas não um profeta. Mais um polemista de "fama", mas não um autêntico místico do niilismo moderno. 
Dostoiévski, Santo Guerreiro contra o dragão da maldade. Dostoiévski, menos "purista" que o grande rival Tolstoi, é um São Jorge fascinado pelo Mal que combate mas que também assimila  como médium - a ponto de o senso comum declará-lo ele próprio como um autor niilista. Sua escrita polifônica impede que seus romances sejam catequéticos, sendo antes a irrupção bruta e pluralista das contradições que dilaceram os "desvãos e subsolos da alma humana", como Jung diria em Aion, noutro contexto de reflexão, mas se servindo, conscientemente ou não, de imagem que atesta o alcance gigante da sombra da antropologia dostoievskiana em nosso mundo em eclipse.
-Unzuhause